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Alfabetização midiática nas escolas de Nova Iorque. Entrevista com Jordi Torrent

Desde 1990, a produtora nova-iorquina Duende Pictures vem trabalhando a alfabetização midiática (Media Literacy) nas escolas de Nova York (EUA). Para conhecer mais detalhes sobre o projeto, o RIO MÍDIA entrevistou, por e-mail, o coordenador do programa, Jordi Torrent. Acopanhe a entrevista feita pelo jornalista Marcus Tavares (Em maio de 20007).

Desde 1990, a produtora nova-iorquina Duende Pictures vem trabalhando a alfabetização midiática (Media Literacy) nas escolas da cidade. A cada ano, 120 estudantes participam de oficinas que têm o objetivo de incentivar e promover, entre outros pontos, um olhar crítico sobre a recepção dos conteúdos da mídia. Além de aulas teóricas, os alunos são instigados a produzirem filmes de pequena duração. Os curtas são exibidos na escola, em auditórios da região e no próprio canal de TV a cabo de Nova Iorque. E não pára por aí: a dinâmica conta com a participação de diretores, professores e dos pais dos estudantes.

Para conhecer mais detalhes sobre o projeto, o RIO MÍDIA entrevistou, por e-mail, o coordenador do programa, Jordi Torrent. Diretor, educador e ativista, Jordi defende uma ampla alfabetização midiática. Segundo ele, no mundo industrializado, a maioria das crianças e dos jovens gasta entre 8 a 10 horas por dia consumindo mídias de todos os tipos, ou seja, o dobro do tempo que ficam na escola. “Afinal, quem é que está educando, formando e informando essas crianças?”, questiona.

No final de maio, Jordi participará do encontro Media literacy: overseas conversation series (Alfabetização midiática: série de conversas além mar), do qual sua produtora é co-realizadora, ao lado do Observatório Europeu de Televisão Infantil (Oeti): “Nossa idéia é falar sobre todas as questões que envolvem a alfabetização midiática a partir de uma perspectiva internacional, não meramente a partir do ponto de vista do mundo anglo-saxão. Para isso, criamos um fórum internacional que propicia diálogos abertos entre profissionais de mídia, acadêmicos, críticos, educadores e o público em geral. Tudo isso a partir de um quadro básico, de um fundo comum reunindo as mídias produzidas por jovens do mundo todo”, destaca.

Acompanhe a entrevista

RIO MÍDIA - Afinal, o que significa alfabetização midiática (media literacy)? E por que a alfabetização é tão importante hoje em dia?
Jordi Torrent -
Há muitas definições. Algumas pessoas pensam até mesmo que seja um termo confuso que não ajuda a compreender tudo o que as mídias representam e qual o papel que exercem na formação e desenvolvimento da sociedade contemporânea. Para esclarecer isso, citarei Jane Tallin e direi que “Media literacy (alfabetização midiática) é a capacidade de manipular e analisar as mensagens que informam, entretêm e são vendidas para nós todos os dias. É a capacidade de fazer com que recursos de pensamento crítico sejam aplicados a todas as mídias: de vídeos musicais aos ambientes da web, da colocação de produtos em filmes às exposições virtuais nos placares de jogos de hóquei da NHL. Trata-se de fazer as perguntas pertinentes sobre o que está sendo exibido e observar o que está faltando". A isso tudo, acrescentaria que a alfabetização midiática deveria ainda incluir a produção e distribuição de mídias.

Por que a alfabetização midiática é importante no nosso cotidiano? No mundo industrializado, a maioria das crianças e dos jovens gasta entre 8 a 10 horas por dia consumindo (e sendo sintonizados a) mídias de todos os tipos. Isso é mais do que o dobro do tempo que as crianças ficam na escola. Quem está educando, formando e informando essas crianças?


RIO MÍDIA - Desde 1990, a Duende Pictures vem promovendo oficinas de alfabetização midiática nas escolas públicas da cidade de Nova Iorque. Os estudantes são orientados a analisar as mídias e encorajados a pensar no impacto que elas têm sobre suas vidas. Você poderia nos dizer como esse projeto funciona? Quantos estudantes já participaram? Quais são os resultados dessas oficinas?
Jordi Torrent -
A cada ano, 120 estudantes participam deste projeto. Se multiplicarmos esse número por 18, teríamos um total de 2.160 alunos, desde 1990. Mas o impacto é muito maior do que esse, muito além dos 120 estudantes. Afinal, outros jovens acabam vendo o resultado do trabalho que é produzido pelos seus colegas. Os estudantes produzem vídeos que são veiculados na própria TV, no auditório da escola ou em eventos públicos. Poderíamos dizer que, após um certo tempo, cada aluno se torna, em diferentes graus, um alfabetizado em mídias. Trabalhamos muito próximo de diretores e professores, adaptando a alfabetização midiática (e a própria produção de mídias) às necessidades da escola, dos professores e dos estudantes. Nos EUA, país do “No child left behind” (nenhuma criança deixada para trás), não há muito espaço para a formação extracurricular. Desta forma, adaptamos nossas oficinas ao currículo de cada série.

Como resultado prático das oficinas, temos pequenos filmes voltados para TV, escritos e produzidos pelos próprios estudantes. São curtas que têm a ver com o conteúdo ensinado em suas escolas, abrangendo diferentes áreas de conhecimento - da arte às artes da linguagem, e dos estudos sociais às ciências. Divulgamos esses vídeos em uma série quinzenal de TV no sistema de TV a cabo da cidade de Nova Iorque. Já os resultados instrutivos, de aprendizado de vida, são muito mais difíceis de se comprovar, mas sabemos que essa experiência possibilita uma melhora das estratégias de ensino em sala de aula, promove o desenvolvimento de capacidade de pensamento crítico, a auto-estima, melhores habilidades de comunicação (escrita e leitura), encorajamento do trabalho em equipe, bem como o fortalecimento das comunidades locais.


RIO MÍDIA - Na pratica, de que forma os professores e os responsáveis participam das oficinas?
Jordi Torrent -
Não queremos sobrecarregar ainda mais a já pesada carga de trabalho e de responsabilidades dos professores, mas queremos realmente convidá-los a ajudar no planejamento dos vídeos que são produzidos pelos estudantes. Geralmente, a maioria dos professores gosta dos programas, mas se sente tímida diante da tecnologia, frente à idéia de ter de aprender sobre produção para televisão, bem como sobre habilidades de edição em computador. Cuidamos de todos esses aspectos tentando, ao mesmo tempo, fazer com que os educadores compreendam (e testemunhem) que, com a tecnologia de hoje (e com a expertise das crianças), a produção de vídeos se tornou muito simples. Não produzimos filmes sofisticados, mas muitos deles já receberam prêmios em festivais nacionais e internacionais de produção juvenil. Enquanto trabalhamos com os estudantes, oferecemos também às escolas oficinas de desenvolvimento profissional para os professores, nas quais os docentes aprendem os principais conceitos da alfabetização midiática e os conhecimentos básicos sobre produção de mídias.

Os pais são o elemento chave. É preciso informá-los sobre o uso que seus filhos fazem das mídias, sobre as mensagens que são bombardeadas, sobre a motivação hiper-comercial que os meios de comunicação estimulam. É preciso sugerir aos pais maneiras de partilhar o uso dessas mídias, estabelecendo com seus filhos um amplo diálogo crítico. A maioria dos pais está muito ocupada com suas vidas dedicadas ao trabalho. Muitos responsáveis não percebem que o diálogo caseiro foi corroído, expulso de casa pelas mídias eletrônicas/digitais. Não há mais avôs e avós contando histórias para as crianças. Hoje, são as mídias (principalmente, a comercial) as contadoras de história de todas as famílias.

Neste sentido, a alfabetização midiática tenta levantar essas questões para os pais, para que pequenas mudanças – como a discussão sobre um show de TV ou um site violento, idiota ou inconseqüente – possa produzir grandes mudanças. Ou seja: uma melhor comunicação entre os membros da família e o uso do tempo de uma forma mais qualitativa.


RIO MÍDIA ­ Como se dá o ensino da alfabetização midiática em Nova Iorque?
Jordi Torrent -
Acho que algumas pessoas do Departamento de Educação da Cidade de Nova Iorque estão tentando, sinceramente, melhorar uma situação que não está nada boa. O mau desempenho (no resultado das provas) da maioria das escolas públicas não permite que esses programas (de alfabetização midiática), vistos por algumas pessoas como não sendo parte da educação básica, sejam desenvolvidos mais ainda. Na verdade, cada escola e seu diretor têm uma visão sobre o tema.


RIO MÍDIA - A Duende Pictures é uma produtora baseada em Nova Iorque e fundada em 1988. A empresa já produziu vários longas-metragens, documentários e programas de TV. Como você concilia os interesses de mercado aos interesses culturais, educacionais e de entretenimento de um produtor?
Jordi Torrent -
Me considero um diretor de filmes, um educador e um ativista. Não necessariamente nessa ordem. Às vezes, esses três componentes combinam-se bem, outras vezes nem tanto. Acho que o trabalho nas salas de aula é onde todas as três áreas combinam-se de forma muito orgânica.


RIO MÍDIA ­ Como poderíamos definir “mídia de qualidade”?
Jordi Torrent -
Todos nós sabemos o que é quando a vemos. Mas todos temos dificuldade para defini-la. Para simplificar, poderíamos dizer que “mídia de qualidade” seria a mídia produzida com a intenção de elevar culturalmente, eticamente e artisticamente seu público receptor. Em oposição, estão as mídias produzidas segundo interesses comerciais e políticos, que se sobrepõem aos interesses da comunidade. Um dos problemas, como muitas pessoas já apontaram (o escritor Neal Postman, é claro), é que “mídias” e "entretenimento popular” (segundo a idéia do “mínimo denominador comum”) se tornaram sinônimos.

Fonte: RioMídia
Entrevista concedida a Marcus Tavares -  [18/05/2007]