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Proteção à vida humana

Meirevaldo Paiva

A escola brasileira contemporânea não ensina a pensar, a refletir, a argumentar. Não educa para o discernimento, para a tomada de decisão diante dos embates da vida cotidiana cheia de surpresas, de imprevistos e de improvisações. Antiga frase feita da educação conservadora, mas de permanente atualização: a escola não prepara para a vida.

A opção da escola contemporânea prepara mais para o mercado de trabalho e menos para o exercício democrático da cidadania, daí a ênfase no ensino voltado para currículos científicos em detrimento de uma formação cultural humanista que contribuísse para que o cidadão tenha uma visão de mundo mais próxima da compreensão da realidade.


São inúmeros os exemplos constatados no cotidiano urbano ou rural brasileiro. São fatos que expressam que a escola não encontrou seu lugar no mundo globalizado para pensar e discernir.

Certos acidentes estão longe de ser considerados uma fatalidade ou um golpe do destino, porque se observa que faltam como sempre, em muitos casos, a leitura do cenário, de pensar pelo outro, de abrir espaços para opções do outro, de decidir na hora o que poderia causar perigo para vida das pessoas.

É o discernimento que exige humanamente um compromisso de vida com a família, com parentes e amigos, com tantas outras pessoas que utilizam as estradas de maneira para se conduzir com competência e responsabilidade em situações de riscos. As estradas, muitas vezes, são apontadas como um das causas de acidentes fatais devido à falta de conservação, um problema que também revela irresponsabilidade das instituições oficiais.

Do que adianta, então, estudar a linguagem dos sinais, de aprender física ou matemática, se não houver a capacidade para medir causas e efeitos numa aparente curva de estrada? A morte das crianças e das jovens em acidentes de trânsito causa uma dor coletiva da família, dos parentes, dos amigos, da comunidade, que não deveria se portar como mera espectadora de tragédias que ainda não ensinaram a conviver com a ciência e com a tecnologia contemporâneas.

Não basta, pois, leis severas, combate à impunidade, campanhas pedagógicas, se não houver por parte dos condutores o espírito público de convivência harmoniosa com novos ritmos de vida que incluem necessariamente uma educação intelectual e cultural para dirigir um carro.

Não há direitos que possam ser invocados para um motorista dirigir alcoolizado, de fazer ultrapassagens perigosas, de não respeitar sinalizações, desobedecer às leis do trânsito e expor a riscos - enormes riscos - muitas outras vidas. Na direção de um carro, o motorista tem mais deveres a preservar e garantir - porque o obriga a convivência em coletividade - do que direitos burocráticos de se considerar em liberdade por estar em dia com suas obrigações constitucionais.

Nessa fronteira ética de preservação da vida pela via do bom senso, da lucidez do discernimento, é que se observa o quanto a escola, em todos os níveis, não responde nem corresponde aos problemas contemporâneos.

Houve um tempo em que os acidentes eram atribuídos a defeitos técnicos dos carros. Hoje, problemas sanados, realçam os problemas humanos, os que dependem da visão de mundo de cada um, da educação cívica que exigem um tipo de comportamento que seja um exercício de cidadania para todos.

Infelizmente, no início de cada período de férias ou de 'feriadões', as mortes são anunciadas. Não há como botar um imenso contingente de guardas rodoviários nas estradas, se o homem não domina e não dirige a máquina não consegue o equilíbrio da razão e da emoção, não resiste aos apelos da velocidade, da pulsão mais rápida da vida consumida, da paixão por uma aventura que lhe dê a sensação de poder, inclusive o de morrer.

Meirevaldo Paiva é educador, coordenador pedagógico do programa O Liberal na Escola
Artigo publicado no jornal O Liberal, de Belém, em 03/08/2008