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A onipresença da mídia

(*) Izabel Leão

Fui convidada para dar uma palestra através do Projeto .ComCiência, da Fundação Abrinq, para falar sobre educomunicação e meio ambiente, a um grupo de professores da escola Estadual Dom Duarte Leopoldo e Silva e da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Almeida Junior.

A sede da palestra foi a Emef Prof. Almeida Junior. A escola fica bem longe de onde moro, vivo e trabalho, mesmo assim acordei cedo e fui contar-lhes o que acredito e gostaria que se tornasse realidade. Começo a palestra falando que para explicar a educomunicação, embora exista teoria, gostaria de ir, com a prática, explicando o que entendemos por esse novo campo de conhecimento que vem se formando. Levei vários exemplos de programas de rádio, de histórias de jovens educomunicadores e jovens fazendo mídia durante o VI Simpósio de Educomunicação, realizado em outubro, deste ano, no Sesc Vila Mariana.

Como o objetivo do Projeto .Com ciência é despertar o interesse de crianças e adolescentes para a Ciência e Pesquisa, contribuindo assim com o desenvolvimento socioambiental da região Capela do Socorro, a educomunicação é uma proposta que pode contribuir de forma exemplar para a disseminação desse interesse.

Desde 2000 venho construindo minha trajetória profissional de uma forma que contribua na transformação da sociedade brasileira, mesmo que seja uma pequena semente num oceano, e por isso a educação passou a ser a segunda opção profissional, pois é o caminho que acredito para a tão sonhada mudança. A primeira opção é a comunicação, especificamente o jornalismo.

O conceito de educomunicação surge para unir as duas áreas do saber –educação e comunicação – e fazer com que ambas trabalhem conjuntamente, de forma que uma interaja com a outra. Sendo assim a educomunicação se encaixa perfeitamente na minha proposta de levar a comunicação para a educação.

Vale ressaltar que a inter-relação dessas áreas há duas décadas vêm se desenvolvendo pelo Brasil e além mar. No seu início propunha a leitura crítica da mídia, principalmente a televisão, pois esta era vista, e eu acredito que ainda é, com muitas ressalvas pelos educadores.
Foi em 1999, que o Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo – NCE/USP, a partir de uma pesquisa, denominada Perfil, detectou que, em toda a América Latina, existiam muitas pessoas envolvidas com experiências práticas de levar as tecnologias da comunicação para desenvolver a expressão comunicativa dos educandos.

Depois de uma boa caminhada a educomunicação vem ampliando sua abordagem para além da leitura crítica dos meios de comunicação. O que essa área do conhecimento propõe é que os educadores e educandos se apropriem das diferentes tecnologias – jornal impresso, rádio, televisão, internet – no dia-a-dia da sala de aula, do trabalho na ONG, ou de outros espaços de educação não formal, de uma maneira participativa em que o diálogo se dê horizontalmente, e que a premissa básica de uma escola que se propõe mudar seja incentivar atividades em conjunto entre os envolvidos, onde todos são acolhidos por sua potencialidade e partilhem de conhecimento. Não vemos mais o professor como o dono do saber e o aluno um mero expectador. A educação bancária, tão criticada por Paulo Freire, precisa acabar. Só assim os educandos terão mais interesse em aprender.

Podemos afirmar que a educomunicação propõe não somente usar bem a mídia na sala de aula, mas sim que professores, alunos e comunidade escolar se apropriem das diferentes tecnologias para melhorar e ampliar as relações de comunicação, os mecanismos de expressão entre todos os envolvidos. Aí reside o maior interesse da educomunicação – não interessa o melhor uso das tecnologias e sim em como utilizar esses recursos para melhorar as relações de comunicação entre os envolvidos.

E o que a educomunicação tem a ver com o meio ambiente? Primeiro é bom ressaltar que tudo neste nosso planeta tem a ver com o meio ambiente, compõe o meio ambiente. Este não é uma área estanque. Uma vez que tudo está relacionado podemos dizer que a educação e a comunicação tem muito a contribuir para melhorar o ecossistema em que vivemos.

A novidade é que o Ministério do Meio Ambiente determinou a incorporação da educomunicação nas suas metas de desenvolvimento, propondo que os coletivos educadores se apropriem da metodologia proposta pela educomunicação. Para deixar mais claro é que os coletivos educadores devem trabalhar as questões ambientais na educação ambiental a partir do protagonismo juvenil, da socialização dos saberes, do compartilhamento das atividades, da dialogicidade, da ampliação da expressão comunicativa dos envolvidos, fazendo uso das tecnologias da comunicação e não apenas como mero reprodutores de conteúdo. O segredo é colocar a mão na massa. É fazer webradio, jornal mural, fanzine, história em quadrinho, vídeo amador, blog, site, entre outras tecnologias.

Ismar de Oliveira Soares, professor e pesquisador da USP, precursor dos estudos da educomunicação no Brasil, afirma que o objetivo da educomunicação socioambiental é o de suprir o que as grandes campanhas midiáticas não alcançam: "transformar cada habitante do Brasil em um defensor ativo da natureza; em um sujeito capaz de empregar, de modo adequado, todos os recursos da informação disponíveis em seu espaço para mobilizar sua comunidade na defesa do ambiente e em sua revitalização."

Vale destacar que levar a educomunicação para a sala de aula não é só pensar no produto final. O que se quer é que todos participem do processo de construção do produto midiático, desde sua concepção até a finalização. Que todos criem as pautas, elaborem os roteiros, pesquisem, entrevistem, escrevam, editem, e assim sucessivamente. O produto final, ou seja, o jornal mural, o programa de rádio ou vídeo editado é a conseqüência do trabalho de todos os envolvidos. Todos sabemos que o que dá prazer é ver ou ouvir o produto final. É isso que gera a atitude afirmativa para a continuidade do processo.

Não podemos esquecer de dizer que pensar no planejamento é muito importante. Qual a periodicidade, quem vai compor a equipe, de que forma vai ser distribuído, ou ouvido ou assistido? Qual o público-alvo? Entre outras questões que fazem parte da construção de um processo comunicativo. Envolver a todos no processo é enriquecedor. Promove a troca de saberes, estabelece cumplicidade, ajuda a compreender a diversidade de culturas.

O jovem ao se apropriar da mídia ele se torna protagonista do processo midiático. Ele começa a entender como a informação se processa. Sua visão de mundo é transformada e ele percebe melhor como se dá a relação do ser humano na sociedade e com isso pode entender melhor como ajudar a mudar alguns processos. O adulto, o professor, o educador envolvido nessa proposta também muda seu referencial de dono do saber para o mediador do saber. Ele nunca deixará de ter um papel importante. No entanto, precisa entender que esse saber, na Era da Informação, disseminou-se. Saiu das páginas do livro didático e está presente na novela, no programa de auditório, no programa de rádio, que pode ser ouvido em qualquer lugar, ainda mais hoje com a onipresença do celular.
 
(*) Izabel Leão é mestre em Educomunicação pela USP, São Paulo. Texto editado originalmente na revista Escrita, número 7 e publicado no site www.guata.com.br