Estratégia do Correio (BA) de rápida transição ao digital desperta interesse na Grã-Bretanha

DispositivosEstabelecer uma cultura digital nas redações, valorizar as versões impressas a partir das rotinas online, garantir integração com as demais áreas a partir dos mesmos princípios e qualificar a produção jornalística. Esses são apenas alguns dos movimentos necessários aos jornais, desafiados a incrementar seus negócios e fortalecer a prática do jornalismo na era tecnológica. Trata-se de um conjunto de tarefas árduas para publicações de todo o mundo e, muitas vezes, algo que parece ser intangível, principalmente para veículos locais. A experiência do jornal Correio, da Bahia, que despertou o interesse do site especializado britânico Journalism, entretanto, mostra que essas transformações são viáveis e, desde que bem planejadas, podem ser implantadas mais rapidamente do que se imagina.

No diário baiano, entre a primavera de 2016 e o fim deste verão, os 90 integrantes da redação e os colaboradores das demais áreas passaram a atuar de forma integrada e com prioridade nas lógicas digitais e nos princípios da constante inovação. Cenário totalmente diferente daquele de meados do ano passado, quando o jornal com sede em Salvador tinha apenas uma pequena equipe digital, com nove a dez pessoas, atuando de forma isolada da redação e voltada somente na produção de conteúdo para o site do jornal.

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Roberto Gazzi: primeiro houve envolvimento dos editores e depois de toda a redação para entender a necessidade de transformação, ouvir sugestões e abrir com clareza as mudanças e os objetivos.

Na prática, as ideias e iniciativas de transformação começaram a brotar a partir da ação do jovem jornalista Juan Torres, que em janeiro de 2016 assumiu a função de diretor de inovação do Correio. A primeira experimentação digital foi feita na editoria de notícias locais, antes comandada por Torres. Outra novidade foi o uso do WhatsApp na formação de comunidades entorno das coberturas de jogos de futebol. Mas a “revolução” digital ocorreu mesmo a partir de setembro de 2016, com a chegada do experiente jornalista Roberto Gazzi, ex-diretor de desenvolvimento editorial do jornal paulista O Estado de S.Paulo, à direção executiva do diário baiano.

Logo de início, o editor percebeu que a separação do digital e impresso ainda era muito grande, com desvantagem para o online. “Reuni, então, um grupo para que rapidamente fosse montado um plano de integração real da redação. Aproveitei minha experiência do trabalho semelhante que ajudei a conduzir no Estado de S.Paulo. Em dois meses, discutimos, finalizamos e começamos a implantar o plano”, contou Gazzi à Associação Nacional de Jornais (ANJ). “[Antes] Todo mundo estava focado no papel, incluindo a equipe de marketing”, atestou Torres, em entrevista ao Centro Knight.

De lá para cá, também com a colaboração da consultora Mariana Santos, o jornal promoveu oficinas e hackathons pautados pela interação e colaboração, e com a presença do pessoal de diferentes departamentos. Tudo pensando não apenas para engajar e dar voz às pessoas, mas também para contornar eventuais resistências.

“Qualquer mudança gera reações, principalmente em uma redação, com sua rotina tão consolidada. Mas foi pouca, muito abaixo do que esperava”, comentou Gazzi. “Nossa estratégia foi de ir envolvendo primeiro os editores e depois toda a redação para entender a necessidade da mudança, ouvir suas sugestões e abrir com clareza as mudanças e os objetivos. E envolvemos e ouvimos até as demais áreas. E aí, ao contrário do esperado, o engajamento foi grande”, afirmou.

Troca de experiências e perfis valorizados

No que diz respeito à rotina jornalística, foram repensadas as atividades dos profissionais, com realocação de alguns, para que todos passassem a trabalhar em projetos e formatos com os quais se sentem mais confortáveis e eficientes, disse Torres ao site Journalism. “Não promovemos demissões, mas mudamos funções e deveres, identificando pessoas que já estavam familiarizadas com o digital”, afirmou. Trata-se de um dos itens mais importantes do pacote de mudanças, na visão de Gazzi. “Isso é fundamental. Respeitar e tentar tirar de cada um seu melhor. Não temos a pretensão de transformar a todos em jornalistas totais. Mas certamente, quem quiser saber e fazer mais será incentivado”.

Nessa linha, o jornal otimizou a troca de experiências entre os mais jovens, acostumados com universo online, e os jornalistas oriundos do período em que a cultura do papel prevalecia, aperfeiçoando o conhecimento dos dois grupos. Isso ocorreu inclusive em um dia de treinamento, no qual os que tinham habilidades especiais compartilharam com o restante da redação. “Este é um processo ainda em andamento. A passagem de conhecimento dos mais velhos para os mais novos agora mudou, por conta da tecnologia. Respeitadas as individualidades, ambos os grupos só têm a ganhar. E o jornal e seus produtos digitais também”, enfatizou Gazzi.

Ação integração traz vantagens a diferentes áreas

Na transversalidade entre departamentos, lembrou Marina Santos, em relato ao Centro Knight, constatou-se que, no olhar da publicidade, as notícias estavam em segundo plano. Exemplo disso é o excesso de anúncios do tipo pop-up usados no site até a implantação das mudanças. Por isso, as reuniões semanais entre todas as áreas ganharam importância e, a cada duas semanas, há outro encontro onde os funcionários podem aprender e discutir exemplos de inovação em outras redações.

A prática de discussões entre as equipes publicitárias e editoriais do Correio não apenas encontrou solução para problemas, como abriu caminho para a melhor aplicação de conteúdo patrocinado e a integração para fora da empresa. “As outras áreas abraçaram com gosto o projeto. Até porque, se bem feito, as áreas de vendas serão as maiores beneficiárias. E eles estão participando com gosto, como no caso de hackathons que fizemos”, disse Gazzi para, em seguida, lembrar: “O impresso é ainda a grande fonte de receita. Mas é uma receita cadente, como em todos os jornais brasileiros, e precisamos melhorar o ambiente digital para sobreviver com a força da marca e do jornalismo do Correio”.

Hoje, afirmou recentemente à ANJ o gerente de Mercado Leitor do jornal, Welter Arduini, há inclusive um avançado uso de aplicativos (APPs) que unificam a experiência das audiências com conteúdo a seus hábitos de consumo, valorizando os serviços prestados pelos parceiros comerciais, permitindo melhores índices de receita e audiência.

Métricas mais precisas: conhecimento do leitor e melhor jornalismo

Essas iniciativas também têm por base o uso de métrica mais adequada, outra grande inovação no Correio. O Charbeat passou a ser aplicado, e atualmente a mensuração mais importante para o diário, de acordo com o site Journalism, é calculada com base em uma fórmula que reúne três figuras-chave: visitas de leitores leais (50% da pontuação), tempo dedicado à leitura e a imagens (40%) e visualizações de páginas em geral. Os jornalistas têm fácil acesso a este painel para poder monitorar o impacto de suas reportagens. Ao mesmo tempo, Torres envia um e-mail todas as manhãs com dados e comentários, convidando os repórteres a comentar e compartilhar suas opiniões sobre os temas publicados.

“Toda a nossa estratégia foi direcionada a métricas de leitores leais, não apenas na mentalidade de ‘clique’”, disse Torres ao Centro Knight. A decisão de priorizar a atração de leitores mais leais, em vez de um número maior de visitantes, fez parte do compromisso do Correio de criar “valor” para o público, completou o jornalista. De acordo com Gazzi, os leitores leais são os mais importantes para o jornal, pois são “a base” do engajamento. “Claro que não desprezamos os eventuais. Pelo contrário, estamos melhorando nossos produtos justamente para tornar leais os eventuais. E aos leais tentamos servir cada vez melhor”, comentou.

O editor executivo do jornal acrescenta outro ponto importante da métrica: soma para dar ainda mais qualidade jornalística. “A métrica nos tira do empirismo, da velha e conhecida sensibilidade dos editores para as notícias. A métrica nos deixa mais humildes, nos faz refletir melhor sobre nosso trabalho. Mas sabendo que audiência não é tudo. E que devemos continuar usando nossa sensibilidade”, frisou Gazzi. Os primeiros indicadores mostram acerto na estratégia. Entre dezembro do ano passado e janeiro de 2017, o número de visitantes leais cresceu 13%, o retorno de visitantes foi de 35% e a quantidade de novos usuários subiu 102%.

Atenção especial às redes sociais e vídeos

A relação com audiência passa ainda por mais dedicação às redes sociais, ao uso de vídeos e a aproximação dos jornalistas com os especialistas de tecnologia da informação (TI). No último caso, profissionais terceirizados que mantinham contato apenas à distância agora são convidados para os hackathons. “Com isso, muitas pessoas que conhecíamos apenas por telefone estão participando dos projetos e dando ideias”, comemorou Torres. “Saber que é possível  fazer mais, melhor e diferente. Mas também que às vezes aquela ideia é quase impossível de ser realizada e tirá-la da frente”, disse Gazzi, ao comentar as vantagens da aproximação com o pessoal de TI.

Outro passo decisivo no meio digital foi criar uma área dedicada ao vídeo e destacar um jornalista exclusivamente ao gerenciamento de redes sociais. Os setores interagem com a redação e isso garante presença do jornal no online com linguagem apropriada, desde a produção inicial da reportagem, quando o jornalista já sabe que precisará ter parcela da sua produção em narrativas digitais. Também permite ao jornal fazer melhores escolhas em seus canais de comunicação. Há planos de incremento nessas duas áreas.

Tecnologia amplia impacto das grandes reportagens

Há quem ainda imagine o meio digital um espaço apenas para conteúdos de rápido e fácil consumo. Novamente a iniciativa do Correio mostra que não é bem assim, e que todas as transformações fortaleceram o jornalismo do diário. “Costumo dizer que a tecnologia propiciou aos jornalistas ferramentas para a feitura de um bom jornalismo como nunca tivemos. Além de texto e foto, agora podemos produzir e editar isso com vídeos, sons, infografias animadas, interatividade… E menos datado”, justificou Gazzi. “Fizemos um especial ‘Vozes da Seca’, que temos atualizado periodicamente. As suítes feitas no próprio ambiente da reportagem especial original! Isto é aprofundamento. Eu mesmo estarei no domingo (19), dia de São José, atualizando e agregando conteúdo a este especial. Nunca imaginei um dia poder fazer isso!”.

Os temas que a redação do jornal baiano tem aprofundado vão desde a seca, citada por Gazzi, a histórias de identidade transgênero. O Correio também foi reconhecido com prêmios de INMA, WAN-IFRA e Vladimir Herzog de Direitos Humanos por seu relatório especial sobre estupro em Salvador chamado “O Silêncio dos Inocentes”.

Flexibilidade

O editor executivo do diário chamou a atenção, porém, a outra prática decisiva no processo de mudanças é justamente a disposição de continuar mudando. “Nestes tempos de tantas e tão rápidas mudanças, ninguém sabe exatamente para onde estamos indo. Então, vamos em frente. Tentar o melhor caminho possível e para isso a flexibilidade é um bom companheiro.”

Leia mais em:

https://www.journalism.co.uk/news/the-10-steps-of-correio-s-digital-transformation/s2/a700891/

https://ijnet.org/en/blog/local-newspaper-brazil-creates-roadmap-digital-innovation#.WMbokZojGKc.whatsapp