Mudam os paradigmas, não o jornalismo
Judith Brito - Artigo publicado no Jornal ANJ em Abril de 2011
Visionário como poucos, Marshall McLuhan teorizou que “o meio é a mensagem”. Nunca antes na história a humanidade pode assistir de forma tão generalizada a uma mudança de paradigmas, movida pela revolução digital, que transforma o mundo de fato em aldeia global – e interativa. Devices passam a ser, mais do que nunca, extensões do homem. A apreensão de uma mesma mensagem pode ter diferentes impactos, dependendo do meio em que é transmitido, e agora chegamos ao tempo em que, além da escrita, áudio e vídeo estarem convergindo para uma mesma tecnologia, a comunicação não comporta mais a categorização entre produtores e receptores. No limite, a mensagem é de todos para todos.
No caso dos jornais, os dispositivos móveis do tipo tablet, como o iPad, parecem representar o meio digital mais adequado - ao menos por enquanto, até que surja mais uma novidade. Sem tirar um pé do papel, nosso principal negócio, precisamos ter o outro pé no digital e avançar na direção de um modelo de negócios sustentável, com a remuneração necessária para um jornalismo de qualidade.
As empresas jornalísticas sempre se sustentaram no binômio receitas de assinaturas + publicidade. Apesar das dificuldades de se reproduzir o modelo na Internet, especialmente após a audiência já ter se acostumado ao conteúdo gratuito, parece não haver outro caminho.
Pensando na equação num mundo puramente digital: do ponto de vista dos custos, eles talvez sejam menores do que no mundo impresso, mas a demanda será por serviços de conexão, softwares, equipes e equipamentos ligados à tecnologia da informação – o que não é pouco. Aliás, o meio é cada vez mais importante para a veiculação da mensagem. Como exemplo: o leitor se importa com a qualidade do papel e da impressão, mas provavelmente não deixaria de ler seu jornal preferido em função de alguma oscilação, desde que a leitura fosse possível. No caso da Internet, a lentidão do serviço ou dificuldades de acesso ou de navegação são portas de saída, tendo o leitor a oportunidade de, num clique, pular para outra fonte. A produção de jornalismo de qualidade não deixará de ser uma atividade cara. Mais do que nunca, é preciso preservar o valor da informação de qualidade, aquela que faz o filtro em meio à multiplicidade caótica de informações, aquela que fideliza o leitor. Ao passar a cobrar por seu conteúdo, o The New York Times registrou uma queda de menos de 10% em seus visitantes únicos. Se, em contrapartida, conseguir fidelizar seus leitores no meio digital num modelo remunerado, sem dúvida será uma vitória. Por tudo isso, é impensável abrir mão de uma das maiores despesas de uma empresa jornalística: seu time de jornalistas.
Do ponto de vista das receitas, a incógnita é maior, porque precisamos construir com firmeza a cultura do conteúdo pago, como sempre ocorreu no mundo do papel. E, no que se refere à publicidade, ainda não sabemos exatamente o desenho futuro, em função da variedade de formatos que surgem a toda hora. É certo que hoje as unidades de negócios digitais dos jornais podem ser rentáveis porque se apóiam na matriz original, o impresso, que sustenta as grandes despesas.
Este quadro tem nos mostrado que devemos intensificar nossas ações na direção da valorização da produção jornalística. Precisamos defender nosso conteúdo da apropriação e uso gratuito por terceiros que se beneficiam de nosso trabalho. Precisamos, também, cobrar por nossas versões digitais. E devemos nos defender, ainda, das intenções de fabricantes de equipamentos, como o iPad, de se apropriar de nossos resultados e de nossa base de clientes. O modelo imposto pela Apple não é razoável: 30% de nosso faturamento é abusivo (segundo especialistas, o máximo compatível com o modelo de negócios dos jornais nos meios digitais seria 10%); e o contato com nossa base de clientes é fundamental para a qualidade do jornalismo que produzimos.
Em suma: vivemos um momento especial, histórico, em que paradigmas estão mudando. Não muda, no entanto, a necessidade das sociedades de terem informações, opiniões, e jornalismo de qualidade.