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Autoria na Era Digital

O que fazer quando o professor recebe de seus alunos um trabalho totalmente copiado da web? Afinal, com o advento da internet, qual é o conceito de autoria? Confira a opinão de Sérgio Abranches, professor adjunto da UFPE, na entrevista concedida ao site RioMídia.

O que fazer quando o professor recebe de seus alunos um trabalho totalmente copiado da web? Afinal, com o advento da internet, qual é o conceito de autoria? De que forma a escola pode e deve proceder? Essas questões fizeram parte da mesa-redonda Autoria e plágio na Era Digital, que ocorreu no dia 18 de setembro de 2008, durante o 2º Simpósio hipertexto e tecnologias na educação, promovido pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife.

Sérgio Abranches, professor adjunto da UFPE, foi um dos palestrantes. Sua apresentação focou os desafios que a Era Digital traz para a prática docente. Para ele, é preciso que a escola reveja a participação dos alunos no processo de aprendizagem.

Em entrevista ao site do RIO MÍDIA, o professor afirma que, se o estudante não for convocado para ser autor-colaborador de determinada atividade, ele não terá o compromisso de produzir nada que seja dele, ou a partir dele. “Nesta situação, é muito mais fácil e cômodo “dar uma googada” (de google), como dizem os mais novos”, destaca.

Acompanhe a entrevista, na qual o professor também fala sobre a questão da autoria nos dias de hoje:

RIO MÍDIA - O que muda na produção docente e discente com o acesso à internet? Professores e alunos estão sabendo tirar proveito de todas as possibilidades da rede?

Sérgio Abranches - A internet tem se apresentado como um grande campo de práticas distintas e diversas, com ampla possibilidade para a Educação. Entretanto, isto não quer dizer que haja um aproveitamento de suas possibilidades, tanto por alunos quanto por professores. É preciso ainda um processo de formação específica para o uso pedagógico da internet, como de todas as atuais tecnologias da informação e comunicação, a fim de que a Educação possa aproveitar estas possibilidades.

Em pesquisa recente, realizada por meus orientandos, observamos que já há uma familiaridade com o uso das tecnologias por parte dos professores, mas isto não significa que estes mesmos professores estejam utilizando as possibilidades que a internet apresenta. Do mesmo modo, observamos nos alunos que o uso da internet ainda é muito restrito em se tratando de questões educacionais. Mesmo que haja uma maior familiaridade por parte dos alunos com as atuais tecnologias, tal situação não redunda em grande proveito para a aprendizagem.

Por outro lado, precisamos destacar o crescente número de projetos que busca incorporar tal uso às práticas educacionais. Penso que é por aí que conseguiremos identificar quais possibilidades que a internet oferece e que poderão ser aproveitadas pela Educação. Como exemplo, penso que a pesquisa acadêmica tende a ser profundamente dinamizada com a internet, bem como a aprendizagem colaborativa.


RIO MÍDIA - A web traz uma nova definição para o que seja autoria, pirataria e plágio?

Sérgio Abranches - Em um certo sentido, creio que há uma modificação nestas definições. Mas depende fundamentalmente do tipo de uso que se faz da web. A questão da autoria – e os seus contrapontos da pirataria e do plágio – ganha uma nova significação com o uso da web. As formas colaborativas de produção via web introduzem uma nova conceituação do que seja autor. Tomemos como exemplo as diferentes experiências do tipo wiki, desde enciclopédia até pequenos glossários. Se tais práticas forem direcionadas pedagogicamente, podemos suscitar o aparecimento de um autor coletivo, não mais um sujeito único e que não é simplesmente o resultado da soma de diferentes partes, mas sim daquela interatividade proporcionada pela web. Com isso, questionamos também o que seja plágio ou pirataria. Estas duas últimas situações reproduzem concepções de conhecimento e de prática pedagógica que não se coadunam com um uso pedagógico da web.

Deste modo, falar em autoria na web pode simplesmente reforçar a forma como tradicionalmente entendemos o que seja identidade (veja-se, por exemplo, o uso que muitos autores e jornalistas fazem dos blogs), ou então significar, a partir de uma proposta pedagógica diferenciada, o surgimento de um autor coletivo, colaborativo, participativo e aberto a novas elaborações.

A questão da autoria na web é muito séria, por isso acredito que nós educadores devamos enfrentá-la corretamente, pois parte de nosso trabalho é “mexer” com as identidades.


RIO MÍDIA - Neste sentido, o que é autoria nos dias de hoje?

Sérgio Abranches - Bem, isto é muito difícil de se definir. Em primeiro lugar, devemos considerar que a própria produção de conhecimento é uma reelaboração de conhecimentos já estabelecidos socialmente. Assim, autoria não pode ser entendida como aquilo que me distingue dos outros. Ao contrário, em um contexto globalizado, multicultural, o que me identifica pode ser exatamente aquilo que me aproxima, me coloca em relação com o outro e com os outros.
 
Autoria passa então por uma transformação: não é mais o sinal de minha presença exclusiva neste mundo, através de uma obra única e intransferível, mas sim o que me coloca diante de tantos outros e que, nesta situação, marcam a minha identidade.

É claro que precisamos tomar cuidado para que esta nova situação não seja o sinal da desresponsabilização, do “esconder-se para não se comprometer”. Portanto, é muito mais exigente, pois não se limita a dizer o que é e o que não é. Penso que estejamos próximos da passagem da autoria clássica (definidora de uma identidade única) para uma “alteria” (uma identidade construída com o outro).


RIO MÍDIA - Neste contexto de produção acadêmica, que regras devem ser estabelecidas entre professores e jovens?

Sérgio Abranches - É importante pensarmos em regras na produção acadêmica. Mas penso que primeiro devemos pensar em novos projetos, novos contratos didáticos, novas formas de produção do conhecimento. Os jovens já nascem neste contexto, são digitais. A maioria dos professores ainda pertence a uma outra geração, analógica na sua forma de ser e de produzir conhecimento.
Esta contradição precisa ser enfrentada. Neste sentido, uma questão básica, que não me arrisco a dizer que seja uma regra para a produção acadêmica em tempos midiáticos, deve ser a partilha da produção do conhecimento. Não estou falando aqui da socialização do conhecimento, algo muito importante. Falo do processo de produzir conhecimento; este deve ser partilhado, cooperado. Os grupos de pesquisas precisam incorporar esta atitude, não só como metodologia de trabalho, mas como forma de produção, e assim incorporar o “modus operandi” desta geração digital, tecnológica.

Outro elemento que eu apontaria é a ampla divulgação desta produção. Os jovens, quando se dispõem a produzir seus conhecimentos academicamente, procuram sempre estas referências, e não podem se relacionar com elas como se fossem estacas fixas, imóveis. Ao contrário, devem percebê-las como incentivadoras.

Citaria também a necessidade de inovação metodológica. Este é um aspecto que ainda estamos deixando de lado. Precisamos inovar nossas concepções metodológicas e nosso fazer. Esta, sim, creio ser uma regra a ser colocada por aqueles que pretendem contribuir com a Educação e com o conhecimento de um modo geral.


RIO MÍDIA – Para terminar, afinal, o que o professor deve fazer quando recebe um trabalho CTRL C + CTRL V?

Sérgio Abranches - Em primeiro lugar, creio que o professor deve fazer o maior esforço possível para não receber um trabalho Ctrl C + Ctrl V. Em outras palavras, o professor deve se preocupar em preparar suas atividades de modo que esta possibilidade não seja viável. Dizendo de outro modo, a questão está na maneira como o professor propõe as atividades aos alunos.

Qual é a diferença entre este tipo de trabalho e aquele que nós fazíamos antigamente copiando longas páginas das enciclopédias que nossos pais compravam à prestação, dizendo para nós que ali estava tudo o que precisávamos saber/aprender? Sim, é claro que tem diferença, mas na minha opinião muito mais na forma e na dinâmica do que no conteúdo e na aprendizagem.

Neste sentido, a primeira questão que o professor deve fazer é refletir sobre o que ele propôs aos alunos e o modo como ele propôs. Aí está a raiz da questão. Se o aluno não foi convocado para ser autor-colaborador daquela atividade, ele não se sente com o compromisso de produzir nada que seja dele, ou a partir dele. Nesta situação, é muito mais fácil e cômodo “dar uma googada” (de google), como dizem os mais novos.

A segunda questão é pedir ao aluno que explicite o seu processo de produção do conhecimento (que questões ele levantou para fazer tal trabalho, que fontes ele buscou, qual o tipo de análise que ele fez), caso isto não tenha sido apresentado anteriormente. Deste modo, pode-se refletir sobre o processo e não somente sobre o resultado.

Uma outra questão é o confronto com outras produções de outros alunos. Não quero aqui propor que haja um conflito, um embate, mas sim que haja uma troca, uma reflexão conjunta apontando os elementos que distinguem, caracterizam as diferentes produções.

Sei que ao dizer isto não posso me esquecer do volume de trabalho dos professores, particularmente os que atuam na educação básica, fato este que dificulta uma análise e mesmo uma atenção mais particularizada aos alunos, impedindo então que se possa fazer tal processo, pois demanda tempo.

Por isso, evitar que tal procedimento aconteça partindo de uma nova proposta pedagógica é fundamental


Entrevista concedida a Marcus Tavares - RioMídia (http://www.multirio.rj.gov.br/riomidia/)