Uma chance para o otimismo Foto: Júlio Cordeiro/RBS

Uma chance para o otimismo

A disseminação da falsidade causou muito estrago, mas há iniciativas para fazer a apuração profissional ganhar fôlego e conter a barbárie.

Basta puxar da memória para apenas um ano atrás. As expressões pós-verdade e fake news ainda não haviam sido transplantadas de alguns poucos trabalhos acadêmicos, o mundo seguia embasbacado pelos números estonteantes de audiência de Google e Facebook e pelo glamour exalado por duas marcas que conquistaram o universo digital e da comunicação praticamente sem resistência. No lado dos ocupados, havia apenas desalento: circulações em queda, receitas migrando na ponte aérea para o duopólio dos gigantes digitais e, pior, dedos apontados para jornalistas e meios de comunicação, desterrados ao passado sob o peso da expressão “mídia tradicional”.

Passados menos de seis meses, o jornalismo profissional começa a se erguer do pântano em que fora metido. Agora, volta a andar de cabeça em pé graças a um embrionário processo de reconhecimento do papel que a história reservou à profissão: servir de mediadora entre fatos e fenômenos com o público, valendo-se dos relatos mais fidedignos possíveis e da pluralidade de visões. Ironicamente, são agora os antigos profetas do futuro que, constrangidos, se veem na condição de dar explicações, buscar justificativas e improvisar iniciativas de relações públicas para tentar demonstrar que se preocupam em agir contra a onda planetária de notícias falsas.

É uma guinada e tanto. Há apenas cinco anos, na esteira da Primavera Árabe, as redes sociais eram incensadas como os novos libertadores dos povos oprimidos. Finalmente, os sem–voz e sem acesso direto a meios de comunicação de massa tinham encontrado uma forma de transmitir sua mensagem para outros que pensavam como eles e, em última análise, para o resto do mundo. Embevecidos pelo novo instrumento que permitia emitir uma mensagem sem filtros, a custo baixíssimo e de forma instantânea, os com-voz não perceberam os primeiros sinais de que a cada ação corresponde uma reação. Quando o desejo de liberdade chegou ao Irã, o regime estava mais preparado. A repressão identificou e prendeu os líderes da rebelião contra o poder dos aiatolás. Bastou seguir as pegadas digitais nas redes sociais e nos sistemas de trocas de mensagens. Duas revoluções começavam a morrer ali: a da liberdade no Oriente Médio e a que prometia liberdade de expressão sem limites e barreiras.

Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça. O produto de Facebook e Google é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. No caso das redes, havia outro fenômeno em formação sem que nem seus criadores se dessem conta dos efeitos tóxicos que estavam gestando. Ao fragmentar o mundo em bolhas de opinião e interesses, o algoritmo que define o que cada um vai ver ou ler oferece ao usuário mais do mesmo, na expectativa de que ele se manifeste, compartilhe ou dê likes sobre o conteúdo, revelando assim mais e mais sobre si mesmo. O engajamento é o negócio dos gigantes, e, quanto mais alguém interagir com o conteúdo, mais estará servindo aos propósitos de Facebook e Google.

Essa fórmula era apenas uma eficiente forma para identificar o cliente mais propenso a adquirir um determinado produto até que a indústria da manipulação, motivada principalmente por interesses ideológicos e econômicos, se deu conta de que haviam encontrado uma avenida para seus propósitos. Para incentivar engajamento, o algoritmo esquadrinha o comportamento dos indivíduos e divide-os, por exemplo, entre os que frequentam o açougue e os que só põem os pés no mercado vegetariano. Um não quer saber do outro e, mesmo que quisesse, o algoritmo não pretende ajudar a construir uma ponte entre os dois universos. Ao contrário, ele reforça as crenças e valores de cada usuário, que, quanto mais se engaja com um enfoque, mais recebe sobre ele. E assim teve inicio a escalada de intolerância que assusta a quem acompanha as consequências do pugilato digital.

Desejo de aniquilação

Outro efeito colateral, não previsto nos primórdios das redes: para conquistar adeptos e likes, o usuário tem de postar ou compartilhar conteúdos cada vez mais espetaculares e radicais, num crescendo de virulência robustecido a todo instante pelo algoritmo. O resultado é que o frequentador do açougue ou do mercado vegetariano acabam não querendo mais apenas saber as novidades em carnes, frutas e verduras. Eles desejam é a aniquilação do outro, a imposição de seus costumes sobre as tribos adversárias. O fenômeno ficou popularizado como bolhas ou câmaras de eco, nas quais as mesmas opiniões se repetem em infinitos likes, esmagando ou expulsando visões dissidentes.

A indústria da manipulação identificou no mesmo mecanismo um campo fértil para as campanhas eleitorais. Demonstrar o valor e o projeto do candidato nas redes já não é mais o objetivo principal. A indústria se deu conta de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos espetaculosos, fofocas e temas apimentados. No Brasil, por exemplo, a “candidata lésbica” ou o “candidato traficante” ganharam muito mais compartilhamentos do que as propostas de ambos para a Previdência Social.

Para reforçar a mensagem sensacionalista, era preciso também desacreditar os meios de comunicação e o jornalismo profissional, a derradeira barreira de contenção a avalizar ou não as inverdades ou meias–verdades a zanzar pela web. Assim, veículos forjados por gerações de profissionais no esforço da credibilidade foram transformados em vilões, suspeitos de ocultar informações sob a acusação de estarem mancomunados com o adversário, fosse ele quem fosse. Ao usuário comum, que assim imagina ter acesso a informações muito sigilosas sobre o que “a grande mídia quer esconder”, a história passa a se revestir de ares de verdade restrita a alguns escolhidos. E assim nascem e florescem as teorias da conspiração, um fenômeno que, até a difusão das redes, vivia na redoma do exotismo, como a história de que Hitler está vivo ou de que o homem nunca pisou na Lua. De uma hora para outra, teorias delirantes passaram a ganhar amplos espaços e vida próprios, transformando o que seriam antigamente eleitores bem-intencionados em crentes de que Hillary Clinton de fato mandava matar desafetos.

Sem barreiras legais ou éticas, especialistas em adulteração de informações passaram a agir nos desvãos das campanhas. Nas Filipinas, a foto de uma menina de nove anos, que teria sido morta por usuários de drogas, foi decisiva para a eleição do truculento Rodrigo Duterte em 2016, meses antes de Trump. A menina fora assassinada no Brasil em 2014, mas quem se importa com os desmentidos? Nas redes, a mentira sobe de elevador, enquanto a aborrecida correção segue, resfolegante, pelas escadas. Durante a campanha, o odor de sangue transformou os eleitores filipinos em tubarões sedentos de carne, numa escalada que só foi possível graças às redes sociais.

Identificar inimigos ocultos e gerar pavor é uma tática antiga de conquistar adeptos e converter recalcitrantes. Dos comunistas comedores de criancinhas aos horrores do nazismo contra os judeus, o século 20 foi farto em campanhas difamatórias com fins políticos. Mas as redes aceleraram dramaticamente esse processo. O medo da invasão dos imigrantes deu alento ao Brexite a ameaça de um terrorista em cada esquina foi decisiva para a vitória de Donald Trump.

No mundo idealizado das redes, as pessoas se organizariam por autogestão, em sintonia perfeita, para compartilhar conteúdos edificantes. Há, claro, muitos conteúdos educativos, de alto nível e – por que não? – divertidos nas redes. Mas imaginar que o trânsito da megalópole poderia se autogerir sem semáforos, placas ou guardas durou apenas até o momento em que as gangues viram uma oportunidade e tomaram conta das ruas, valendo-se da ingenuidade dos motoristas bonzinhos e daqueles aparentemente sensatos que acabaram reféns dos bandidos.

Efeitos colaterais

Na virada do ano, estarrecido pela fábrica de mentiras que ajudou a eleger o presidente da maior potência do planeta, o mundo começou a acordar. Aqui e ali, loucuras originárias da web passaram a tirar pelo menos um pequeno grupo de estudiosos e formadores de opinião da letargia em relação aos efeitos colaterais do mundo em redes. Um desses efeitos tóxicos ocorreu em 24 de dezembro de 2016, quando o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, tuitou a seguinte frase, a propósito de uma suposta entrevista do ministro da Defesa de Israel na qual ameaçaria retaliar uma possível intervenção paquistanesa no conflito sírio: “Israel esquece que o Paquistão é uma potência nuclear também”.

A ameaça acendeu o alerta laranja em Israel. A declaração do ministro israelense jamais fora feita: a entrevista que desencadeou a pesada reação paquistanesa era uma invenção do início ao fim, disseminada como notícia verdadeira pela web. Ou seja, duas potências nucleares estiveram à beira de uma crise diplomática por causa de uma entrevista falsa que enganou e indignou muita gente. A sofisticação de algumas montagens de fato torna difícil distinguir a verdade à primeira vista, mas bastaria uma checagem na fonte original para desmascarar os farsantes.

Nesse preocupante mundo novo da informação, não é suficiente, porém, ostentar uma marca de credibilidade para abrir as portas do paraíso aos jornalistas. A técnica profissional, como em qualquer outra atividade, precisa evoluir para um estágio mais avançado e profundo e produzir um conteúdo muito diferenciado, disponível até agora em poucos veículos do planeta. Para atender à demanda por uma qualidade superior, jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões – de modo rápido e preciso sob pressões tremendas, desviando-se de armadilhas ocultas, sem praticamente nenhum espaço para o erro. Boa parte da pressão virá diretamente do público, ávido por descobrir o que há de verdade sobre um acontecimento ou compreender suas implicações, já não mais em uma questão de dias ou semanas, mas de horas ou minutos.

O consumidor desse jornalismo cirúrgico poderia ser comparado a alguém que, se sentindo doente, recorre ao Google e digita seus sintomas. O fato é que, no caso de algo potencialmente sério, ninguém se contenta com os conteúdos espalhados pela internet. O paciente procura um médico e, diante da complexidade, recorre a um especialista, e assim por diante.

Um processo similar vai ocorrer no campo da comunicação. Os indivíduos continuarão sendo contaminados pela radiação perversa emanada pelas notícias falsas – afinal, há e haverá mais e mais informações distorcidas cientificamente pelos charlatães que atuam na web. Mas, como informação de qualidade será um bem valioso, a tendência que primeiro se busque o refúgio da credibilidade em um jornalismo com menor risco de contágio por interesses políticos e econômicos, ou seja, aquele produzido por alguma forma de guia profissional que persegue princípios básicos universais, como a busca da verdade e a correção de eventuais erros.

Em jogo, a reputação

Naturalmente, como na história do diagnóstico médico, há bons e maus doutores, centros de saúde de referência e outros que mereceriam ser fechados. Achar o melhor jornalista e marca jornalística será como identificar os melhores médicos e hospitais. No futuro, com a sofisticação dos processos de seleção de informação e avaliação de fontes, a reputação será o grande divisor de águas entre curandeiros da noticia e profissionais do jornalismo de alto nível.

A indústria da informação está sendo transformada radicalmente pela tecnologia. No entanto, tecnologia, para esse jornalismo em um novo patamar, não será um fim em si mesmo, mas um instrumento pai a alcançar novas audiências, desencavar matérias, interagir, providenciar diferentes formas de acesso e apresentação e, assim, gerar novas experiências e níveis de engajamento. Embora profundamente conectada à tecnologia, a imprensa não está no ramo de desenvolvimento de software. O núcleo da atividade se assentará cada vez mais sobre a confiança. Esse será o bem mais valioso do futuro – para o sistema econômico, que pode ser devastado por rumores, por governos e políticos, que têm o dever de prevenir a disseminação de informações falsas e preservar a democracia, e, naturalmente, para os indivíduos e a sociedade civilizada.

Confiança se tornou tão indispensável porque nunca antes o apocalipse moral esteve tão próximo – não na forma de códigos nucleares, mas mimetizado como verdade em conteúdos apócrifos. Nos próximos cinco ou 20 anos, o mundo será desafiado por uma inesperada sucessão de ameaças desencadeadas pela difusão de informações falsas, seja por robôs programados para espalhar a cizânia ou por bem-intencionados cidadãos semianalfabetos em termos midiáticos e, portanto, presas fáceis do compartilhamento de sandices. Ao mesmo tempo, as redes sociais e suas bolhas deverão prosseguir em sua jornada rumo à progressiva intolerância e alienação do pensamento divergente.

Apesar de o mundo começar a se dar conta de que o antídoto para os fakebooks da vida é jornalismo profissional em um patamar superior, a sociedade ainda está longe de aceitar que esse produto não é barato. Na realidade, para desmontar versões em escala permanente e generalizada, as empresas de mídia precisarão de mais e mais recursos no momento em que já são profundamente afetadas pela drenagem de verbas canalizadas para o duopólio Google e Facebook.

A ironia é que o modelo de negócios dos gigantes digitais depende do conteúdo de qualidade, exatamente o que as melhores redações produzem. Somente quando os dois mundos se complementarem em um modelo harmônico e sustentável, capaz de manter o jornalismo vivo, vibrante e em permanente evolução, os sujeitos maus serão expulsos da cidade pelos xerifes da verdade. É bom avisar os bandidos. Os mocinhos estão ressurgindo para restabelecer a conversação pacífica e respeitosa, defender a democracia e exterminar os fatos alternativos da face da Terra. Mas, antes que seja tarde demais, precisam do apoio da cidade e de seus cidadãos de bem.

*Presidente do Fórum Mundial de Editores e da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Vice-presidente editorial do Grupo RBS. Artigo publicado originalmente na Revista de Jornalismo ESPM – Nº 19

 

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