Pesquisas dão vantagem à oposição e kirchnerista leva marqueteiro do Brasil

O ESTADO DE S.PAULO – 09/11/2015

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE/BUENOS AIRES

Levantamento divulgado a duas semanas do 2º turno da eleição presidencial mostra conservador Mauricio Macri com 8 pontos de vantagem sobre governista Daniel Scioli; centro do país, onde estão maiores cidades, é região mais refratária a kirchnerismoBUENOS AIRES – A vantagem do conservador Mauricio Macri sobre o governista Daniel Scioli nas primeiras pesquisas do segundo turno da eleição argentina se explica pela brecha aberta na região com as maiores cidades. Levantamento da consultoria M&F dá à direita 51,8% das intenções de voto no país, ante 43,6% do kirchnerismo. O cenário adverso mudou a campanha governista, que buscou no Brasil novo marqueteiro.
A pesquisa publicada neste domingo, 8, no jornal Clarín indicou que Macri teve até agora maior capacidade de absorver os votos que foram de outros opositores no primeiro turno, quando ele teve 34,1% dos votos e Scioli, 37%. Isso foi apontado na semana passada por outros dois institutos, que mostraram uma margem de pelo menos 5 pontos porcentuais a favor da coalizão Cambiemos, da oposição.
Com votação inesperada, Maurício Macri obteve 34% dos votos e tenta capitalizar o descontentamento de parte da população com 12 anos de kirchnerismo
Com votação inesperada, Maurício Macri obteve 34% dos votos e tenta capitalizar o descontentamento de parte da população com 12 anos de kirchnerismo
O levantamento da M&F destaca a diferença de 10,1 pontos na intenção de voto entre os dois na região Central, onde estão 66,1% dos eleitores argentinos. A área inclui a Província de Buenos Aires (37% do eleitorado), a capital do país (8%) e as províncias de Córdoba (8,7%) e Santa Fé (8,3), onde estão a segunda e a terceira metrópoles (Córdoba e Rosário). Completam a região as províncias de Entre Ríos e La Pampa, menos populosas.
“A faixa central do país é a Argentina mais rica, o país industrial e exportador agropecuário. A vantagem de Macri tem um forte componente de classe social”, avaliou o sociólogo e professor da Universidade de Buenos Aires (UBA) Carlos de Angelis. Córdoba concentra a indústria automobilística e nas demais províncias predomina o pampa, relevo propício à atividade agrícola e à criação de gado. Os dois setores têm sofrido com a paralisia no comércio exterior, ligada à queda nas reservas em dólar e ao consequente controle sobre o câmbio, imposto em 2011. O kirchnerismo tem mais eleitores no norte, no nordeste e no sul do país, insuficientes para equilibrar o cenário.
A tendência de que Macri absorvesse a maior parte dos eleitores opositores foi reforçada logo após o primeiro turno, dia 25, quando o ex-kirchnerista Sergio Massa, que teve 21,4% dos votos, disse esperar que houvesse uma mudança no país e Scioli não vencesse. Ele afirmou no sábado ao Financial Times que não apoiará formalmente nenhum dos candidatos.
No domingo, os rivais participarão do único debate do segundo turno, na Faculdade de Direito da UBA. No primeiro turno, Scioli negou-se a enfrentar os cinco opositores em situação semelhante. Confiava em pesquisas que o colocavam perto de uma vitória sem segunda votação, possível se atingisse 40% dos votos e abrisse 10 pontos sobre Macri. Sem o governista, a maioria dos canais ligados à presidência de Cristina Kirchner desistiu da transmissão.
Desta vez, com Scioli, o evento deverá ser seguido pela maioria dos argentinos – a mídia governista agora se interessam em transmiti-lo.

“Não acho que o debate influencie no voto, a menos que haja um tropeço grave de um dos dois”, afirma o sociólogo e consultor Ricardo Rouvier. Sua opinião é reforçada por De Angelis, que avalia o momento governista: “Parece não haver no kirchnerismo uma autocrítica, razão pela qual sua campanha não faz um diagnóstico do que está ocorrendo”.

Legião estrangeira
O jornalista brasileiro Augusto Fonseca foi contratado pela campanha de Scioli para ajudar a reverter o quadro. O marqueteiro está desde a semana passada na Argentina, segundo um integrante da campanha governista.
O brasileiro foi assessor de imprensa de Fernando Henrique Cardoso na eleição de 1994. Em 1996, esteve na empresa do publicitário Duda Mendonça, com quem trabalhou para eleger Luiz Inácio Lula da Silva. Em 1999, já em sua própria consultoria, foi responsável pela estratégia de Marta Suplicy para chegar à prefeitura de São Paulo.
Na Argentina, sua empresa, a Marketing Político Brasil (MPB), trabalhou nas campanhas de Eduardo Duhalde, em 2000, e nas legislativas de La Plata e Córdoba, em 2009. Ele foi recomendado a Scioli pelo governador da Província de Entre Ríos, Sergio Urribarri. Há uma semana, a hipótese de contratação do marqueteiro João Santana foi descartada por Scioli, que disse não conhecê-lo.
Cristina cancela ida ao G-20, último giro internacional
A presidente Cristina Kirchner desistiu de ir à cúpula do G-20 que ocorrerá na Turquia no próximo fim de semana. Segundo o jornal La Nación, ela pretende acompanhar mais de perto a campanha e avisou seu candidato, Daniel Scioli, por telefone.
Nos spots que o governista transmitirá amanhã, quando recomeçará a disputa na TV – não há horário eleitoral gratuito, apenas inserções ao longo da programação – a palavra “mudança” será mais frequente. Até agora, Scioli falava em melhorar o que falta e avançar. Ele tende a se concentrar em propostas e deixar para as redes sociais a “campanha do medo” – assim a equipe do conservador Mauricio Macri se refere à insinuação kirchnerista de que o país voltará à crise de 2001 se a direita vencer. Macri tende a reforçar a ideia de governabilidade, já que administraria com menos deputados que o kirchnerismo. A falta de base parlamentar foi um fator de instabilidade em 2001.
Outra razão para a líder argentina, que deixará o poder em 10 de dezembro, ficar no país é a saúde do filho. Máximo Kirchner passou por cirurgia no fígado no sábado à noite, em razão de um abscesso, e se recupera bem.