A INDÚSTRIA JORNALÍSTICA

Cenários

CENÁRIO –  14 DE Maio DE 2015

O ano de 2014 foi particularmente difícil para a indústria jornalística brasileira devido a uma conjunção de fatores. Aspectos econômicos domésticos resultaram em diminuição das receitas publicitárias e da circulação impressa. Essas perdas foram parcialmente compensadas por um vigoroso crescimento das edições digitais pagas e as receitas a elas associadas.

A forma como o Brasil superou o impacto inicial da crise econômica mundial que eclodiu no último trimestre de 2008 fez supor que o país retomaria o ritmo de crescimento exibido nos anos que a antecederam, com impacto correspondente na indústria jornalística. Esse não era um cenário injustificadamente otimista. De 2004 a 2010, a economia brasileira cresceu, em média, cerca de 4% ao ano.

Em consequência da crise internacional, em 2009, o Produto Interno Bruto (PIB) sofreu uma retração de 0,3%, mas exibiu uma forte recuperação no ano seguinte (crescimento de 7,5%, em 2010). Esse resultado foi atribuído, de um modo geral, às medidas anticíclicas adotadas pelo governo federal, em particular ao estímulo ao consumo de bens duráveis por meio de reduções da carga tributária.

No mesmo período, o mercado publicitário manteve-se vigoroso e a circulação paga de jornais, crescente desde 2003, registrou uma ligeira perda em 2009, mas se recuperou em um ano, alcançando níveis recordes em 2011 e 2012.

A recuperação econômica, entretanto, não se revelou sustentável. Em 2012, o PIB cresceu apenas 1,0% e, em 2013, o crescimento foi de 2,3% (o terceiro menor em dez anos), novamente aquém das expectativas, uma vez que o Fundo Monetário Internacional (FMI), que em 2012 estimara para 2013 uma expansão de 3,75% a 4,25%, em relatório publicado em maio, reduziu sua projeção para o Brasil em 2,2% a 3%. O esgotamento das medidas anticíclicas heterodoxas, reconhecido pelo próprio governo no início de 2015, confirmou-se em 2014, quando o PIB registrou variação de +0,1% em relação a 2013, totalizando R$ 5.521,3 bilhões.

Número de títulos e distribuição geográfica

O Brasil tem 5.219 jornais, 784 dos quais diários. Esses números são substancialmente superiores aos informados em anos anteriores mas a diferença deve-se, provavelmente a falhas nos dados anteriores,  compilados pelo Grupo de Mídia de São Paulo e não a um aumento real do número de títulos. As informações sobre circulação e número de jornais colocam o país em 4º lugar no mundo em número de títulos e em 8º em circulação. Isso significa um título para cada grupo de 38.852 habitantes.

Geograficamente, a região Sudeste, com quase 42% da população, tem mais da metade do total de títulos e 48,3% dos diários (2.792 títulos, sendo 379 diários). Proporcionalmente, não está muito distante da situação nacional, pois há nessa região um jornal para cada 30.485,5 habitantes.

Já a região Sul, com 14,3% da população e 1.293 títulos (189 dos quais diários), tem um título de jornal para cada 22.440,9 habitantes. Inversamente, a região Nordeste, a segunda mais populosa do país, com 56,2 mihões de habitantes, tem 375 jornais (dos quais 91 diários), o que significa um título para cada 149.829,8 moradores.

 

Audiência

Em 2014, as edições impressas dos jornais brasileiros não mantiveram a tendência de crescimento da circulação paga diária média registrada ao longo de quase toda a década anterior. A queda, entretanto, foi pequena (de 4.393.434 exemplares, em 2013, para 4.392.567, em 2014), uma diminuição observada sobretudo nas vendas avulsas, (7,6% – de 2.192.117 para 2.025.364), enquanto as assina­turas cresceram 7,5%, passando de 2.201.317, em 2013, para 2.367.205, em 2014.

No mesmo período, as edições digitais mais que dobraram, pois registraram uma expansão de 118% (500.370), ante 228.944, no ano anterior. Em consequência, a participação das edições digitais no total de circulação auditada passou de 5,2% para 11,4%, com pico de 15,1% em dezembro de 2014. No total, a circulação – impressa + digital – foi de 4.392.567 (média da circulação diária dos 93 jornais auditados pelo IVC).

A evolução da circulação por tipo de venda desde 2010 está representada no gráfico 1

Gráfico 1

Evolução da circulação média por tipo de venda – IVC

GRAFICO 1

Ao mesmo tempo, o acesso às edições veiculadas via smartphone dobrou em 2014, enquanto os acessos por tablet tiveram um crescimento menor, num reflexo da queda na venda desse tipo de dispositivo. Segundo o IVC, em janeiro de 2014, o acesso mobile aos websites representava 13% do total. Em dezembro, esse número já era 27%. Já o tráfego via smartphone aumentou de 10% para 23% e o acesso por meio dos tablets subiu de 3% para 4%.

Paywall

Desde 2013, muitos dos jornais com maior presença no mercado, acolheram sugestão do Comitê de Estratégias Digitais da Associação Nacional de Jornais, passaram a restringir o acesso gratuito aos conteúdos jornalísticos veiculados em suas edições digitais. Em consequência, a maioria desses jornais adotou variantes do chamado modelo de “paywall poroso”, como se tornou conhecido internacionalmente o sistema desenvolvido pelo The New York Times. Em abril de 2014, os jornais brasileiros que já haviam adotado essa prática eram responsáveis por cerca de 40% da circulação impressa paga.

A adoção do paywall poroso, combinada com a decisão do IVC de admitir como audiência paga auditada as assinaturas de edições digitais vendidas com descontos de até 75% (percentual posteriormente elevado para 85%) do valor cobrado pelas assinaturas digitais das edições impressas, e a estratégia de vender várias modalidades de pacotes de assinaturas (impresso + digital) são motivos do crescimento da audiência digital dos jornais brasileiros.

Investimento Publicitário

Apesar do cenário econômico desfavorável, os investimentos publicitários no Brasil tiveram um crescimento, em 2014, expressivamente superior ao PIB: um aumento de 4,1% em relação a 2013, totalizando R$ 33,5 bilhões (R$32,2 trilhões, em 2013), conforme o Projeto Inter-Meios, coordenado pela publicação especializada Meio & Mensagem.

Os jornais, no entanto, não foram beneficiados pela evolução dos investimentos publicitários. Enquanto a TV aberta teve aumento de 8,07% em relação a 2013, com um faturamento de R$ 23,2 bilhões e uma participação no bolo publicitário de 69,08%, os jornais registraram uma queda expressiva ( – 11,63%), com faturamento de R$ 2,9 bilhões. Apesar da retração, os jornais mantiveram a condição de segundo mais importante em termos publicitários, com 8,59% do total, em 2014, contra 10,12%, no ano anterior.

A queda nos investimentos publicitários dos jornais não está relacionada à queda da circulação dos títulos populares, uma vez que, no meio Jornal, tais investimentos são majoritariamente feitos nos quality papers. É preciso considerar, entretanto, que os dados relativos à publicidade em jornal mencionados nos parágrafos anteriores não incluem os valores relativos às edições digitais, uma vez que o Projeto Inter-Meios separava, desde 2013, os investimentos publicitários em meios digitais em duas categorias: internet pura e outros meios (nas quais se incluem as versões digitais das mídias tradicionais). Em 2014, o meio Internet teve queda seu faturamento publicitário, a segunda em dez anos. O fato se deve a não contabilização de dados de grandes players do mercado — notadamente Google, Facebook e Buscapé — que, embora sabidamente apresentem crescimento acelerado, não fornecem seus números ao auditor.

 

 Os Gráficos 2 e 3 refletem a distribuição em termos de share (%).

GRAFICO 2

GRAFICO 3

 Fonte: Projeto Inter-Meios.

Apesar do resultado negativo, o Comitê Mercado Anunciante da ANJ avalia que 2013 foi um ano satisfatório porque a retração dos investimentos em jornais teve por causa principal a frustração da expectativa de crescimento, conforme indicam as sucessivas quedas de projeção do PIB ao longo do ano. No Brasil, mais do que em outros mercados, é usual que, em momentos de incerteza ou retração da atividade econômica, os investimentos publicitários sejam concentrados nas mídias de maior audiência, como a TV aberta. Esse fato explica, em grande medida, o recuo dos jornais frente à TV.

O Projeto Inter-Meios, embora seja a principal referência do mercado de comunicação brasileiro em relação aos investimentos publicitários, representava um problema para a indústria jornalística porque era elevado o número de jornais que, por diversas razões, não forneciam seus dados (em 2014 o Brasil tinha 784 jor­nais diários, mas, desse total, apenas 61 informaram seu faturamento publicitá­rio ao Inter-Meios). Essa subnotificação que não tinha o mesmo impacto em outras mídias, notadamente a televisão aberta, se traduzia em um share menor que o real. Diante disso, uma nova metodologia foi adotada em 2014. Em decorrência disso, é feita uma extrapolação do faturamento declarado pelos veículos para o univer­so total de cada mídia, aproximando mais esse faturamento da realidade do mercado. Dessa forma, pela extrapolação feita, em 2014 os jornais tiveram uma fatia de 11,4% do bolo publicitário do país, em lugar dos 8,59% registrados pelo método ante­rior. Isso significa que, em 2014, os jor­nais brasileiros faturaram R$ 4,5 bilhões, confirmando-se como a segunda mídia que mais recebeu investimentos publicitá­rios no país, depois da TV aberta, com 58,5% do total.

 

Reposicionamento do meio Jornal

Ainda na avaliação do Comitê Mercado Anunciante, os jornais enfrentam uma crise de percepção pelo mercado, mais do que uma crise de audiência. Por isso, a ANJ traçou uma estratégia de reposicionamento da indústria perante o mercado anunciante, anunciada durante o 10º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em São Paulo, em agosto de 2014. A referida estratégia envolve uma série de ações com o objetivo de demonstrar o valor da mídia Jornal, comprovado por meio de pesquisas, e a promoção de eventos para reaproximar os jornais do mercado anunciante. O propósito da iniciativa é reforçar a importância dos jornais como veículo publicitário, combinando as versões impressas e digitais e enfatizando a força das marcas dos jornais que, por sua tradição e credibilidade, proporcionam grande retorno aos anunciantes. Faz parte dessa estratégia o lançamento de uma plataforma comum dos jornais de todo o país para a venda de publicidade online.

Concretamente, entre as iniciativas a serem implementadas em 2015 estão a criação do que foi denominado de “Rede Digital Premium” (para publicidade simultanea em sites jornalísticos) um “Marketplace” (que facilitará enormemente a contratação de publicidade em múltiplos jornais simultaneamente), além da a adoção de novas métricas de audiência por parte das entidades que monitoram o mercado de mídia  a fim de que reflitam mais adequadamente e com credibilidade junto ao mercado, a audiência total dos jornais, não apenas pela circulação das edições impressas, mas em todas as plataformas.

 Credibilidade

O vigor da indústria jornalística brasileira foi atestado pela “Pesquisa Brasileira de Mídia 2015: hábitos de consumo de mídia pela população brasileira”, realizada para a Secretaria de Comunicação Social (SECOM), da Presidência da República com mais de 18 mil entrevistas. Dentre os entrevistados, 58% afirmaram confiar muito ou sempre no meio jornal, contra 40% que confiam pouco ou nunca. Além disso, dos leitores de jornal, 50% disseram não fazer nenhuma outra atividade enquanto o consome. Em relação às novas mídias, reina a desconfiança. Respectivamente, 71%, 69% e 67% dos entrevistados disserem confiar pouco ou nada nas notícias veiculadas nas redes sociais, blogs e sites.

Em relação à publicidade, 48% dos entrevistados que leem jornal responderam que confiam sempre ou muitas vezes, seguidos dos consumidores de TV e de rádio, ambos com 44%. Em termos de confiança, o suporte midiático importa na hora de se veicular notícias ou informação publicitária.

A escolaridade e a renda dos entrevistados são os fatores que mais aumentam a exposição aos jornais: 15% dos leitores com ensino superior e renda acima de cinco salários mínimos (R$ 3.620 ou mais) leem jornal todos os dias. Entre os leitores com até a 4ª série e renda menor que um salário mínimo (R$ 740), os números são 4% e 3%.

Praticamente a metade dos brasileiros (48%) usa internet. O percentual de pessoas que a utilizam todos dos dias cresceu de 26% em 2014 para 37% em 2015.

     O uso de aparelhos celulares como forma de acesso à internet já compete com o uso por meio de computadores ou notebooks, 66% e 71%, respectivamente. O uso de redes sociais influencia esse resultado. Entre os internautas, 92% estão conectados por meio de redes sociais, sendo as mais utilizadas o Facebook (83%), o Whatsapp (58%) e o Youtube (17%).

Jornais no mundo
  • Penetração de jornais no mundo
  • Circulação mundial de jornais
  • Títulos de jornais no mundo

 

 

Definição de jornais diários

Em 1988 a WAN – Associação Mundial de Jornais adotou a definição da UNESCO para jornais diários com o objetivo de padronizar e facilitar comparações internacionais. De acordo com essa definição, usada pelo World Press Trends (publicação da Associação), jornais diários são aqueles publicados no mínimo quatro dias por semana. Jornais não diários são aqueles publicados 3 dias ou menos.

Clique aqui para visualizar a definição no site da UNESCO (em inglês). A página será aberta em “Glossary” e deverá ser feita a busca por “daily newspaper“.

O que dizem: citações sobre os jornais

“Os jornais sempre aguçam a curiosidade. Ninguém acaba de lê-los sem sentir uma certa decepção”.
Charles Lamb, 1833

 

“Nunca se esqueça de que se não conseguir atrair o leitor do jornal com sua primeira frase, nem precisa escrever a segunda”.
Arthur Brisbane, 1900

 

“Dizia-se que a vida de um homem é como um livro fechado. É verdade, mas é também um jornal aberto”.
Finlay Peter Dunne, 1902

 

“O fato de um cachorro morder um homem não é notícia, mas quando um homem morde um cachorro, aí, sim é notícia”.
John B. Bogart, Editor NY Sun, 1882

 

“Os jornais não se definem pela segunda parte da palavra [paper, em inglês].
Têm que ser definidos pela primeira parte da palavra [news (notícia) em inglês]”.
Publisher do New York Times, Arthur Sulzberg, Jr.

 

“‘Jornais! Senhor, são os maiores vilões, licenciosos, abomináveis, infernais – Eu nunca os leio!
Não,faço questão de jamais passar os olhos num jornal.’”
Richard Brinsley Sheridan, na peça The Critic. Ato I, cena II

 

“Os jornais detêm o poder. Qualquer outro governo se reduz a alguns poucos fuzileiros navais no Forte Independence. Se alguém esquecer de ler o Daily Times, o governo cairá a seus pés, pois esta é a única forma de traição que existe hoje em dia”.
Henry David Thoreau, ensaísta e naturalista americano, 1906

 

“Vivemos sob um governo de homens e jornais matutinos”.
Wendell Phillips, abolicionista e orador americano, 1852

 

“A maioria de nós provavelmente acha que não seria livre sem os jornais, e é exatamente por isso que queremos que os jornais sejam livres”.
Edward R Murrow, jornalista americano de rádio e televisão, 1958

 

“Ler um jornal pela primeira vez é como entrar no cinema e encontrar o filme já com uma hora de exibição. Os jornais são como novelas. Para entendê-los é preciso conhecê-los; o melhor conhecimento é o fornecido pelo próprio jornal”.
V.S. Naipaul, romancista, 1987

 

“Francamente, apesar do meu horror da imprensa, adoraria levantar do túmulo a cada dez anos mais ou menos e sair para comprar uns jornais”.
Luis Buñuel, cineasta espanhol

 

“Muitas vezes me pergunto o que os historiadores do futuro dirão sobre nós.
Bastaria uma frase para descrever o homem moderno: fornicava e lia jornais”.
Albert Camus, romancista, dramaturgo e filósofo francês, 1956

 

“Meus médicos me disseram esta manhã que minha pressão baixou.
Então, posso voltar a ler os jornais”.
Ronald Reagan, presidente americano, 1987

 

“Na minha opinião, longe de merecer condenação pela coragem com que relatam os fatos, o New York Times, o Washington Post e outros jornais deveriam ser louvados por cumprirem os propósitos tão claramente defendidos pelos fundadores de nosso país”.
Hugo L Black, Ministro Adjunto, Supremo Tribunal Federal dos EUA, em seu parecer sobre o direito de a imprensa publicar os documentos secretos do Pentágono, 1971

 

“Isto é prova viva da inverdade do velho ditado de que nada é mais morto que o jornal de ontem … Tratase do que realmente aconteceu, relatado por uma imprensa livre a um povo livre.  É a matéria-prima da história; é a história de nossos tempos”.
Henry Steel Commager, historiador, 1951

 

“Notícia é algo que alguém em algum lugar deseja suprimir; todo o resto é publicidade”.
Lorde Northcliffe

 

“Se quiser ver as emissoras de TV em pânico, visite uma cidade onde os jornais estão em greve”.
Anônimo

FONTES:Bartlett, John. Familiar Quotations, 10ª ed., Ampliada e editada por Nathan Haskell Doyle, Bartleby.com, New York, 2000.

www.bartleby.com/100/
www.ifitsinthepress.com/

Voltar para o Topo