Cobertura da prisão de Lula resultou em quase 20 agressões a jornalistas, repudiadas por entidades nacionais e internacionais Reprodução/O Estado de S.Paulo/ NILTON FUKUDA

Cobertura da prisão de Lula resultou em quase 20 agressões a jornalistas, repudiadas por entidades nacionais e internacionais

O trabalho da imprensa na cobertura da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre os dias 5 e 7 de abril, foi marcado por agressões aos jornalistas em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasília, João Pessoa e Curitiba. Levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), informou o Centro Knight, indica que pelo menos 19 profissionais de comunicação foram agredidos por apoiadores de Lula e pela Polícia Militar. A violência foi repudiada por organizações de imprensa do Brasil, entre elas a Associação Nacional de Jornais (ANJ), e internacionais, como a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a Repórteres Sem Fronteira (RSF).

Logo após a decretação da prisão, Lula foi para a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo do Campo. Lá, na noite do dia 5, o fotógrafo Nilton Fukuda, do jornal O Estado de S. Paulo, foi alvo de ovadas lançadas por um homem com uma camiseta da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e registrou a agressão. A repórter Sonia Blota, da TV Band, também recebeu uma ovada na mesma noite, conforme escreveu em seu perfil no Twitter.

Na madrugada do dia 6, manifestantes tentaram invadir a sala no térreo do sindicato onde estavam profissionais de imprensa. Durante a noite, carros de reportagem da rádio Band News FM e da TV Cultura foram depredados. Na manhã do dia 7, um homem tentou expulsar o repórter Pedro Durán, da rádio CBN, de dentro do sindicato.

Ainda no dia 7, a repórter Joana Treptow, da TV Band, levou um tapa na mão durante uma entrada ao vivo. Em seu perfil no Twitter, a jornalista disse que foi obrigada a sair do sindicato. As repórteres Bruna Barboza, da rádio Bandeirantes, e Gabriela Mayer, da rádio Band FM, também relataram agressões em posts nas redes sociais. Uma equipe da Rede TV! também foi agredida diante do sindicato no dia 7, conforme divulgado pela emissora.

Em Brasília, na noite do dia 5, uma equipe do jornal Correio Braziliense foi atacada por cerca de 30 pessoas em frente à sede da Central Única de Trabalhadores do Distrito Federal (CUT-DF), onde apoiadores do ex-presidente na cidade se reuniram. Segundo o relato do jornal, os manifestantes avançaram sobre o carro do jornal, no qual estavam uma repórter, uma fotógrafa e um motorista. Eles quebraram um dos vidros do veículo e gritavam ofensas contra a imprensa. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil do Distrito Federal.

No mesmo local, uma equipe do canal SBT foi hostilizada, segundo o repórter Daniel Adjuto, bem como um fotógrafo da agência Reuters, impedido de registrar o protesto e acabou deixando o local. “A violência contra profissionais da imprensa é inaceitável em qualquer contexto. Impedir jornalistas de exercer seu ofício é atentar contra a democracia. Os autores devem ser identificados e punidos pelas autoridades”, comunicou a Abraji,

Em nota conjunta, a ANJ, a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER) repudiaram as agressões, se solidarizam com os profissionais e as empresas e pediram às autoridades a apuração dos fatos e a punição dos agressores.

“Toda essa violência injustificável e covarde decorre da intolerância e da incapacidade de compreender a atividade jornalística, que é a de levar informação aos cidadãos.”, diz a nota. “A liberdade de imprensa e o direito à informação são básicos nas sociedades democráticas, e estão sendo desrespeitados pelo autoritarismo dos agressores. Todos aqueles que prezam a democracia precisam se colocar contra esses lamentáveis episódios e se mobilizar para que não voltem a ocorrer. Sem jornalismo, não há democracia”.

Ao repudiar as hostilidades, a SIP informou que incluirá os incidentes entre os temas que serão debatidos durante sua reunião na semana que vem em Medellín, na Colômbia, e na qual se discutirá a situação da liberdade de imprensa no continente. A RSF qualificou o comportamento de manifestantes como "intolerável" e pediu que as autoridades respeitem o trabalho da imprensa.

Leia mais em:

https://knightcenter.utexas.edu/pt-br/blog/00-19481-pelo-menos-19-jornalistas-e-profissionais-da-imprensa-foram-agredidos-em-cobertura-de-