Livro sobre jornalismo digital ibero-americano identifica tendência de mais investimentos no conteúdo online

Lançado no começo da semana passada (em 22 de fevereiro), o livro “Ciberperiodismo en Iberoamérica” detalha uma história de 20 anos, de 1995 a 2014, e aponta para o futuro do jornalismo online nos ibero-americanos, conforme noticiou o site da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Em entrevista ao Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, o coordenador da obra, o pesquisador espanhol Ramón Salaverría disse que, a partir da pesquisa, é possível dizer que os jornais impressos e a mídia tradicional, especialmente na América Latina, continuarão a ter hegemonia publicitária e editorial, como criadores de opinião pública, para cerca de mais cinco anos. No entanto, a tendência dessas editoras de conteúdo é migrar cada vez mais em direção a plataformas online. “(A mídia tradicional) vai seguir o caminho dos meios de comunicação dos países ocidentais desenvolvidos, que nesse sentido estão em declínio, pois a criação de opinião nesses países já passou para o domínio do ciberespaço.”

A transformação está em curso, e um dos dados importantes que revela o livro é que, apesar das possibilidades ilimitadas que dá o ciberespaço, os países ibero-americanos sempre procuraram atrair usuários nacionais. Isso se deve, de acordo com a pesquisa realizada por Salaverría, ao “desenvolvimento lento” e desigual da sociedade da informação. Por exemplo, em países da América Central e em áreas montanhosas e de selva da América do Sul têm existido um avanço lento, ao contrário do que aconteceu nos grandes centros urbanos de alguns países onde o acesso à conectividade tem sempre sido maior. No livro, o autor cita a este respeito que Brasil, Espanha, México, Argentina e Colômbia concentraram desde o início a maioria dos usuários da Internet na região.

O estudo destaca que são recentes os esforços de estratégia Ibero-americana de atrair usuários, como os dos jornais espanhóis El Pais, El Mundo, Marca; a empresa de notícias venezuelana teleSUR; e o portal chileno de jornalismo investigativo e de dados Poderopedia, que desde 2014 também atua na Colômbia e Venezuela.

Quanto à evolução do perfil do jornalista digital nestes primeiros 20 anos de jornalismo online, o pesquisador espanhol disse que os profissionais graduados a partir de 1994/1995 mostram uma consolidação e maturidade profissional como jornalistas digitais. “Tudo indica que a diversificação do perfil de cyber-jornalista vai se tornar ainda mais acentuada nos próximos anos e continuar a mudar. Um aspecto que irá gerar uma maior diversificação está relacionado com os dispositivos móveis”, disse Salaverría, também professor de jornalismo e diretor do Centro de Estudos de Internet e Vida Digital da Escola de Comunicação da Universidade de Navarra, na Espanha.

A respeito do jornalismo digital e sua relação com a liberdade de expressão, Salaverría afirmou que os meios digitais – por seu formato e seu baixo custo – têm aberto espaços no jornalismo alternativo, enriquecendo no geral a paisagem da informação na América Latina, que anteriormente estava nas mãos de empresas de mídia de oligopólios. Ele citou como exemplo dessa transcendência e impacto nacional e internacional o blog da jornalista Yoani Sanchez em Cuba, o Geração Y. Também em seu livro, ele destaca o papel da “mídia on-line” como contrapeso à censura em muitos países Ibero-americanos, chamando a internet de “melhor aliada da liberdade de expressão”. Questionado sobre se a mídia tradicional vai desaparecer no futuro próximo, Salaverría respondeu: “Eu vou morrer sem ver o jornal impresso desaparecer, mas não vou morrer em breve”.

O livro contou com a participação de 30 pesquisadores ibero-americanos. No prefácio da obra, o jornalista brasileiro Rosental Alves, fundador e diretor do Centro Knight, afirma que o estudo é uma contribuição sólida para a limitada literatura que existe nesta área de pesquisa em comunicação na Ibero-América. “Vinte anos depois, há uma centena de vezes mais usuários de Internet no mundo, cerca de 3 bilhões de pessoas”, observou Alves. O livro contém 22 capítulos que respeitam a mesma estrutura, permitindo uma análise comparativa dos mercados jornalísticos nacionais na região. Cada capítulo tem quatro partes: contexto tecnológico; história do jornalismo on-line no país; perfil profissional, formação e enquadramento jurídico; e futuro.

https://knightcenter.utexas.edu/pt-br/blog/00-16754-vinte-anos-de-jornalismo-online-na-ibero-america-sao-contados-em-livro-pela-primeira-v