Inteligência coletiva e o futuro da internet
Carlos Nepomuceno assistiu ao nascimento da internet e acompanhou de perto os primeiros passos da web no Brasil. Nesta entrevista (de setembro de 2008) ao jornalista Marlucio Luna, ele aborda conceitos muito debatidos e pouco implementados no cotidiano da grande rede; discute o papel de professores e jornalistas; sugere um novo modelo de web; e alerta para as grandes transformações que surgirão nos próximos anos.
Carlos Nepomuceno assistiu ao nascimento da internet e acompanhou de perto os primeiros passos da web no Brasil. Foi um dos primeiros jornalistas a se especializar em informática e escreve sobre o tema desde 1983. Ao longo de duas décadas, viveu a fase da reserva de mercado, quando ter um microcomputador moderno era quase impossível; viu a popularização dos PCs; assistiu ao crescimento e à explosão da bolha da internet; e acompanhou o surgimento do movimento pela inclusão digital.
Nesta entrevista, ele aborda conceitos muito debatidos e pouco implementados no cotidiano da grande rede; discute o papel de professores e jornalistas; sugere um novo modelo de web; e alerta para as grandes transformações que surgirão nos próximos anos.
Acompanhe a entrevista:
MULTIRIO – A internet já se integrou ao cotidiano de muitas pessoas. Hoje, é possível realizar uma série de tarefas de forma rápida e sem sair de casa. Porém ainda há dúvidas quanto aos caminhos que a web tomará nos próximos anos. Qual é o futuro da internet?
Carlos Nepomuceno – Para falar do futuro, é preciso refletir sobre o passado. Às vezes, nem nos damos conta de que a internet tem só uma década de existência. A internet, pelo menos como a conhecemos hoje, surgiu em 1994 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil em dezembro de 1995. Ela representou uma revolução na comunicação, pois permitiu pela primeira vez a comunicação “de muitos para muitos”, como diz o pensador Pierre Lévy.
MULTIRIO – Você se refere à democratização do acesso e da produção de informação?
Carlos Nepomuceno – É muito mais que isso. Quebrou-se um paradigma. Antes, havia o veículo enviando sua mensagem a um grupo imenso de receptores – era a comunicação de poucos para muitos. Não existia espaço para contestação. Com a internet, muitos puderam produzir informação para muitos, porém também se tornaram passíveis de contestação pela audiência. O processo de comunicação ficou muito mais rico com a internet. Se eu crio um blog e publico algo polêmico, de antemão imagino que receberei críticas e elogios, que estarão nos comentários do blog. Meus leitores conhecerão os dois lados da moeda.
MULTIRIO – Esta situação não é regra, mas exceção. Os grandes portais de informação, por exemplo, mantêm a lógica da comunicação de poucos para muitos.
Carlos Nepomuceno – A internet criou uma nova dinâmica, uma nova forma de articulação do pensamento. Aí talvez esteja o grande erro de quem trabalha ou quer trabalhar com a internet. Poucos perceberam que não se pode, por exemplo, criar um site usando a lógica da publicação impressa ou do audiovisual. O que vemos na web, na maioria das vezes, é a mera transposição de linguagens de um veículo para outro. É preciso haver um salto de qualidade.
MULTIRIO – De que forma?
Carlos Nepomuceno – As linguagens que precederam a internet trazem uma lógica linear e cartesiana que não se enquadra na lógica hipertextual da web. Nesse ponto, a internet funciona de forma muito parecida com o nosso pensamento: um tema puxa outro, que desemboca em um terceiro e que segue por algo completamente diferente do tema inicial. Nós pensamos exatamente assim. O mesmo acontece com a internet.
MULTIRIO – Mas é preciso que haja algum tipo de sistematização. Caso contrário, a informação se dilui.
Carlos Nepomuceno – Este é o ponto! Organizar não significa engessar em formatos semelhantes, por exemplo, ao da página de uma revista. É necessário aproveitar o caráter hipertextual da web e investir na produção conjunta de conteúdo.
MULTIRIO – Como?
Carlos Nepomuceno – Despindo-se de qualquer tipo de arrogância ou prepotência típica dos “donos do saber”. Não dá mais para simplesmente eu formular um conteúdo e colocá-lo na internet. É salutar que esse conteúdo seja manipulado, alterado, transformado pelos internautas, em um processo de troca, de complementação. A internet é um espaço de inteligência coletiva construída cotidianamente. Tal idéia assusta alguns grupos profissionais específicos. Jornalistas e professores são duas categorias que servem como exemplo. A primeira porque teme perder a condição de canal de comunicação com a sociedade, o que é um temor infundado, pois as técnicas de comunicação continuarão a ser empregadas pelos jornalistas. No que se refere aos professores, a situação é ainda mais complexa, visto que os educadores temem ser substituídos pela internet ou pelos computadores. Já vimos esse filme quando surgiram o rádio, a televisão e o videocassete. As tecnologias se consolidaram e o professor manteve a sua função, que é fundamental para a sociedade. Tanto os jornalistas quanto os professores precisam compreender que suas atividades passarão por transformações inerentes aos novos tempos. Ambos cumprirão o papel de mediadores. No primeiro caso, haverá mediação de informação. No segundo, a mediação se dará no campo da construção de saberes.
MULTIRIO – Essa é uma perspectiva de curto prazo?
Carlos Nepomuceno – Prever o ritmo de mudança é algo temerário. Porém acredito que a necessidade de transformação é imediata. Quem demorar a perceber isso vai perder o trem da história. O futuro da internet é a inteligência coletiva. Os grupos de pesquisa de ponta já trabalham nesse sentido. Um exemplo é a Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da UFRJ. Lá, estamos trabalhando na consolidação do Centro de Referência em Inteligência Coletiva (Crico). A idéia é gerar uma ferramenta baseada em softwares livres para que qualquer grupo, entidade ou pessoa possa criar sites capazes de implementar o conceito de inteligência coletiva.
MULTIRIO – Quais efeitos práticos que isso pode trazer?
Carlos Nepomuceno – Eu diria que há a possibilidade de radicalizar uma característica já presente na internet. Em que atividade econômica uma pessoa ou um pequeno grupo pode ameaçar uma grande corporação? Só na internet isso é possível. Pegue o exemplo da disputa entre Microsoft e Linux. Um desconhecido estudante de Ciência da Computação da Universidade de Helsinque, na Finlândia, decidiu enfrentar Bill Gates, criou um sistema operacional aberto e o colocou na internet. Ele foi aprimorado graças às contribuições de milhares de usuários ao redor do mundo. Eis um exemplo de inteligência coletiva que colocou em cheque a maior empresa do planeta. A web tem o poder de, a partir de iniciativas individuais ou locais, desencadear revoluções globais nas mais variadas áreas.
MULTIRIO – Mas, afinal, qual é o futuro da internet?
Carlos Nepomuceno – Ao contrário do que muita gente pensa, o futuro da web não está na tecnologia ou na convergência de mídias. Isso não é futuro, é o presente. Limitações tecnológicas atuais serão superadas. Há menos de cinco anos, era impossível a transferência de arquivos com filmes de longa metragem. Hoje, graças aos softwares de compactação, os internautas trocam filmes pela internet. Quando leio notícias alertando para o risco de a internet parar em 2010 por causa do excesso de tráfego de dados, as considero exageradas. Elas não levam em conta os avanços que ocorrerão até lá. O futuro da web passa pela percepção de todo o potencial que ela oferece. Hoje, é como ter uma Ferrari para dirigir no engarrafamento. A principal característica da Ferrari, a sua velocidade, não aparece e ela fica igual ao Fusca. A web não deve se limitar simplesmente a fornecer conteúdo. Ela precisa assumir o papel de ferramenta de elaboração coletiva de conteúdo. A internet vai se transformar em um espaço democrático de construção de inteligência coletiva, cujos efeitos poderão beneficiar a sociedade como um todo.
Fonte: RioMídia/ Entrevista concedida a Marlucio Luna - 26/09/2008
Editor do Portal da MULTIRIO