Falsas notícias: corrigir as falhas do Facebook não é papel da imprensa, diz CEO da Axel Springer

Mathias Döpfner e Mark Zuckerberg em entrevista feita pelo CEO da Axel Springer no começo de 2016. Foto de Daniel Biskup/Business Insider.

Liderado por seu CEO, Mathias Döpfner, o influente grupo de mídia Axel Springer resolveu endurecer com a insistência do Facebook em não se responsabilizar pelas falsas notícias propagadas na web. A editora alemã, segundo informou o Financial Times, decidiu não verificar fatos para o Facebook e levantou a voz contra as parcerias que a empresa norte-americana tem feito junto a outros publishers com esse objetivo.

Döpfner disse considerar “um erro fundamental” para editores ou broadcasters públicas ajudarem as mídias sociais a resolver os problemas de credibilidade delas. “Isso é pedir demais para nós, e de qualquer maneira não é nosso trabalho”, enfatizou. “Seria como se a BMW dissesse que meu trabalho é consertar os carros de alta tecnologia Tesla (ainda em desenvolvimento)”, chegou a comparar um executivo sênior de mídia da Alemanha, em apoio ao entendimento da Axel Springer.

O movimento de Döpfner é amplo. Ele criticou, por exemplo, as informações segundo as quais o governo alemão estaria considerando a criação de uma unidade especial para combater a desinformação na internet. “É completamente ridículo pensar que é tarefa do governo, por meio de uma espécie de ‘Ministério da Verdade’, decidir qual informação é verdadeira e o que não é”, afirmou Döpfner. “Ninguém tem o direito de definir o que é a verdade, e muito menos o governo”.

As declarações já seriam de alto impacto por virem do maior publisher da Europa, mas ganham ainda mais relevância no momento em que a Axel Springer registrou 6,5% de crescimento no seu lucro Ebitda entre 2015 e 2016 com base em ações no ambiente natural do Facebook. O grupo alemão tem investido fortemente em marcas de conteúdo digital e e-commerce. Em 2015, a Axel Springer comprou o Business Insider, detém o canal de notícias online N24 e é proprietária de 50% do site político Politico Europe e de 93% do eMarketer. Também edita o popular Bild e o quality paper Die Welt, entre outras publicações.

O posicionamento da Axel Springer deve dificultar as tentativas de Mark Zuckerberg de replicar na Alemanha o que fez na França. Há um mês, a rede social anunciou acordo com empresas de mídia francesas, como Le Monde, Libération e FrancePresse para uma frente de factchecking no Facebook.

Notícias falsas não são o único problema enfrentado pelo duopólio global Google/Facebook. A União Europeia vem tomando decisões em relação às práticas comerciais dessas e de outras empresas gigantes de tecnologia acusadas de evasão de tributos, não pagamento de direitos autorais aos produtores de conteúdo, entre outros abusos de poder econômico). Para alguns analistas, o movimento da Axel Springer tem potencial para levantar uma nova linha de debate sobre como combater as falsas notícias numa Europa cuja agenda política deste ano é marcada por eleições.

Os governos europeus mostram querer encontrar rapidamente medidas preventivas para não repetir os excessos da eleição presidencial dos Estados Unidos, em 2016, marcada pela desinformação na internet. Alemanha e França são dois dos países que enfrentam pleitos críticos e estão particularmente preocupadas com o impacto das falsas notícias no comportamento dos eleitores.