Pesquisas apontam vitória do ‘não’ em referendo na Itália

FOLHA DE S.PAULO – 05/12/2016

Diogo Bercito

Pesquisas apontam que os eleitores italianos rejeitaram neste domingo (4) o referendo constitucional convocado pelo governo, segundo as primeiras estimativas após o fim do voto, encerrado às 23h locais (20h em Brasília).

Não há um resultado oficial, mas o canal italiano Rai estimou que entre 54% e 58% dos eleitores votaram pelo “não”. Se confirmado, o resultado é uma derrota para o premiê Matteo Renzi, que havia defendido o referendo. Esse cenário favorece movimentos populistas.

O premiê havia proposto a reforma na Constituição, a maior mudança no texto desde o fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). “Nós estamos jogando para decidir os próximos 20 anos”, disse Renzi durante a campanha na sexta-feira (2).

O voto indica, dessa maneira, o grau de insatisfação popular com o governo de Renzi, outrora uma promessa política. Ele chegou a ameaçar com sua renúncia, caso a reforma constitucional não fosse aprovada. Não estava claro, porém, se ele cumpriria a sua ameaça.

Sua popularidade está em queda devido à persistência dos entraves econômicos, apesar das promessas de seu governo. O PIB (Produto Interno Bruto) deve crescer apenas 0,8% durante ano.

A crise italiana está ademais relacionada ao restante do continente europeu, onde movimentos contrários ao “establishment” político têm se fortalecido. Um candidato da extrema direita chegou próximo à Presidência da Áustria neste domingo (4).

O referendo italiano não estava diretamente vinculado à União Europeia. Mas analistas apontaram, nos últimos meses, que a vitória do “não” poderia desencadear uma crise política que culminaria em sua saída do bloco, como a votada em junho no Reino Unido.

A União Europeia e sua moeda comum, o euro, são considerados por parte da população italiana como a causa da estagnação econômica e da crise política.

ELEITORES
Brasileiros com cidadania italiana puderam votar por correio enviando suas cédulas até 1º de dezembro. Estima-se que 30% dos cerca de 400 mil eleitores no Brasil tenham participado do referendo. Havia no total 51 milhões de possíveis eleitores.

Houve campanha pelo voto, como a capitaneada pela ítalo-brasileira Renata Bueno, eleita em 2013 para a Câmara dos Deputados da Itália. Bueno defendia o “sim”. Em entrevista à Folha nesta semana, ela disse que o texto proposto por Renzi era “o coração das reformas de que a Itália está precisando”.

SENADO
O texto votado no referendo propunha alterações na Constituição tendo em vista simplificar a burocracia do país. Por exemplo, os prazos para a aprovação de leis. Hoje a Câmara e o Senado têm o mesmo poder na Itália. O governo afirma que a paridade emperra os processos.

Renzi propôs, portanto, que o Senado fosse esvaziado. O número de senadores diminuiria de 315 para 100 e a Casa não poderia, por exemplo, dissolver governos.

O Senado tampouco poderia aprovar leis, tornando-se assim uma espécie de órgão de consulta. Senadores só teriam poder de decisão em casos restritos, como as modificações na Constituição.

Outra mudança proposta pelo premiê era centralizar o poder em Roma, diminuindo a importância de entidades regionais. Esse ponto, em específico, foi bastante criticado como indício de demasiada concentração na capital.

DIVISOR
Estava claro, nas últimas semanas, que o cenário político italiano seria modificado por esse referendo, quer ganhasse o “sim” ou o “não”. Movimentos populistas, como o Cinco Estrelas, podem beneficiar-se da insatisfação popular -mesmo que tampouco ofereçam as suas soluções à crise econômica.

Beppe Grillo, líder do Cinco Estrelas, chegou a sugerir que os eleitores votassem a partir do “instinto” e rejeitassem o referendo de Renzi. “Não adiante eu explicar o referendo para vocês. Vocês não vão entender. Nem eu entendo”, afirmou Grillo.

A ideia de voto por “instinto” era estimulada pela sensação de que o referendo era técnico e complicado. Apenas 17% da população “conhecia bem” o que estava em discussão no referendo, segundo uma pesquisa divulgada pelo canal italiano Rai. A maior parte (46%) afirmava ter um conhecimento “superficial” do voto.