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O rio da aldeira

Judith Brito - Artigo publicado no Jornal de Itatiba, em Março de 2009

 

Há um poema de Fernando Pessoa que diz: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/ Por que o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.  Na aparente contradição, tão característica do grande poeta português, entendemos logo como é forte o  valor que damos a tudo aquilo que nos é mais próximo.  O rio da nossa aldeia, por menor que seja, terá mais significados que um grande rio como o Tejo.

Esse verso de Pessoa veio-me à lembrança a propósito de reflexões sobre a importância que têm os jornais de cada cidade nas vidas de seus cidadãos. Nada substitui a informação local, aquela que diz respeito ao nosso bairro, à nossa cidade, à nossa região. Nosso dia-a-dia e tudo o que influi nele – como as condições das ruas da nossa cidade, as escolas dos nossos filhos, os hospitais que nos atendem e assim por diante – têm uma relevância diferenciada. Não é por outra razão que existem no Brasil cerca 3 mil jornais, sendo mais de 500 diários. Em cada cidade, em cada região desse imenso país há o interesse específico dos seus habitantes pela realidade em que vivem, e não podia ser diferente. Antes de viver no mundo ou no país,  a gente vive na cidade.

Isso é verdadeiro no Brasil como em todo o mundo. Nesse momento em que a indústria jornalística de todos os países passa por transformações e enfrenta grandes desafios, é ainda mais verdadeiro. A internet, que nos transformou de fato numa aldeia global, disponibilizando em tempo real informações de todo o mundo, tornou ainda mais evidente aquilo que já era sabido: jornais são meios de comunicação com grande vocação local e regional.

Essa tendência, já batizada por estudiosos e especialistas de hiperlocalismo, vem se dando não apenas nas páginas impressas dos jornais regionais, mas também em seus sites na internet.  Ela valoriza a cobertura de assuntos que dizem respeito a um grupo de leitores, seja por similaridade geográfica ou cultural. A mesma internet da aldeia global é uma porta aberta para esse hiperlocalismo e aproxima os leitores dos seus jornais. É pela internet que os leitores contribuem com fotos, vídeos, informações e comentários que enriquecem o conteúdo dos jornais e seus sites e reforçam uma saudável e produtiva cumplicidade.

A Associação Nacional de Jornais, que tenho a honra de presidir como representante da Folha de S.Paulo, é formada por 140 jornais de absolutamente todos os estados do país. Grandes jornais, com grandes vendagens e abrangência nacional, estão na Associação, mas a imensa maioria de nossos associados é de jornais regionais, que para seus leitores são os mais importantes que existem.  Quem mora em Itatiba pode até ler jornais de fora, mas se quiser saber o que se passa na sua cidade certamente não dispensará o Jornal de Itatiba. A ambição de cada jornal regional deve ser exatamente essa: a de ser o melhor jornal do país em sua região. Deve ser insubstituível nesse sentido e completamente identificado com seus leitores. Pois nada substitui o rio da nossa aldeia.