Os jornais no futuro
Judith Brito - Artigo publicado na edição especial do Meio&Mensagem sobre o meio Jornal, em maio de 2011.
A rotina de um empresário é olhar números e fazer contas, analisar regularmente a saúde dos negócios, comparar-se com o mercado e prospectar tendências. Uma empresa jornalística é como todas as outras: visa o lucro. Mas, mais que outras, uma empresa jornalística precisa ser saudável para poder manter seu maior patrimônio: a independência editorial. Não pode estar a mercê de governos ou da benemerência pública, sob pena de esgarçar seus princípios.
No que se refere a prospectar tendências, o setor de mídia tem vivido talvez o período mais revolucionário da história. A Internet começou com ímpeto, passou por uma “bolha” que parecia dar razão aos descrentes sobre seu futuro, mas ressurgiu de forma a não deixar mais dúvidas de que é a plataforma para a qual convergirão, em diferentes velocidades nos diversos países, todas as mídias conhecidas até então.
Neste vendaval, trata-se de encontrar caminhos e fazer contas, de maneira a preservar o legado das empresas jornalísticas, a produção de conteúdo independente e de qualidade, aquele que faz a diferença no surgimento e na preservação das democracias. Criar e manter times de bons jornalistas - que trabalhem sob princípios de independência estabelecidos por empresas fortes, resistentes a pressões oriundas de instituições públicas ou privadas -, custa caro.
Empresas jornalísticas dependem basicamente do patrocínio de seus leitores, os assinantes ou compradores em bancas, e de um portifólio diversificado de anunciantes, que enxerguem credibilidade nestes veículos, de forma a associar suas marcas a esta credibilidade. Este modelo foi chacoalhado por mudanças profundas no mundo digital. O discurso da Internet grátis confundiu as empresas, que se viram impelidas a oferecer seus conteúdos de forma irrestrita na web, em busca de audiência. Passado o nevoeiro mais denso, ainda não podemos vislumbrar com clareza os cenários futuros, mas já confirmamos que, de fato, não há almoço grátis.
A despeito da mística do “gratuito”, há corporações fazendo muito dinheiro com a Internet. Aliás, na lista das marcas mais poderosas e valorizadas do mundo, várias são ligadas ao mundo da comunicação digital. Sem dúvida os negócios relativos a infraestrutura (como a telefonia), os fabricantes de equipamentos e as grandes plataformas de navegação movimentam fortunas – e os consumidores pagam por esses serviços. Aliás, pagam para tais empresas e usufruem graciosamente do jornalismo de qualidade produzido pelas empresas jornalísticas.
Por que a lógica da produção remunerada deveria ser diferente no negócio jornalístico online? Alguns dos jornais mais importantes do mundo começam a testar a fidelidade de seus leitores com a contrapartida do pagamento – e os primeiros resultados parecem ser positivos. Quanto à publicidade nos meios digitais, o desafio é ainda maior, considerando-se que a competição continua a ser entre o texto, o áudio e o vídeo – mas agora estende-se também a grandes plataformas de buscas e de mídia social.
É fundamental que os empresários do jornalismo continuem a fazer contas e a prospetar tendências – e agora de forma ainda mais acelerada e criativa. No caso dos jornais, a principal despesa para a produção de jornalismo de qualidade, o time de jornalistas, não deixará de existir; os custos do mundo off-line (papel, impressão, distribuição) serão substituídos, total ou parcialmente, por custos de infraestrutura de acesso, hardware e software, se o veículo quiser de fato competir em condições de igualdade tecnológica na multiplicidade de páginas disponíveis na Internet.
A Associação Nacional de Jornais vem estimulando seus associados a enfrentar os desafios do negócio digital, sempre na linha de valorizarem seus conteúdos a partir da cobrança. No que se refere ao Ipad, device que no momento parece ser o preferido do público para o acesso aos jornais, os desafios (no plano internacional) incluem a redução do percentual cobrado para a venda de assinaturas dentro do marketplace da Apple, de 30% para 10%, bem como a mudança na regra que determina a Apple como única interlocutora com os assinantes. É fundamental para os jornais o acesso direto aos seus leitores.
Certamente em todo o mundo teremos problemas e percalços nessa trajetória. Mas a fase em que nos encontramos implica necessariamente em erros e correções de rumo. Durante um bom tempo a mídia impressa continuará a ser a principal fonte de renda do nosso negócio. O grande desafio está em encontrar a sintonia adequada entre o negócio tradicional, da mídia impressa, e o negócio do futuro, da mídia digital, de modo a não canibalizar o primeiro e encontrar os caminhos da sustentabilidade do segundo.