James O’Keefe, fundador do Project Veritas James O’Keefe, fundador do Project Veritas /Reprodução/The Guardian/ Pablo Martinez

Ataques para desqualificar o jornalismo estão mais sofisticados; Brasil entra em alerta

Organizações de ativismo político ou comerciais dispostas a promover a farsa e o ódio na internet estão cada vez mais virulentas e sofisticadas no ataque ao seu principal inimigo: o jornalismo profissional. Os ataques a profissionais e a veículos de comunicação colocam em alerta todos os países livres, em especial aqueles com eleições em 2018, como o Brasil. 

O caso da tentativa da entidade/site de direita Project Veritas, de James O'Keefe, de enganar o jornal norte-americano The Washington Post com o objetivo de desqualificá-lo – e, a reboque, a imprensa como um todo – expõe os riscos impostos atualmente ao jornalismo, mesmo quando o jornal e seus profissionais seguem à risca a ética profissional e tratam de evitar que sejam manipulados por interesses espúrios.

O objetivo da farsa montada pelo Project Veritas, que colocou uma mulher, Jamie Phillips, a afirmar falsamente ao The Washington Post que Roy Moore, candidato republicano ao Senado pelo Estado do Alabama, a havia engravidado quando ela era adolescente, era, segundo vários jornais, convencer o diário norte-americano a publicar a história para, depois, desmenti-la e, com isso, desacreditar os veículos que reportaram as acusações de múltiplas mulheres, que denunciaram o senador por assediá-las quando eram adolescentes e ele tinha pouco mais de 30 anos. Moore nega qualquer impropriedade.

A partir do natural trabalho de apuração e checagem, os jornalistas do The Washington Post desmascararam a falsidade. Chegaram até mesmo a ver a denunciante entrando nos escritórios do Project Veritas, organização que ataca grandes veículos noticiosos e organizações liberais e esquerdistas.

Depois disso, o The Washington Post tomou a decisão de reportar sobre as declarações anteriores que a mulher havia feito em off. "Sempre honramos nossos acordos de manter declarações em off, desde que haja boa fé", explicou Martin Baron, editor executivo do jornal. "Mas essa conversação supostamente em off era na verdade um esquema para nos enganar e embaraçar. A intenção do Project Veritas era claramente a de divulgar a conversa se caíssemos em sua armadilha. Por conta de nosso rigor jornalístico usual, não fomos enganados, e não podemos honrar um acordo para manter em off uma conversa quando a outra parte está claramente agindo de má fé".

A falsa verdade

O problema é que no odioso mundo das bolhas da internet (a cada vez mais fora dela) a verdade de alguns grupos é absoluta, por mais fraudulenta e inverossímil que seja. Logo após a revelação do The Washington Post de que havia descoberto a farsa, grupos espalhados na web, claramente bem financiados, trataram de ridicularizar o jornal, insinuando que a falsidade vinha do veículo, tentando manter seu poder, e não do Project Veritas.

O fato é que os ativistas da mentira e das fileiras que tentam desacreditar o jornalismo jamais se dão por vencidos. De farsa em farsa criam uma “verdade alternativa” e pretendem transformar derrotas em vitórias. Pode ser casualidade, mas um dia após o The Washington Post revelar a história da Project Veritas os advogados do governo de Donald Trump enviaram a um tribunal um vídeo da organização de ultradireita no âmbito de um julgamento de ativistas que protestaram na posse do presidente norte-americano e agora enfrentam acusações de conspiração e tumultos que podem levar a décadas de prisão. A decisão de usar o vídeo de um grupo ultraconservador, conhecido por táticas eticamente questionáveis, criou críticas de grupos de liberdades civis.

Mas nada parece abalar o ativismo malicioso. Lucian Wintrich, correspondente do site de ultradireita Gateway Pundit disse: "Eu acho que o vídeo do The Washington Post [no qual o jornal interpela a falsa denunciante Jamie Phillips] mostra como seus repórteres são manipuladores”, acrescentou. "Eu acho selvagem que o The Washington Post tenha o perseguido [o jornal foi em busca da versção de O'Keefe sobre o caso] fora de seu prédio", acrescentou Wintrich.

Hostilidade à Primeira Emenda

Em artigo publicado nesta sexta-feira (01) em O Globo, Max Boot, editorialista da revista ‘Foreign Policy’ é taxativo: a epidemia de notícias falsas que visam atacar a imprensa é perpetrada pelo presidente Donald Trump e seus apoiadores. O próprio Trump contribui para sua máquina de papo furado, inventando afirmações tresloucadas, escreveu Boot, e ainda retribuindo os difamadores que o seguem retuitando positivamente o que escrevem a seus 43,5 milhões de seguidores.

Na última quarta-feira (27), lembrou o jornalista, Trump desceu a um nível ainda mais baixo após retuitar vídeos de uma líder fascista britânica, mostrando supostas atrocidades cometidas por muçulmanos. “A descarada investida de Trump contra a verdade naturalmente vem acompanhada de seu ataque contra a mídia profissional, que se esforça o máximo possível para dizer a verdade”, enfatizou Boot. O presidente norte-americano, continuou o jornalista, está rapidamente desconstruindo o papel tradicional dos EUA como campeão da liberdade de expressão e imprensa livre no mundo. “Nunca tivemos um presidente tão hostil à Primeira Emenda Constitucional.”

Na Espanha, a preocupação é tanta que a nova Estratégia de Segurança Nacional inclui pela primeira vez as “campanhas de desinformação” como uma das formas da chamada guerra híbridaO governo espanhol informou ter constatado, por exemplo, que nos últimos dias de setembro e no começo de outubro 50% dos perfis que difundiram fake news procediam de servidores alojados em território russo, enquanto outros 30% vieram da Venezuela.

Cuidados redobrados

No Brasil, às vésperas das eleições, essa rede de intrigas repercutiu nas redações, que se preparam para combater esse tipo de arapuca. “O caso recente envolvendo o Project Veritas e o The Washington Post acende um alerta em todas as redações: os cuidados nos processos de apuração, de investigação e de checagem devem ser redobrados”, diz Marta Gleich, diretora de redação do jornal Zero Hora.

“Nunca foi tão necessário para o público o jornalismo profissional, que consegue distinguir a notícia falsa, plantada, inventada, da verdade. Nunca foi tão importante, em um cenário de fake news, a existência de redações com jornalistas experientes e bem treinados”, destaca Marta. “As eleições de 2018 no Brasil serão um teste importante neste sentido”, prevê.

Não será mesmo prova fácil. As notícias falsas, relata o jornal O Globo, têm potencial para se tornar, no período eleitoral do ano que vem, uma arma mais poderosa do que os dossiês contra políticos que sempre fizeram parte das disputas eleitorais brasileiras. Diante desse risco, informa O Globo, a Justiça Eleitoral e empresas de tecnologia como Facebook, Google e Twitter passaram a adotar medidas para tentar reduzir os danos que os sites de notícias falsas e informações distorcidas podem provocar na disputa. O resultado dessas iniciativas, entretanto, até agora está longo do esperado e do necessário.

Enquanto a Justiça Eleitoral pretende acionar até mesmo o Centro de Defesa Cibernética do Exército para monitorar os sites de fake news, Facebook e Google têm usado a tecnologia para tornar seus algoritmos mais resistentes a eles. O Twitter, por sua vez, tem uma política um pouco menos incisiva em relação ao tema.

Duzentos posts falsos por dia

Um levantamento feito pelo Núcleo de Jornalismo de Dados do jornal O Globo com base em informações da plataforma Crowdtangle, ferramenta certificada pelo Facebook para medir a audiência de suas páginas, mostra que 11 perfis na rede social, atrelados a sites que distribuem notícias falsas ou distorcidas sobre política e não têm qualquer indicação do responsável pelo seu conteúdo, publicam, em média, mais de 200 posts por dia. As postagens dessas páginas são compartilhadas milhões de vezes no Facebook.

O jornal O Globo utilizou como referência para selecionar as páginas analisadas uma lista divulgada no início do ano pela Associação dos Especialistas em Políticas Públicas de São Paulo (AEPPSP), que identificou os maiores sites de notícias do país que disseminam informações falsas, não-checadas ou boatos pela internet, usando uma base de dados do Monitor do Debate Político no Meio Digital, criado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Quase todos esses sites estão registrados fora do Brasil e contrataram serviços para esconder a identidade de seus reais proprietários, segundo levantamento a pedido do GLOBO feito pela BigData, empresa especializada em colher e analisar informações na internet.

Os limites da regulação

Uma tentativa de regulação, por exemplo, relata O Globo, pode esbarrar no cerceamento da liberdade que caracteriza a internet, o que pode gerar para as próprias redes sociais, como o Facebook, Twitter e Google, problemas com seus usuários, diz o professor de Comunicação Política da Puc-Rio Arthur Ituassu. 

“Na web você tem uma capacidade grande de usar laranjas, perfis espalhados fora do país. De repente você descobre que a origem do conteúdo falso está em um IP na Islândia e aí? Vai fazer o que com isso?” Para o pesquisador, os riscos da disseminação de fake news são ainda maiores no aplicativo WhatsApp, em que há sigilo das comunicações dos usuários e não é possível monitorar o que é compartilhado, inclusive pela Justiça.

O professor de Direito da Uerj Rodrigo Brandão lembra que a Constituição prevê a liberdade de expressão, mas também a veda o anonimato, com o objetivo de permitir a responsabilização futura, quando há lesão à honra. Ainda assim, na sua avaliação, não há regulamentação clara sobre se a vedação do anonimato obrigaria um site ou não a identificar seus autores. “O marco civil permite que se chegue nas pessoas através do endereço de IP, data e hora de publicação, já está previsto o rastreamento e instrumentos para se chegar no responsável, mas em matéria eleitoral, para esses sites, seria benéfica uma regulação, que poderia ser feita por resolução do TSE, por exemplo, que tornasse uma exigência para blogs e sites políticos a identificação de quem é a pessoa física e jurídica por trás deles — argumenta Brandão.

Ataques cibernéticos

Os ataques à imprensa também vêm em formato cibernético. Nesta semana, o vírus ransomware afetou a operação diária do servidor da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) em Miami. "Ainda estamos avaliando o dano e como recuperar toda nossa informação e arquivos que datam desde há mais de 60 anos”, disse o presidente da SIP, Gustavo Mohme. Os hackers solicitaram um resgate em bitcoin para liberar a informação sequestrada eletronicamente. A SIP, entretanto, optou por denunciar o caso ao Federal Bureau of Investigation (FBI).

O ex-presidente da SIP, Matthew Sanders, recordou que há poucas semanas o tema foi debatido na assembleia anual da entidade. "Os ciberataques contra meios de informação estão se intensificando e são cada vez mais comuns. Às vezes, com a intenção de cortar as liberdades de expressão e de imprensa e afetar o trabalho jornalístico. Outras vezes por motivações econômicas", disse Sanders.

Leia mais em:

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/11/1938855-washington-post-foi-abordado-com-noticia-falsa-de-candidato-republicano.shtml

https://www.washingtonpost.com/opinions/james-okeefe-shows-what-real-fake-news-is/2017/11/28/788f47fc-d482-11e7-a986-d0a9770d9a3e_story.html?utm_term=.e7f7cfcd45c4

https://www.theguardian.com/world/2017/nov/28/project-veritas-protesters-trial-trump-inauguration-protest?utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=GU+Today+USA+-+Collections+2017&utm_term=254536&subid=21718551&CMP=GT_US_collection

HTTPS://WWW.FASTCOMPANY.COM/40501064/WHY-IS-PROJECT-VERITAS-A-TAX-EXEMPT-NONPROFIT-ANYWAY

https://www.vanityfair.com/news/2017/11/project-veritas-washington-post-video-reaction?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=59b8f7cfd0-

EMAIL_CAMPAIGN_2017_11_29&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-59b8f7cfd0-399348769

HTTPS://WWW.THEATLANTIC.COM/POLITICS/ARCHIVE/2017/11/JAMES-OKEEFE/546869/

http://www.sipiapa.org/notas/1211953-hackean-servidor-la-sip

https://brasil.elpais.com/brasil/2017/11/29/internacional/1511913211_909804.html

https://politica.elpais.com/politica/2017/11/30/actualidad/1512066298_815549.html

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