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Abril 2011

Gazeta do Povo - Todo dia nunca é igual - José Carlos Fernandes / Márcio Renato dos Santos

 

A empresa vai comemorar uma daquelas datas especiais: um aniversário com números redondos ou deseja marcar um momento em particular, como nova sede ou homenagear o fundador. É tiro e queda. Alguém proporá que seja lançado um livro com a história da companhia ou a biografia do homenageado. Será um livro caro, é verdade, mas isso se contorna com a legislação de incentivo à cultura. O importante é que seja um daqueles livros grandões, de capa dura, cheio de fotos históricas e atuais, produzidas pelos melhores fotógrafos do mercado. E, claro, o texto deve ser assinado por um escritor ou jornalista renomado que, por um bom dinheiro dirá, como o então ministro Jarbas Passarinho na reunião ministerial que decidiu pela edição do Ato Institucional Nº 5, “às favas os escrúpulos de consciência”. De sua lavra sairá mais uma descrição do paraíso.

Nessa situação, o grande ausente é o leitor. Será que alguém lerá essa obra magnífica? O mais provável é que ela descanse – não eternamente, porque isso é muito tempo – por uma boa temporada em salas de espera, onde será folhado displicentemente por alguém ansioso por ser atendido.

Feita a ressalva acima sob a forma de “nariz de cera”, como se diz no jargão jornalístico, vamos ao livro resenhado, que é todo o contrário da situação descrita, mais frequente do que se imagina. Boas histórias precisam ser contadas, não apenas porque são interessantes, mas também porque é útil conhecê-las. É o caso da trajetória da Gazeta do Povo. Mas é importante não esquecer que história é mais do que relatar quem fez o que, quando, etc. Alem de ajudar entender o como e o porquê, deve nos ajudar a entender o presente, porque as coisas são diferentes e as situações atuais não podem ser enfrentadas da mesma forma como foram tratadas no passado. A receita do “business as usual” é o caminho para o desastre.

Nada melhor para um jornal e para a população de sua cidade do que a existência de fortes vínculos entre ambos, fruto da construção de consensos em torno tanto das grandes questões, como das pequenas idiossincrasias. Mas essa identidade não ocorre de forma fortuita. É construída ao longo dos anos e o processo de construção é tão importante quanto o resultado. Mais que isso, nem sempre as comunidades, assim como as pessoas chegam a perceber os problemas e menos ainda as soluções viáveis, as lutas que devem ser travadas por mais que pareçam utópicas, as campanhas que precisam ser feitas. Vislumbrar esses temas e indicar atitudes é uma característica e uma tarefa de líderes, sejam indivíduos ou instituições e algo mais eficazmente concretizado quando unidos, como um jornal e seu editor (ou publisher, no termo inglês cada vez mais utilizado).

Quem visita Curitiba e o Paraná ou analisa seus dados estatísticos em comparação com outros estados percebe de imediato sua pujança econômica, social e cultural e dificilmente compreenderá como se deu a transformação do estado agrícola quase monocultor de café, periodicamente assolado por catastróficas geadas que quebravam grande parte das safras e dos produtores, há menos de meio século. Dificilmente identificará na metrópole cosmopolita, reconhecida por suas inovações urbanística, pela qualificação profissional de seus habitantes e pela sofisticação de sua vida cultural, a cidade provinciana que só subsiste na memória de seus moradores mais idosos.

A grande transformação de Curitiba e do Paraná se torna compreensível quando se consulta a coleção da Gazeta do Povo ou mais sinteticamente “Todo Dia Nunca é Igual” e se encontra editoriais como “Vamos ser um estado eternamente agrícola?” a partir do qual se segue uma série de matérias e uma campanha sobre os rumos do desenvolvimento do estado. O mesmo ocorre em relação à educação e o combate à miséria, por exemplo.

A leitura de “Todo Dia Nunca é Igual” ajuda a compreender o papel de um autêntico publisher num jornal, que existem jornais que são empresas mas nem por isso deixam de prestar um serviço público e outras que se limitam a um empreendimento comercial ou político.