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“Crianças falam a verdade?” - sobre ortografia e contemporaneidade

Ana Rosa Vidigal Dolabella (*)

Discutir o baixo desempenho em ortografia de alunos do ensino fundamental no país foi a meta de pesquisadores e formadores no Instituto Universitário de Formação de Professores (IUFM), em Grenoble, importante pólo acadêmico da França. 

Uma pesquisa, realizada entre 1987 e 2005, que envolveu seis mil alunos franceses, demonstrou uma baixa significativa no domínio da ortografia: se em 1987, 50% dos alunos pesquisados fizeram menos de 6 erros no ditado, em 2005, apenas 22% dos alunos conseguiram atingir esse resultado. A análise qualitativa mostrou que os erros de ortografia se concentravam sobretudo no domínio do que os franceses chamam de “ortografia gramatical”, ou seja, concordância verbal e nominal.

Quem domina a língua francesa, ou já se aventurou em cursos de FLE, pode assegurar a dificuldade da escrita quando se trata, principalmente, das concordâncias entre pessoas e verbos, e entre substantivos e adjetivos, número e gênero.

O que faz uma língua ser considerada de difícil registro escrito, se refere ao tipo de relação que é estabelecida entre o que se escreve e o que se ouve. Quanto mais biunívoca é essa relação, quer dizer, quanto mais próxima a escrita da fala, menos difícil, portanto, é a ortografia, o modo de grafar convencionalmente uma dada língua.

No que se refere ao desempenho nesse domínio, apontado pela pesquisa, foram constatadas “falta de reflexão e a negligência dos alunos” na aprendizagem da língua materna. Uma análise mais prudente, porém, mostrou diferentes razões para o baixo desempenho escolar dos alunos franceses. Entre elas, a mudança do estatuto da ortografia: mais tolerância aos erros ortográficos no dia-a-dia - correio eletrônico, por exemplo, ou programas de  bate-papo. Outras hipóteses se fundamentam no contexto escolar francês das últimas décadas – alunos mais jovens e portanto com menos tempo de escolarização, redução da carga horária de ensino da língua francesa nas escolas e introdução de novas disciplinas na estrutura curricular. 

Por essas e outras, o ensino da ortografia foi tido, no debate, como uma “situação de urgência em uma situação paradoxal”. Se de um lado os professores se queixam de que não há  tanto tempo disponível nas práticas escolares para se ensinar a língua, há quem defenda a volta da ortografia como disciplina na escola. 

Quanto aos alunos, parodiando uma máxima francesa, nas palavras de Jaffré (1995), “para ensinar ortografia à Jean, não é suficiente conhecer a ortografia, é preciso também conhecer Jean”. O debate na França retomou o já defendido anteriormente – se levamos em conta as propostas de Paulo Freire e outros - de que é preciso um trabalho pedagógico centrado na aquisição da linguagem escrita, tendo como foco principal o que diz o aprendiz.  Na concepção de escrita subjacente ao erro, faz-se o caminho para o impasse entre urgência e situação paradoxal apontadas no debate: crianças falam (também!) a verdade, e é preciso ouvi-las, conhecer sua forma de pensar.

Isso faz ecoar a situação da educação atual: a falta de encontro pluridisciplinar que dê conta dos desafios da contemporaneidade. É fato que na França também (e ainda) se discute interdisciplinaridade  e esse debate parece longe de chegar ao fim. O que vale ressaltar, além disso, a constatação de que não há apenas o problema de ortografia, mas também de aritmética e de leitura - como demonstrou outra pesquisa desenvolvida entre 1987 e 2007 nas escolas francesas, em relação a esses outros domínios.

Em época de implementação de reforma ortográfica nos países lusófonos, a questão urge. A quem favorecem as reformas ortográficas? Essas reformas refletem efetivamente as novas práticas sociais? A escola foi convidada para o debate? “Alinhar letras e estabelecer uma relação entre elas”, é tudo o que a ortografia significa no mundo atual?

Avançar a didática do ensino de línguas, ressaltada no debate entre pesquisadores franceses, é uma via de várias mãos. Ainda que mudanças sejam necessárias no âmbito da aquisição da escrita, há, por outro lado, a necessidade de diálogo investigativo entre essas mudanças e as práticas sociais intra e extra-muros da instituição escolar. Uma concepção de educação, que propõe pontes de diálogo com as práticas sociais, de forma multidimensional, para além da ortografia, e em toda a sua complexidade.

(*) Professora universitária e doutoranda pelo PDEE Capes  2008 – PUC - MG/Université Stendhal em Grenoble/França