Intimidação a juízes e jornalistas
Judith Brito - Artigo publicado nos jornais O Popular, Diário de S.Paulo, Gazeta do Povo, Diário de Natal, Diário do Noroeste, Jornal Extra (PE), O Globo, O Paraná, O Povo, Correio do Povo, Gazeta do Sul, Correio de Uberlândia, Folha de Boa Vista em setembro de 2011
Levantamento recente divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça mostra que existem hoje no Brasil 134 juízes sob ameaça de morte ou violência. O brutal assassinato da juíza Patrícia Acioli, que chocou o país, foi uma prova contundente do risco real em que vivem os magistrados cumpridores de sua missão de promover a justiça.
Também recentemente a Associação Nacional de Jornais tornou público o seu Relatório de Liberdade de Imprensa, que revela o assassinato de cinco jornalistas nos últimos doze meses, em decorrência de sua atividade profissional. No mesmo período, ocorreram pelo menos sete casos de agressões físicas a jornalistas no exercício da profissão.
Como se vê, no Brasil, dois dos mais importantes contrapesos de uma sociedade democrática – o Poder Judiciário e a Imprensa – , sofrem igualmente diante daqueles que pretendem impedir, a qualquer custo, a busca da justiça, a apuração de crimes, a transparência, a circulação das informações.
Quando um magistrado é ameaçado e até mesmo morto, os criminosos mandam um claro aviso, buscando intimidar o Poder Judiciário. Parecido com o que ocorre quando jornalistas são ameaçados, agredidos e mortos. Neste caso, pretende-se amedrontar quem tem como missão desvendar o que está oculto, impedir que determinados fatos cheguem ao conhecimento das pessoas.
A violência contra juízes e jornalistas tem como principal combustível a impunidade. Criminosos ameaçam e até matam juízes e jornalistas por entender que dificilmente serão identificados e punidos. É mais uma grave falha do aparelho repressor do Estado brasileiro, que se mostra incompetente para proteger a sociedade de uma forma geral, em todos os seus setores, em todos os seus níveis.
No caso de juízes e jornalistas, o agravante está no fato de que a intimidação atinge também a essência da sociedade democrática. Juízes atuantes e destemidos são pressuposto para o permanente esforço de justiça que se deve buscar, assim como o livre trânsito de informações só acontece com o trabalho intenso dos jornalistas, sem sombras de ameaça.
O Relatório de Liberdade de Imprensa da ANJ mostra que os cinco assassinatos de jornalistas registrados nos últimos doze meses aconteceram no interior do país, mas é um engano supor que essa violência seja exclusiva de grotões sob domínio de um coronelismo tardio. Poderiam ter acontecido em grandes cidades, como já aconteceu e foi também registrado pela ANJ em outros períodos. Da mesma forma que o assassinato da juíza Patrícia ocorreu em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Não podemos permitir que em nosso país se repita o que já se viu na Colômbia, com juízes escondendo-se atrás de máscaras ao comandar julgamentos e proferir sentenças, temerosos de futuras represálias dos criminosos. Ou aceitar o que ocorre hoje no México, onde a imprensa se cala diante da ação dos narcotraficantes que tanto mal impõem à sociedade daquele país.
Os números divulgados pelo CNJ e a ANJ mostram que no Brasil a situação extrapolou, e muito, a normalidade. É preciso reagir, mostrar que a sociedade não aceita a intimidação a quem tem papel tão essencial na democracia. Cabe ao Estado – por meio do próprio Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia – impedir que a situação fuja do controle.