A tecnologia e as aulas
Por Renato Beranger
Houve um tempo em que os "For Alls" eram animados por um trio: zabumba, triângulo e sanfona. Eram só os três músicos, seus instrumentos e suas artes e a animação ficava por conta dos casais dançando no salão. Isso era um "For All" que ficou conhecido como forró por apropriação nordestina de um estrangeirismo da época.
Com o passar dos anos, os músicos que tocavam zabumba e triângulo sumiram e o sanfoneiro virou tecladista. O som que passamos a ouvir mais parece o de uma Big Band, por conta dos acordes, arranjos e instrumentos que nunca poderiam estar realmente presentes num "For All", mas são fortemente executados num poderoso e eficiente sistema de som.
Mas e o sanfoneiro? Lá está ele: técnico, preciso, concentrado entre botões, teclas, disquetes e pen-drives, comandando aquela verdadeira orquestra. Não dá nem tempo de dar uma olhadinha para o salão e conferir a animação (ou desanimação) dos casais.
- Sanfoneiro, toca aquela...
- Não posso, diz ele, não está na programação do teclado.
Agora, só amanhã.
Os sanfoneiros viraram tecladistas!
Fico imaginando como serão os próximos professores: técnicos, precisos, profissionais, impassionais, simpáticos e educados, professores com muitos títulos de Pós-graduação, Mestrado, Doutorado, Pós-doutorado e Phd. Suas aulas se transformarão em espetaculares palestras onde tudo é cronometricamente planejado, até os momentos de descontração.
Alterar uma seqüência da apresentação é muito complicado, pois implica em parar o CD, localizar o ponto para o qual se deseja retornar, apertar enter e ... torcer para o computador não travar.
Definitivamente, não gosto de tocar teclado com programação computadorizada. Sinto necessidade de interagir com outros músicos, trocar energia, ver os alunos aprendendo: participar desse momento mágico.
Assim como os sanfoneiros se transformaram em tecladistas, os professores estão se transformando em mediadores, facilitadores, monitores, agentes educacionais, ensinantes e os alunos, agora, são os aprendentes: críticos, irreverentes, questionadores, defensores implacáveis de seus direitos, consumidores, interativos, conversadores, pesquisadores...
Às vezes, eu fico pensando: seria isso a renovação?
Se todos os arranjos do tecladista estão gravados em disquetes e foram feitos em algum computador fico pensando: para que serve o tecladista? Será que ele também deve ser substituído por um técnico de som, um DJ, ou ainda por alguém que apenas ligue o teclado na tomada?
Não estaremos voltando ao tempo dos toca-discos, quando dançávamos ao som de uma mídia: o long-play, que virou cassete, depois cd, e agora i-pod?
Será esse o futuro do professor? Que assim seja, pois quando todos enjoarem de ouvir aquela mesma música, perfeita, precisa, tecnicamente correta, gravada segundo os parâmetros determinados pelos melhores estúdios de gravação, talvez alguém queira assistir uma aula, ao vivo e a cores, um pouco imperfeita e até mesmo um pouco lenta, mas, com o tempo exato para o professor dar a atenção que cada aluno merece, num ambiente de paz, amor, tranqüilidade e respeito ao próximo.
E assim, teremos reinventado o “For All” como ele foi concebido por nossos sábios antecessores.
Renato Beranger é escritor e músico. Graduado em Matemática pela UFF e pós-graduado em Psicopedagogia pela Unipli e Administração Escolar pela Unicam.
Artigo publicado no site da RioMídia - http://www.multirio.rj.gov.br/riomidia/