Livro mostra vantagens do jornal na formação de leitores críticos da realidade
Qual a importância da leitura e, mais especificamente a leitura de jornais na formação de leitores críticos da realidade? Como funcionam programas de Jornal e Educação no Brasil e no exterior? O que possuem de semelhante? Em que precisam melhorar? São apenas alguns temas abordados por Ana Maria Cocentino através do livro "Virando a Página - O Jornal na Sala de Aula"
Resultado da tese de doutorado em Educação na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o livro “Virando a Página – O Jornal na Sala de Aula”, de Ana Maria Cocentino, é leitura obrigatória para aqueles que trabalham com projetos de jornal e educação.
No livro, a jornalista e professora faz um passeio pelo papel da leitura e, mais especificamente a leitura de jornal nas salas de aula, revela características dos Programas de Jornal e Educação (PJEs) brasileiros e ainda mostra como alguns programas são desenvolvidos em vários países.
Ana Maria também faz referências a vários autores e publicações que devem ficar na mesa de cabeceira de profissionais de mídia-educação e coordenadores de PJEs e defende o uso de jornais como ferramentas para a formação de leitores críticos da realidade.
Conheça na entrevista exclusiva que Ana Maria concedeu ao site do PJE da ANJ mais detalhes do processo de produção do livro, as dificuldades enfrentadas, as descobertas e o porquê da autora _ que se prepara para uma nova pesquisa com jornal _ defender o uso do jornal em ambientes educativos.
ANJ - Você levou de maio de 97 a novembro de 2000 pesquisando nas escolas. Mas de forma geral, quanto tempo durou o levantamento de todo o material e bibliografia para o seu livro?
Ana Maria - A pesquisa de campo, que incluiu um levantamento dos programas existentes no Brasil e no exterior, a realização das entrevistas e a coleta de material instrucional, durou mais de três anos devido a uma série de dificuldades como, por exemplo, a imprecisão de endereços dos sites dos PJEs desenvolvidos no exterior, as respostas imprecisas aos questionários enviados (o que exigiu novas comunicações), a demora no atendimento às minhas solicitações e, ainda, a diversidade dos idiomas dos países pesquisados. Já a pesquisa bibliográfica durou todo o tempo da produção do texto, ou seja, os quatro anos de prazo definido pela Universidade para a apresentação da tese de doutorado, que deu origem ao livro.
ANJ - Após essa pesquisa quais as principais vantagens que você percebeu no uso do jornal na sala de aula ou em ambientes educativos?
Ana Maria - Percebo que, apesar das dificuldades enfrentadas pela escola, está se desenvolvendo em diversos países, um grande esforço na tentativa de disponibilizar aos alunos ferramentas capazes de atribuírem significado à gama de informações proveniente do acelerado desenvolvimento da tecnologia. Dessa forma, através do jornal, a escola vem colocando o aluno em contato com o cotidiano, integrando-o ao processo de compreensão da realidade. A introdução dos diários na escola vem incorporando novos gostos de leitura, elegendo conteúdos que tratam das questões sociais do momento histórico, ao mesmo tempo em que promove a interação dos saberes e, assim, atualiza o debate, promove a reflexão. Dentre outras vantagens, relacionamos a possibilidade de leitura partilhada do jornal entre estudantes (e professores) de diferentes camadas sociais, nas quais se incluem as que jamais tiveram acesso à informação.
ANJ – No geral você percebeu que os educadores sabem trabalhar com a relação jornal-educação e os programas estão sabendo dar o apoio necessário para que isso ocorra?
Ana Maria - Ao relacionar aqui algumas das vantagens percebidas durante a pesquisa com o uso do jornal devo esclarecer que nem todas as práticas observadas podem ser consideradas positivas. Muitas delas, quer desenvolvidas em escolas brasileiras, quer do exterior, sugerem falta de clareza dos objetivos, utilização inadequada do jornal e inexperiência do professor. Essa realidade evidencia a importância da prática pedagógica da escola e, em particular do professor, a quem cabe o papel de mediador entre o estudante e o jornal. Sendo a escola um espaço contraditório, ela é, ao mesmo tempo, cenário de práticas diferenciadas: as que procuram intervir na formação de um horizonte mais humano e as que contribuem para a permanência das práticas conservadoras.
ANJ - O jornal na sala de aula (e outras mídias) deveria ser encarado como uma política pública? Por quê? Que vantagens traria ao Brasil?
Ana Maria - Seria importante para a continuidade dos Programas “Jornal na Educação” nas escolas públicas que fossem firmadas parcerias entre o poder público e a iniciativa privada, principalmente quando se tratar de empresas de menor porte. Muitas empresas jornalísticas arcam sozinhas com todas as despesas (exemplares, treinamento dos professores, transporte, pagamento da equipe coordenadora, etc), contribuindo para a redução do tempo de atuação dos PJEs nessas escolas. Afinal, a educação deve ter prioridade nas ações do governo, isso sem excluir a responsabilidade de toda a sociedade.
ANJ - Quais os principais equívocos que você percebeu no uso do jornal na sala de aula ou em ambientes educativos?
Ana Maria - O uso do jornal de forma estanque, mecânica, sem relação com o contexto, conforme constatamos em algumas escolas, representa uma prática equivocada, por ser desprovida de significados. Ela reforça o conservadorismo, simulado através de um programa que se propõe a utilizar o jornal como um instrumento de apropriação da realidade.
ANJ - Quais as características comuns aos melhores programas?
Ana Maria - Os melhores programas se caracterizam pela prática de atividades que levam o aluno a extrapolar as informações contidas no texto jornalístico, ou seja, as que se inserem numa perspectiva de questionamentos, por oferecerem uma maior fundamentação para análise dos fatos. Entendo que o uso sistemático dessa prática possibilita ao estudante a crítica da informação, estimulando-o a contribuir para a superação das dificuldades reais. Ao mesmo tempo, oferece oportunidade para que ele aprenda a lidar com o excesso de informação do mundo contemporâneo.
ANJ - Como os programas brasileiros estão em relação a programas de outros países na sua opinião?
Ana Maria - Os bons programas têm sempre as mesmas características e, pelo que pude observar, tanto nas escolas brasileiras, como nas estrangeiras são adotadas práticas qualitativas capazes desenvolver possibilidades que conduzam o aluno a tomar decisões, emitir opiniões, estabelecer conexões entre os fatos, desenvolver a criatividade, etc. Posso dizer, no entanto, que, como tive bem mais acesso as atividades desenvolvidas no Brasil (nem todas as descrições enviadas por escolas estrangeiras vinham em inglês, mas no idioma do país de origem: dinamarquês, norueguês, tailandês, etc.) o volume de práticas pesquisadas me permitiu uma visão mais aprofundada dos programas brasileiros, que sugeriram excelente qualidade. Isto não quer dizer que os programas estrangeiros, de um modo geral, não apresentaram a qualidade revelada nos programas brasileiros.
ANJ - Você teve alguma surpresa ao longo da pesquisa? Qual? Por quê?
Ana Maria - Fiquei surpresa com a cartografia dos programas, que no ano 2000 já abrangia 40 países (segundo a World Association of Newspapers – WAN ) de todos os continentes, além de 16 estados brasileiros mais o Distrito Federal, os quais desenvolviam à época, um total 38 programas. Também me chamou a atenção o uso do jornal numa turma de 25 indígenas da Região Amazônica, na fronteira do Equador com o Peru, em 1998. Um outro registro que eu não poderia deixar de fazer, por ser muito animador para a educação: o espírito de criatividade dos professores e estudantes no desenvolvimento das práticas e a variedade das temáticas eleitas para debate.
ANJ - Que autores você recomendaria como fundamentais para a reflexão e discussão por parte dos coordenadores de programas de Jornal e Educação?
Ana Maria - A bibliografia especializada tem aumentado com a produção dos trabalhos do próprio pessoal envolvido na implementação dos PJEs. Conheço os trabalhos de Carmen Lúcia Lozza, coordenadora pedagógica do programa “Quem lê jornal sabe mais” desde 1989, e que há vários anos vem se dedicando ao estudo do tema. Temos os trabalhos de Silvia Costa, coordenadora do programa “Jornal, Escola e Comunidade”, da Tribuma de Santos; de Cecília Pavani, do programa “Correio Escola”, de Campinas; de Saraí Schmidt, de um dos programas do Rio Grande do Sul, dentre vários outros. Também não podem faltar na bibliografia destinada aos coordenadores dos PJEs os livros de Maria Alice Faria e um trabalho dessa autora juntamente com Juvenal Zanchetta Jr. Além dessa bibliografia mais específica e básica para os que se dedicam ao uso do jornal nas salas de aula, existe uma vasta relação de livros tanto da área de leitura como de jornalismo. Sua amplitude, contudo, não nos permite expô-la neste espaço. De todo modo, destacaria as obras de Perseu Abramo (Padrões de manipulação da grande imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003), Roger Chartier (A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP, 1998), Paulo Freire (A importância do ato de ler. São Paulo, Cortez, 1997), Adelmo Genro Filho (O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987), Alberto Manguel (Uma história da leitura. São Paulo, Companhia das Letras, 1997), entre diversos outros.
ANJ - Como vê a formação de educadores e comunicadores hoje no tocante à relação mídia-educação? Estão refletindo essa questão?
Ana Maria - Na minha opinião, o estudo crítico da mídia, tanto no processo de formação de educadores, como de comunicadores, ainda deixa muito a desejar. As iniciativas nesse sentido representam mais um esforço individual de um ou outro curso universitário, ou professor. Na verdade, o fortalecimento da relação mídia-educação vem sendo conduzido pela Associação Nacional de Jornais, que exerce um papel relevante junto às empresas jornalistas de todo o país, no sentido de incentivar parcerias com as escolas. Dessa forma, professores vêm sendo treinados no âmbito das suas escolas e capacitados para melhor compreender o jornal e melhor utilizá-lo como instrumento pedagógico. Embora eu não disponha de dados estatísticos, constatei, durante a minha atuação como coordenadora de um PJE em Natal, que grande parte dos professores só tinha acesso aos diários através dos programas oficiais de jornais na sala de aula.
ANJ - Novos projetos e pesquisas em vista?
Ana Maria - No momento, me preparo para uma participação no XXXI Congresso da Intercom, que se realizará no próximo mês de setembro em Natal. Depois, pretendo pesquisar a atuação de um jornal da minha cidade. Tenho algumas outras pretensões, mas estas duas estão na ordem de prioridade.
Serviço:
O livro “Virando a Página – O Jornal na Sala de Aula”, de Ana Maria Cocentino, editado pela Editora da UFRN, pode ser adquirido pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte pelo e-mail edufrn@editora.ufrn.br ou pelo telefone (84) 3215 3236. E ainda pela livraria Potilivros, pelo e-mail potilivros@vendas.com.br ou (84) 3203 2626. Em Natal está sendo vendido a R$ 20,00.