Folha de S.Paulo deixa de publicar no Facebook e esquenta debate sobre distribuição de jornalismo em redes sociais tomadas por notícias falsas Reprodução

Folha de S.Paulo deixa de publicar no Facebook e esquenta debate sobre distribuição de jornalismo em redes sociais tomadas por notícias falsas

A decisão do jornal Folha de S.Paulo de deixar de publicar no Facebook, após alterações no algoritmo da rede social que reduzem a visibilidade de conteúdo jornalístico, repercutiu no Brasil e no exterior. As primeiras análises reforçam a preocupação com o fortalecimento da propagação de notícias falsas no Facebook e em outras redes sociais, enquanto o jornalismo é desmerecido. Há, porém, muita dúvida sobre como os publishers devem proceder diante do problema, em um cenário em que Google e Facebook, principalmente, ficam com uma fatia de quase dois terços da publicidade digital, detêm a grande maioria da audiência online e representam percentuais baixos das receitas (média de 5%) dos produtores de conteúdo. Ao mesmo tempo, a Folha de S.Paulo reiterou nesta sexta-feira (9) ao Jornal ANJ estar confiante no acerto do movimento que fez.

Sérgio Dávila, editor executivo da Folha de S.Paulo, disse que o diário “está atacando em todas as frentes” para compensar a perda gerada pela página oficial no Facebook, seja ela do tamanho que for (a empresa não divulga esses dados) . Segundo o SimilarWeb, informou Marcelo Coutinho, coordenador do mestrado profissional em administração da Fundação Getúlio Vargas e colunista do site Meio & Mensagem, as redes sociais geraram 3,4% do tráfego total do site www.folha.com.br, sendo o Facebook responsável por metade disso. “A audiência vinda do Facebook cai no mundo todo para os produtores de jornalismo profissional”, destacou Dávila.

O editor executivo da Folha de S.Paulo enfatizou que a mudança de algoritmo do Facebook chega a ser “perversa” quando mostra menos postagens de notícias. “Ao privilegiar os compartilhamentos pessoais de conteúdo, o Facebook, talvez sem prever, acabará por privilegiar as ‘fake news’, disse, acrescentando que estudos recentes mostram que o fenômeno já está ocorrendo. “Explica-se: as notícias falsas costumam ser mais gritantes, mais estridentes, com títulos mais chamativos (por serem falsos) que as notícias verdadeiras. É natural que uma boa parcela do usuário do Facebook acabe compartilhando as notícias falsas”, avaliou Dávila.

O jornalista frisou ainda que, quando o Facebook “virtualmente baniu” o compartilhamento do conteúdo da página da Folha de S.Paulo (bem como dos demais produtores de conteúdo), não fazia mais sentido manter o funcionamento. Dávila ressaltou que o leitor continua podendo compartilhar o conteúdo do jornal normalmente em sua página pessoal do Facebook, assim como seus jornalistas, colunistas e colaboradores. Além disso, o diário paulista permanece nas demais redes sociais. “Enquanto as outras não mudarem seu algoritmo de maneira a prejudicar o jornalismo profissional, lá estaremos”, afirmou o editor executivo do jornal.

Além disso, o jornal paulista tem orientado o público sobre os canais que dão acesso ao seu site. Há, por exemplo, um aplicativo próprio, disponível gratuitamente na App Store (iOS) e no Google Play (Android). Por meio do app, é possível receber notificações das notícias mais relevantes do dia via celular. Também estão disponíveis e-mails e newsletters – Notícias do Dia, Folha Internacional, Serafina, Para Curtir SP, Colunas e Blogs, Dicas do Editor e Brasília Hoje, sendo as três últimas exclusivas para assinantes – com o conteúdo da Folha de S.Paulo.

Rede social afasta-se do jornalismo

Em entrevista para a Folha de S.Paulo, o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, afirmou que as movimentações recentes do Facebook estão afastando as empresas de mídia da plataforma. Para ele, informou a Folha de S.Paulo, se outros veículos chegarem à conclusão de que estão tendo mais desvantagens do que vantagens, poderão seguir os mesmos passos do jornal e deixar de postar conteúdo na rede.

O The Wall Street Journal, segundo a Folha de S.Paulo, disse que a decisão está entre uma das mais visíveis respostas à mudança no feed de notícias do Facebook. E acrescentou que isso ocorre em um dos países mais importantes para a empresa: a rede social tem 122 milhões de usuários ativos por mês no Brasil. O jornal inglês The Guardian destacou que a decisão da Folha de deixar o Facebook ocorre em um momento em que cresce a preocupação com a disseminação de notícias falsas durante o período eleitoral no Brasil.

Em reação à medida, o Facebook enfatizou que as mudanças em seu algoritmo são movimentos decisivos para garantir que as notícias que as pessoas veem sejam informativas e de qualidade. "Estamos comprometidos em construir uma comunidade informada, e continuaremos a trabalhar com veículos de comunicação latino-americanos para que eles possam usar a nossa plataforma para se conectar com os seus leitores de forma relevante", disse a rede social à imprensa norte-americana.

A importância da audiência jovem

Jeff Jarvis, professor de jornalismo na City University de Nova York, criticou a decisão, conforme relatou a Folha de S.Paulo. Para ele, o jornal está abandonando um número enorme de leitores, especialmente os mais jovens. "Nós precisamos levar o nosso jornalismo para as pessoas onde e quando elas estiverem conversando. Nós não podemos presumir que as pessoas virão até nós para se informar", disse.

A pedido do Jornal ANJ, Sérgio Dávila, editor executivo da Folha de S.Paulo, comentou a análise de Jarvis. “Estudos recentes mostram que o público médio do Facebook vem envelhecendo. Os jovens já estão migrando para outras redes e aplicativos. Dito isso, aumenta a importância da página da Folha como gerador de audiência, assim como aumenta a dos mecanismos de busca”, disse o jornalista.

Marcelo Coutinho, da FGV, lembrou no site Meio & Mensagem do trafego limitado dirigido pelo Facebook ao jornal paulista. “Ou seja, numericamente o impacto não é significativo e, em termos de receita publicitária, que a Folha tinha que dividir com o Facebook, deve ser menor ainda”. A questão agora, afirmou Coutinho, é se esse exemplo será seguido por mais veículos. “Para os que se construíram basicamente em cima da audiência das redes sociais e do jornalismo de clicks, acho que vai ser bem complicado. Para as marcas de mídia tradicionais, talvez seja a volta a um ambiente competitivo no qual elas têm maior poder de barganha e, do ponto de vista político-cultural, uma oportunidade para recuperar parte da relevância perdida nos últimos anos”, disse.

Também ao Meio & Mensagem, o jornalista e consultor Eduardo Tessler considerou o movimento da Folha uma aposta arriscada. “O que pode dar errado? Queda na audiência”, frisou. Ele assinalou ainda que Folha de S.Paulo e outras empresas de comunicação utilizaram o Facebook sem uma estratégia estudada. O risco, disse, é que “se o público está no Facebook, por qualquer motivo, é muito mais fácil trocar a Folha por um concorrente do que mudar de rede social”.

Interações em queda

A Folha de S.Paulo, que tem atualmente 5,95 milhões de seguidores no Facebook, relatou na quinta-feira (8) que a importância do Facebook como canal de distribuição já vinha diminuindo significativamente antes mesmo da mudança no algoritmo, no mês passado, tendência observada também em outros veículos. Em janeiro, o volume total de interações (compartilhamentos, comentários e curtidas) obtido pelas 10 maiores páginas de jornais brasileiros no Facebook caiu 32% na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados compilados pela Folha.

De acordo com a Parse.ly, empresa de pesquisa e análise de audiência digital, a participação da rede social nos acessos externos caiu de 39% em janeiro do ano passado para 24% em dezembro, informou o jornal paulista. O espaço vem sendo ocupado principalmente pelos mecanismos de busca, como o Google, que no mesmo período avançou de 34% para 45%.

A Folha de S.Paulo publicou ainda análise de sua reportagem segundo a qual, enquanto o jornalismo perde amplitude dentro da rede social, as falsidades ganham cada vez mais espaço. Os jornalistas avaliaram, por meio de dados do CrowdTangle, ferramenta do próprio Facebook, 21 páginas que postam "fake news" e 51 de jornalismo profissional.

A taxa média de interações no primeiro grupo aumentou 61,6% entre outubro do ano passado e janeiro deste ano. Já o segundo grupo viu queda de 17% no mesmo período. Em outubro, as páginas sensacionalistas engajavam, em média, duas vezes e meia a taxa da Folha de S.Paulo e outros veículos. A diferença aumentou para cinco vezes em janeiro.

Leia mais em:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/02/facebook-diz-que-age-por-noticias-de-qualidade.shtml

http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2018/02/09/o-que-vem-depois-do-unfollow-da-folha.html

https://www.theguardian.com/technology/2018/feb/08/facebook-brazil-newspaper-folha-de-s-paulo-fake-news

https://www.wsj.com/articles/brazils-largest-newspaper-to-cease-posting-on-facebook-1518110504