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Indignação

Artigo de Conceição Cavalcanti, coordenaodra do programa Leitor do Futuro, do Diário de Pernambuco/PE “Não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor. Se a educação sozinha não transformar a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Paulo Freire

Um fato de agressão noticiado semana passada me fez lembrar da Pedagogia da indignação de Paulo Freire. Em um de seus escritos ele fala do assassinato de Galdino Jesus dos Santos, o índio Pataxó. Em um trecho ele diz “à polícia os adolescentes disseram que estavam brincando. Que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente... fico a pensar aqui mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer. É possível que na infância, esses malvados adolescentes tenham brincado felizes e risonhos de estrangular pintinhos, de atear fogo no rabo de gatos pachorrentos só para vê-los aos pulos e ouvir seus miados desesperados e se tenham também divertido esmigalhando botões de rosa nos jardins públicos com a mesma desenvoltura com que rasgavam, com afiados canivetes os tampos da mesa de sua escola. E isso tudo com a possível complacência quando não com o estímulo irresponsável de seus pais”. O caso do índio Pataxó aconteceu em 1997, o que mudou? Estamos menos violentos? Respeitamos e incluímos com civilidade as minorias? As leis estão fazendo jus em sua prática? Sábado passado saiu no jornal que um aluno de um curso técnico de enfermagem no Rio Grande do Sul insatisfeito com a nota baixa de uma prova espancou e quebrou braços e dentes da orientadora educacional. Qual a relação de um caso com outro? O aluno disse que não teve a intenção de machucá-la, assim como os agressores do índio disseram que estavam brincando. Como é possível um instrutor de artes marciais bater em uma mulher, jogar-lhe uma cadeira e não machucar? Como acontece nos casos de bullying onde as agressões se confundem com brincadeiras, a sociedade como um todo está perdendo a medida das suas ações em relação ao outro e ao ambiente. Diante do avanço da “desgentificação” é preciso se indignar, repensar e acreditar que se é mais que barro e pó, se é a possibilidade contínua de se fazer “homens e mulheres autenticamente e mulheres humanos”.