O Leitor que faz a diferença
Meirevaldo Paiva
A realidade educacional e cultural não admite mais enganações, simulações, propagandas irrelevantes e delírios patrióticos que encobrem a qualidade da capacitação intelectual do brasileiro em tudo o que se refere à sala de aula que repercute na comunidade em termos de prejuízos socioeconômicos como fator predominante no aperfeiçoamento de vida dos cidadãos.
Essa situação extremamente incômoda é mais uma vez comprovada por pesquisa nacional que classificou a região Norte como a que lê menos no Brasil ao alcançar a média de 3,9 livros por habitante/ano comparado à média de 5,5 atingida pela Região Sul.
Registre-se para melhor compreensão do fato que a pesquisa considerou a leitura tanto de livros didáticos exigidos pelos professores quanto a que é escolhida espontaneamente pelo leitor já fora da escola, ocasião em que se tem, então, a baixa do índice de leitura para 1,3 livro por ano o que reafirma a tragédia cultural brasileira sem subterfúgios, sem ambigüidades e sem otimismos descabidos.
Também não se trata de delírio conferir historicamente que a tragédia da Região Norte em seus diferentes aspectos sociais, econômicos, e culturais se resume ao político que interfere nos problemas de meio ambiente, de economia regional, de infra-estrutura, na criação de políticas públicas referentes à saúde, alimentação, ensino cujos resultados da omissão do Estado com suas elites dirigentes se reproduz pela pobreza em toda a região.
No momento em que essas pesquisas são divulgadas, as autoridades educacionais se apressam em tentar justificar esses seculares atrasos e chegam evidentemente às mesmas conclusões que tratam da redistribuição de recursos, de qualificar as escolas da região, do acesso a livros e bibliotecas sem que apontem soluções menos pontuais em detrimento de alternativas mais gerais que dimensionem a contribuição do ensino e da educação para o mundo do trabalho, para a cidadania ativa e para a autonomia intelectual que permita buscar opções de decisões políticas das populações sem o que as palavras se tornem inúteis no vazio e desocupado espaço da região Norte.
Louváveis, porém, são as iniciativas de escolas, de ONGs, de instituições culturais que valorizam a leitura por aquilo que ela representa como fator determinante na cultura de uma pessoa. Louvável é a iniciativa de solitários cidadãos que tentam ensinar a ler crianças e adolescentes para se educar para a cidadania intelectual no contexto empobrecido do Norte, onde as bibliotecas continuam sendo rubricadas como depósitos de livros, bibliotecas, registre-se, sem a presença de bibliotecários habilitados, mas desprestigiados por indignos salários, enfim, todas essas louvações acabam por se fazerem insuficientes diante da escola que não trabalha com a cultura em sala de aula, gerando, inclusive, a frustração de que o sistema de ensino não funciona a contento.
Nesse contexto, a Associação Nacional de Jornais (ANJ), por meio de consultoria especializada, realiza pesquisa sobre a ação pedagógica da imprensa como contribuição à formação de hábitos de leitura entre jovens estudantes. Na Região Norte, Belém pela via do programa deste jornal foi avaliado por suas atividades de incentivo à leitura na escola, de viabilizar conhecimentos de usos do jornal por professores, de abrir intertextos com outros tipos de linguagem escrita, oral, visual e virtual.
Para um Norte intelectualmente “esquecido” e mais economicamente lembrado, se situa um espaço público desocupado por falta de uma cidadania que tenha no dispositivo cultural o seu instrumento maior de participação política. No centro desse espaço, a presença do leitor, com livros nas mãos, inquieta a política desse esquecimento deliberado.
Meirevaldo Paiva é educador e Coordenador Pedagógico do Programa O Liberal na Escola, do jornal O Liberal (Belém/PA)
Editorial publicado em 01/06/2008 no jornal O Liberal