Entidades pedem retirada de acusações contra jornalista que investigou atuação do Estado Islâmico no Brasil Reprodução/Rede Globo

Entidades pedem retirada de acusações contra jornalista que investigou atuação do Estado Islâmico no Brasil

Entidades nacionais e internacionais ligadas ao jornalismo instaram as autoridades brasileiras a retirarem as acusações ao jornalista Felipe de Oliveira, do Rio de Janeiro, que se infiltrou em um grupo brasileiro de simpatizantes da organização terrorista Estado Islâmico (EI) em 2016 para reportar suas atividades. Em fevereiro deste ano, o juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba, aceitou denúncia do Ministério Público Federal (MPF) no Paraná, segundo a qual Oliveira “ultrapassou o limite do tolerável e promoveu a organização terrorista Estado Islâmico” em mensagens ao grupo.

No indiciamento, os promotores disseram que o jornalista manteve contato com várias pessoas que "glorificaram" o grupo militante do Estado Islâmico nos canais de mensagens do WhatsApp e Telegram. O juiz paranaense tem autoridade para descartar ou levar o caso a julgamento, segundo um porta-voz do Ministério Público que não quis ser identificado por procedimento, informou o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). Oliveira, que afirmou ter cooperado com as investigações das autoridades sobre o grupo militante depois que seus artigos foram publicados, pode enfrentar entre cinco e oito anos de prisão sob a lei antiterrorista brasileira, de 2016, se for considerado culpado.

“O repórter estava exercendo sua atividade, fazendo jornalismo. É incompressível que isso posso ser confundido com promoção de terrorismo”, lamentou o diretor executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Ricardo Pedreira. “Esperamos que essa decisão judicial seja revista”, emendou.

"É um absurdo que as autoridades brasileiras estejam comparando informar sobre os apoiadores do grupo militante Estado Islâmico com a participação ativa neste grupo", disse em Nova York o diretor de Programas do CPJ, Carlos Martínez de la Serna. "A reportagem investigativa não é um crime, e o jornalismo não é terrorismo. As autoridades devem descartar imediata e incondicionalmente as acusações contra Felipe de Oliveira e parar de puni-lo por reportar sobre uma questão de interesse público."

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que a atividade jornalística de Oliveira não deve ser confundida com crime. “Apelamos ao juiz federal Marcos Josegrei da Silva para que use a compreensão e o respeito que certamente tem pelo trabalho da imprensa para declarar Felipe de Oliveira inocente”.

O advogado de Oliveira, Beno Brandão, disse ao CPJ que o jornalista notificou as autoridades sobre seu trabalho e entregou todas as informações solicitadas, incluindo gravações e números de telefone para as investigações das atividades do grupo no Brasil. "Ele nunca teve a intenção de promover o Estado Islâmico", disse Brandão em entrevista por telefone. "Ele não os estava encorajando. Essas são pessoas que apoiaram o ISIS. Eles não eram alguns devotos abençoados da igreja em um serviço funerário. Ele tinha que fazer essas perguntas. Isso é o que um repórter investigativo faz".

Leia mais em:

https://cpj.org/pt/2018/04/reporter-brasileiro-e-acusado-de-promover-o-terror.php

http://www.abraji.org.br/noticias/jornalista-e-reu-por-terrorismo-apos-se-infiltrar-em-grupos-simpatizantes-do-isis-para-fazer-reportagem