Além do sim ou não
Alexandre Le Voci
Fidel Castro resmungou, de Cuba, sobre a canção “Baía de Guantánamo”, de Caetano Veloso, parte do show “Obra em Progresso”. O músico, por sua vez, tentou explicar que uma defesa dos Estados Unidos, principal tópico da crítica de Fidel, vai muito além da simplicidade do sim ou não – ou do bom ou mau.
Afinal, o país responsável pelas atrocidades de Guantánamo é a mesma nação das universidades, dos grandes jornais, da liberdade aos direitos individuais – de Panteras Negras a Ku Klux Klan. Como explicar isso?
Para tentar elucidar as sutilezas ausentes nas notícias dos jornais, mas presentes nos fatos que circulam a vida de todos nós, a elegante, irônica e erudita metralhadora opinativa de Caetano ganhou a parceria do democrático antropólogo Hermano Vianna em “Obra em Progresso”.
Nasceu junto ao show um delicioso blog recheado de vídeos. Nele, Caetano pré-aquece os temas das apresentações, mostra porque escolheu determinadas canções e instiga o debate e a curiosidade de quem vê. Nesse caso, não há disco; os processos de criação se valorizam tanto quanto o produto final.
Mas é justamente o mundo do sim ou não o mais conhecido da escola, apolínea e linear de hoje. Que tipo de sofisticação de pensamento acreditamos ser importante para a formação de um estudante?
A incompetência da educação mal dá conta de abordar discussões sobre atualidades ou notícias de jornal, quanto mais de elucidar o complexo fato de que uma coisa pode ser boa e ruim ao mesmo tempo. Aliás, essa colocação, a princípio, é considerada um “erro” sob a ótica da educação formal.
Perceber que somos todos “obras em progresso” – e que opiniões podem ser construídas e destruídas quantas vezes forem necessárias - demanda, primeiramente, abrir a escuta para a voz dos próprios estudantes. Daí o fato de que os trabalhos que envolvem produção de mídia em escola costumam dar mais vazão a essas questões.
Exemplo interessante é o Blog Opinião. Ele nasceu da vontade e iniciativa dos alunos da área de Biológicas do Colégio Bandeirantes, em São Paulo (SP), e foi apoiado pela instituição. Nele, o espaço é criado para que qualquer tema seja abordado, discutido e reconstruído. Tudo num tempo e espaço que não são os escolares.
Voltando a “Obra em Progresso”, Hermano Vianna tem se tornado, por esse e outros projetos, um antropólogo/educador que coloca as novas tecnologias como condição fundamental da educação, cultura e participação social. Na grande mídia, basta prestar atenção no Central da Periferia (da Globo), e todos os programas que o antecederam – e que tem a mão de Hermano na concepção.
Na Internet, o portal colaborativo de artes e comunicação Overmundo, também idealizado por ele, é uma das formas mais interessantes de uso descentralizador da rede, em que todos são colaboradores, educadores e educandos. São sim e não simultaneamente, como na vida real.
Artigo publicado no Portal Aprendiz