Imprensa violentada
Editorial sobre a liberdade de imprensa na Argentina. A Tarde 22/12/2011 – Pág. 02
Há dois anos, pelo menos, o governo Kirchner e a imprensa argentina, representada pelos grupos El Clarín e La Nación, oposicionistas, batem de frente. Nos últimos dias, as agressões se agravaram com a invasão pela polícia durante três horas de uma operadora do primeiro grupo, a Cablevisión, a mais acessada no setor de multimídia. A empresa foi acusada de “exercício presumível de concorrência desleal” por uma competidora da base aliada governativa.
Em circunstâncias normais, o motivo alegado não daria margem a ações violentas determinadas por um juiz fora da jurisdição de Buenos Aires, sede das empresas.
Mas vale qualquer pretexto para acirrar o que os titulares dos dois grandes jornais, sobretudo o Clarín, de maior circulação no país, consideram “perseguição”, como forma disfarçada de pressionar e a mordaçar a mídia.
A ocupação e designação de um coadministrador ocorreram logo após o governo assumir, a título de interesse público, o controle do papel de imprensa, cujos fabricantes únicos são os diários El Clarín, com 49% das ações, La Nación, com 22,49%, e o Estado, com a participação minoritária de 28,08%. Para bom entendedor, o ato da presidente Cristina Kirchner ressuma totalitarismo.
Em março, piquetes de sindicalistas, industriados por forças ocultas de fácil identificação, impediram a circulação do mais influente dos dois diários. As autoridades federais silenciaram. Nada se fez para investigar, coibir e punir esses atos eventuais de autoritarismo com gosto de vingança. Os fados parecem tecer um futuro negro para a liberdade de expressão na América do Sul. .Na Argentina,os ataques à imprensa livre igualam ou superamos cometidos na Venezuela e suplantam episódios idênticos na Bolívia e Equador. Partem de governos empenhados em conspirações políticas para longa permanência no poder. O Brasil não tem escapado à censura velada, embutida às vezes em práticas discriminatórias, de natureza econômica.