Sem transparência e com práticas comerciais abusivas, Facebook segue propagando notícias falsas e ódio Reprodução/Politico

Sem transparência e com práticas comerciais abusivas, Facebook segue propagando notícias falsas e ódio

Depois de muito relutar, Mark Zuckerberg anunciou, no fim de 2016, que assumiria responsabilidades e agiria em relação à profusão de mentiras e discursos odiosos em seu poderoso Facebook. De lá para cá, fez inúmeras promessas, também voltadas a correções de outras práticas de sua companhia que visam manter parte do bolo do mercado digital que divide, em duopólio, com o Google. Dez meses depois, porém, o que se vê é a repetição do mesmo modelo. Há frustração até mesmo entre os fact-checkers alistados com alarde por Zuckerberg, que afirmam: a recusa do gigante de tecnologia em compartilhar informações impede que seus trabalhos sejam mais eficientes.

Os fatos que sustentam essa aparente incapacidade do Facebook de cumprir o que prometeu surgem aos borbotões e não precisam de verificação; estão bem evidenciados. Alguns deles são escabrosos e projetam tempo duros pela frente. É o caso do anúncio feito pela própria companhia do Vale do Silício, segundo o qual o exército de contas falsas (quase 500), estabelecidas no Facebook, de origem russa e com o objetivo de influenciar nas eleições e na política norte-americanas, movimentou milhares de seguidores com quase 5 mil anúncios em um investimento próximo a US$ 150 mil.

O conteúdo dessa publicidade, em geral, tinha um propósito muito claro, conforme escreveu o jornalista Pedro Doria, especialista em tecnologia: “Provocar discórdia. Aumentar o fosso entre bolhas de opinião. Dividir”. O que ocorreu nos Estados Unidos, assim como em outras regiões do planeta justamente em momentos de grandes decisões políticas e sociais, como o Brexit, tem tudo para se repetir.

O Brasil está nessa rota. “Na falta de dinheiro, acirrar divisões via redes sociais é a maneira mais barata de fazer campanha política. Brasileiros já têm experiência com isso. Em 2018, nós sequer saberemos. Sairá pouco nos jornais. E, salvo aumento de transparência das empresas desta nossa internet social, não vamos perceber. Mas aquilo que discutiremos online não tem nada de utopia democrática digital. Vai ter muita gente tentando manipular. Alguns conseguirão”, projeta Doria.

Risco à democracia

Nos Estados Unidos, advogados e pesquisadores que estudam anúncios políticos advertiram, em entrevista ao BuzzFeed, que o enorme alcance do Facebook e a falta de transparência sobre anúncios em sua plataforma representam um risco para o processo democrático. Alex Howard, vice-diretor da Fundação Sunlight, que defende a transparência de governos, disse que os anúncios online altamente direcionados podem ser "armados contra as democracias liberais" porque não atendem os mesmos níveis de divulgação e visibilidade que os anúncios tradicionais de rádio, TV e impressos. "Remove nossa capacidade de transparência sobre quem está tentando influenciar nossa política e qualquer responsabilidade por essa influência", disse Howard. "E tira da capacidade dos órgãos tradicionais da democracia - que sejam a imprensa e os reguladores e outras instituições - descobrir quem está por trás da mensagem política, particularmente em momentos cruciais".

O Facebook e outros gigantes tecnológicos têm se desviado de uma grande regulamentação nos Estados Unidos, apesar do seu enorme papel na sociedade, descreve também o BuzzFeed. Mas as preocupações com a manipulação de publicidade política por entidades estrangeiras e outras partes provavelmente aumentarão o escrutínio governamental e regulatório, arrisca o site de notícias.

O senador Mark Warner, da Virgínia, por exemplo, disse que pode haver necessidade de introduzir novos requisitos para plataformas de redes sociais que executem anúncios políticos. "Um americano ainda pode descobrir o conteúdo que está sendo usado na propaganda de TV. Mas nas mídias sociais não existe tal exigência", disse Warner, segundo informou a CNN.

Dados violados

Transparência parece algo ainda muito distante para o Facebook, o que contribui para o sentimento de que os problemas se arrastarão ainda por muito tempo, dentro de algo que lembra uma cadeia produtiva. Nesta semana, por exemplo, Agência Espanhola de Proteção de Dados multou o Facebook (em o equivalente a R$ 4,4 milhões) na Espanha por obter dados sem o consentimento dos usuários e não informar claramente o uso que dá às informações. A multa é resultado de uma investigação sobre a empresa, que também foi conduzida na Bélgica, França, Alemanha e Holanda.

Após uma investigação, relatou o jornal Folha de S.Paulo, a agência constatou "que o Facebook compila dados sobre ideologia, sexo, crenças religiosas, gostos pessoais ou navegação sem informar de forma clara sobre o uso e a finalidade que vai dar aos mesmos". A rede social usa dados "especialmente protegidos com fins de publicidade (...) sem obter o consentimento expresso dos usuários como exige a norma de proteção de dados". Além disso, utiliza informações obtidos em páginas de terceiros "que não são do Facebook e que contêm a opção 'curtir'", destacou a agência.

O órgão também informou que encontrou evidências de que a rede social mantém informações dos usuários por mais de 17 meses depois que eles encerram suas contas. O Facebook afirma que apaga dados como fotografias e atualizações de status dos usuários quando as contas são encerradas, em um processo que pode levar até 90 dias, mas que normalmente é completado antes. A empresa norte-americana disse que leva a sério a privacidade das pessoas que utilizam seus serviços, que cumpre a lei de proteção de dados da União Europeia e que planeja recorrer da decisão.

Métricas duvidosas

Também falta transparência nas métricas do Facebook. Na semana passada, por exemplo, o analista Brian Wieser, da Pivotal Research, apontou que as ferramentas de propaganda online da empresa afirmam ser capazes de atingir 25 milhões de jovens a mais do que o censo afirma existirem nos Estados Unidos. O especialista disse que o Ads Manager afirma ter o potencial de atingir 41 milhões de jovens entre os 18 e 24 anos de idade, e 60 milhões de pessoas entre os 25 e os 34 anos, nos Estados Unidos. O problema, segundo Wieser, é que os números do recenseamento apontavam para a existência de apenas 31 milhões de pessoas entre os 18 e 24 anos nos Estados Unidos, no ano passado, e 45 milhões de pessoas entre os 25 e os 34 anos.

O Facebook afirmou que os números que oferece não são calculados de forma a acompanhar estimativas populacionais e de recenseamento, afirmando que eles derivam de informações providas voluntariamente por usuários, entre os quais não residentes. As estimativas se baseiam nos "comportamentos de usuários do Facebook, dados demográficos sobre eles, dados de localização colhidos de seus aparelhos e outros fatores", anunciou a empresa em comunicado. "Elas são concebidas de forma a avaliar quantas pessoas em uma dada área são elegíveis para ver um anúncio que uma empresa possa veicular".

Ao longo dos últimos 12 meses, o Facebook divulgou uma série de erros de mensuração sobre a frequência com as pessoas assistem a vídeos em seu site, e por quanto tempo o fazem. O mais recentemente desentendimento é representativo da maneira pela qual provedores de conteúdo e agências de publicidade vêm pressionando por melhor prestação de contas, e por fiscalização externa sobre empresas como o Facebook e o Google, disse Jason Kint, presidente-executivo da Digital Content Next, uma organização setorial dos provedores de conteúdo online.

"Não se trata de uma pequena empresa de mídia ou pequeno vendedor de publicidade com uma disparidade em seus números", disse Kint. "Estamos falando de metade do duopólio que está capturando a maior parte do crescimento no setor de mídia. Existe absoluta necessidade de que eles sejam avaliados pelo resto do setor e por organizações independentes, para garantirmos que eles estejam produzindo de fato os resultados que dizem produzir".

A julgar pela frustração dos verificadores de fatos, parceiros do Facebook na linha de frente do combate às notícias falsas, a tarefa não será nada fácil. "Eu diria que a falta geral de informação - não só dados – por parte do Facebook é uma preocupação para a maioria dos editores", disse Adrien Sénécat, jornalista do Le Monde, uma das organizações de notícias que que mantém parceria com o Facebook. 

O problema, disse Alexios Mantzarlis, diretor da Rede Internacional de Verificação de Fatos da Poynter, é que os verificadores não sabem como as histórias são afetadas por serem sinalizadas: se as reações a elas mudam, se o compartilhamento sobe ou desce ou, mais amplamente, se as verificações de fato são capazes de mudar a mente de alguém inclinado a acreditar em uma história falsa. Ele, entretanto, está otimista de que, eventualmente, a o Facebook se abrirá. "Espero que possamos chegar lá antes do final do ano. Acho que isso é importante para as pessoas dentro do Facebook, então acho que vão compartilhar informações".

Leia mais em:

http://www.politico.com/story/2017/09/07/facebook-fake-news-social-media-242407?utm_source=API+Need+to+Know+newsletter&utm_campaign=1d278aa8e0-EMAIL_CAMPAIGN_2017_09_08&utm_medium=email&utm_term=0_e3bf78af04-1d278aa8e0-45815109

https://www.buzzfeed.com/craigsilverman/facebooks-russian-ads-disclosure-opens-a-new-front-that?utm_source=API%2BNeed%2Bto%2BKnow%2Bnewsletter&utm_campaign=1d278aa8e0-EMAIL_CAMPAIGN_2017_09_08&utm_medium=email&utm_term=.uoJY1WJkw#.hbMdKBZEM

http://fortune.com/2017/09/06/facebooks-ad-metrics-census-pivotal/?utm_campaign=Newsletters&utm_source=sendgrid&utm_medium=email

http://www.businessinsider.com/facebook-says-fake-accounts-linked-to-russia-bought-ads-during-us-election-2017-9?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=TechSelect&pt=385758&ct=Sailthru_BI_Newsletters&mt=8&utm_campaign=BI%20Tech%20%28Tuesday%20Thursday%29%202017-09-07&utm_term=Tech%20Select%20-%20Engaged%2C%20Active%2C%20Passive%2C%20Disengaged

https://www.propublica.org/article/help-us-monitor-political-ads-online

http://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,as-redes-manipuladas,70001976026

http://www.bbc.com/mundo/noticias-41188907

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/09/1917395-espanha-multa-facebook-em--12-mi-por-desrespeito-a-protecao-de-dados.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/09/1917402-publico-que-facebook-diz-atingir-nos-eua-supera-dados-do-censo-americano.shtml

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