Fabiana Moraes: "É difícil denunciar; fazer reportagem é caro" Rodrigo Lôbo/O Povo

Fabiana Moraes: "É difícil denunciar; fazer reportagem é caro"

Com sotaque pernambucano, a jornalista Fabiana Moraes diz sobre um jornalismo universal. Nesta entrevista, realizada por telefone, ela conversa sobre conceitos e vivências, criando pontes entre fronteiras. Objetividade e subjetividade, por exemplo, são faces de um mesmo jornalismo que se (re)aprende e se amplia com o tempo. “A gente fala muito numa transmutação do jornalismo, por conta das novas mídias, das novas tecnologias; e elas alteram forma, produção... Mas isso não joga fora o que a gente tinha antes”, revisa. Para Fabiana, “é um conteúdo rico, honesto, inovador também” que faz a diferença entre tantos meios de comunicar. Dizer e mostrar coexistem mais do que nunca, em uma época onde o jornalismo pode ser todas as mudanças, sem perder a essência.

O POVO - O que é notícia hoje? Ainda é “o homem que morde o cachorro”?

Fabiana Moraes – (risos) Na verdade, existem várias definições de notícia. O homem morder o cachorro e o cachorro morder o homem, ambas, para mim, podem ser notícia, dependendo de quem está mordendo, como está mordendo, onde está mordendo (risos). Mas, a gente fala muito numa transmutação do jornalismo, muito por conta das novas mídias, das novas tecnologias e, sim, claro que elas alteram forma, produção... Mas eu acho que isso não joga fora o que a gente tinha antes. Então, a hard news, na verdade, tem um espaço mais privilegiado hoje, na medida em que você pode noticiar muito mais rápido. Um acidente, um impeachment, quando acaba de sair uma decisão, a hard news em si, propriamente falando, ganhou muito mais espaço hoje. E ela não é mais domínio de nenhuma pessoa específica, da figura do jornalista. As notícias passaram a ser compartilhadas por muitos. Muitos, hoje, têm a potência de divulgá-las, de fazer elas se espraiarem.

OP – E também de produzi-las, e a gente corre o risco das notícias falsas nesse maior espaço e maior produção...

Fabiana – É verdade. A gente, realmente, vem enfrentando essa questão do fakenews. É interessante pensar nisso, eu estava conversando com um pesquisador a respeito disso e é como se a fakenews fosse algo que não fosse do campo do jornalismo. E o jornalismo também já produziu e produz muita fakenews. Não é um fenômeno também, necessariamente, tão novo. A gente, na verdade, tá democratizando mais a produção da fakenews, de certa maneira. Pensar, por exemplo, no fakenews de uma maneira mais ampla, a gente tem a mescla de jornalismo com entretenimento há bastante tempo. Na verdade, com publicidade, a linguagem publicitária muito entremeada no jornalismo. Então, várias matérias que, na verdade, são peças de divulgação. Pra divulgar desde partidos políticos a ações governamentais, a faqueiros na revista Caras, a gente tem essa contaminação do jornalismo pela publicidade há muito tempo, mas isso nunca foi percebido como uma fakenews. É como se a fakenews fosse algo muito novo e produzido só por não especialistas na notícia. Quando, na verdade, a gente tem essa questão dentro do jornalismo. Eu não posso chamá-las, de saída, apenas de fakenews; tem gente que chama de info-entretenimento. Mas, se a gente parar para pensar, na verdade, o jornalismo possui esse tipo de fenômeno há bastante tempo.

OP - Qual o poder transformador que a imprensa ainda tem? Hoje é imprensa é muito questionada, mais do que questionadora, talvez...

Fabiana – Verdade. Eu acho que a potência do que o jornalismo pode fazer não se apaga por conta da derrocada de um modelo, sabe? É claro que ela está numa transmutação muito forte e não é fácil manter esses coletivos, essas iniciativas que aparecem dessa potência continuar, da reportagem continuar, da investigação continuar sem uma contaminação das Redações. Das Redações que encolheram e colocaram tantos profissionais incríveis na rua. É difícil denunciar, não é fácil fazer jornalismo, fazer reportagem é caro, não é barato. E as pessoas esquecem disso. Muitas vezes, quem está apontando o dedo não sabe como é difícil você trazer uma boa reportagem, uma boa apuração. É caro. Você está produzindo um minidocumentário todas as vezes. E, ao mesmo tempo, as pessoas cobram, querem esse jornalismo, criticam muito a mídia, mas não apoiam essas iniciativas, muitas vezes. Não leem, não entram naquelas vaquinhas virtuais de patrocinar essa ou aquela reportagem... E, mesmo assim, dentro dos espaços que se chama de grande mídia, da grande imprensa, ainda tem gente fazendo muita coisa boa, fazendo coisas que respondem essa tua pergunta. Que é necessária essa produção, essa produção é essencial pra trazer visibilidade pra questões que não é o governo que vai te dar, não é nenhuma empresa que vai te dar. Só uma investigação de pessoas que estão, de fato, comprometidas com o estranhamento - não vou dizer de verdades porque não existe uma verdade única -, em pensar notícias, reportagens, pensar na questão da informação na sua integralidade. Eu acho que isso, na verdade, está sendo mais necessário do que nunca.

OP - Nós estamos produzindo em um contexto singular: em meio a crises cíclicas da pauta, sob o fogo cruzado das notícias falsas e seguindo a agenda política nacional. Como o jornalismo pode sair desse furacão, mais fortalecido ou não?

Fabiana – Você fala de coberturas políticas?

OP – De tudo isso, estamos no olho do furacão: de coberturas políticas questionáveis, da crise eterna da pauta e sob esse fogo cruzado das notícias falsas. Estamos produzindo dentro disso, um jornalismo que muitos ainda acreditam. Como o jornalismo pode sair desse furacão, mais fortalecido ou não?

Fabiana – Eu acho que mais fortalecido, mas também se tomar uma decisão que, me parece, vários jornais não estão tomando, de manutenção da qualidade. De comprometimento, de fato, com a qualidade do conteúdo. É o conteúdo que vai fazer a diferença, eu não tenho a menor dúvida disso, sabe? É um conteúdo rico, bem apurado, honesto, inovador também. Porque inovador não é mandar o repórter pra lua, não. Mas é de trazer uma abordagem que não seja carregada de tantas muletas que a gente sempre usou. Denuncismos, coberturas egoicas que, na verdade, trazem mais capital para o jornalista ou a jornalista do que para as pessoas que estão sendo trazidas. Acho também que produções coletivas, falando assim do egoísmo, de abordagens muito egoicas, da gente ter mesmo comprado essa figura do jornalista muito herói, isso é muito ruim porque criou-se uma cultura do trabalhar sozinho que, às vezes, não é interessante. Eu acho que, hoje, é menos interessante ainda. Trabalhos coletivos também são importantes pra essa sobrevivência. E, sinceramente, eu acho que mais do que suportes moderninhos, aplicativos, boas reportagens – quando eu falo boas é no sentido de reportagens, como eu falei antes, que não se apoiem nessas muletas de “ah, vou falar de questões raciais” e, aí, você trazer negros vitimizados, sabe? Porque, aí, é o jornalista quem tá salvando. Então, esse tipo de cobertura, de relação, eu acho que não. Ela não é mais interessante pra ninguém e eu acho que as pessoas desejam ver abordagens mais honestas sobre o mundo.

OP - Existe uma base na qual o jornalismo se firma: uma boa história contada em um bom texto. Desde que o jornalismo é jornalismo é assim. Como trazer essa basepara os tempos atuais? O que tem sido o novo, na prática jornalística, para que se possa manter o consumidor: o suporte, o meio da comunicação ou a própria estética, revisitada?

Fabiana – Agora, a gente não pode mais abrir mão dessa dimensão estética. Na verdade, a dimensão estética também é algo que sempre esteve presente no jornalismo. Se a gente pensar no jornalismo literário, tem uma dimensão estética no sentido da construção do texto. E, aí, pensando em novas tecnologias e tudo isso, você não pode abrir mão do design, por exemplo. É fundamental e eu acho bom, sabe? Eu acho que esse conteúdo precisa ser mostrado, agora, de diversas maneiras e em diversas plataformas. Ele precisa está muito bem apresentado, ele precisa de uma forma muito interessante pra mostrar um bom conteúdo. Não adianta ter uma puta reportagem, um puta material, que não seja oferecido de uma maneira interessante porque a quantidade de informação é imensa e, pra furar esses bloqueios, você precisa, de fato, captar as pessoas, tocar em algo das pessoas pra trazer. E, aí, também se o texto for ruim não adianta a maquiagem, uma bela maquiagem, uma bela produção... quando eu falo maquiagem, não é nem uma coisa justa, não é um termo justo. Fazer um trabalho de design, um trabalho que agregue, que colabore com a dimensão informativa, não é fácil. Eu fui pra Abraji agora e encontrei um dos coordenadores de um portal, agora tá fugindo o nome, que eles se vendem como entendendo as notícias, explicando as notícias. E uma coisa que eu vi na apresentação tinha muito a ver com isso, como as notícias eram trazidas. Eu lembro que tinha uma entrevista com o Obama, muito legal, é um pessoal que era da equipe do Washington Post e fundou esse outro coletivo. E, enquanto o Obama falava, os números sobre os quais ele falava eram trazidos, na tela, com outras informações também, que agregavam mais outras informações para além do que ele estava falando. As reportagens mesclam muito a questão do jornalismo de dados com um texto potente também. Então, eu acho que é a coexistência, agora, desse material, do desenho, do design, do vídeo, da letra. É a coexistência disso tudo que vai guiar a gente. Agora, insisto em dizer: uma apuração e um texto bem escritos, numa pauta que tem um recorte interessante, potente, ela prevalece. Não há uma escapatória pra isso. As pessoas podem até ficar seduzidas, no início, com uma boa forma, mas se essa forma não trouxer também um conteúdo interessante, tu vai morrer na forma. Muitas vezes, inclusive, com um conteúdo interessante morre na praia. Alguns projetos que vi, por exemplo, estão se refazendo agora. Como o Brio, reportagem em profundidade, estão se refazendo, se repensando porque não é fácil, de fato, que as pessoas parem para ler uma reportagem que vai durar 20 minutos no dia, uma série. É difícil. A gente está pensando em concorrências de suporte, mas mais difícil é pensar como se capta leitores, sabe?

OP - Onde deve estar o jornalismo em um futuro próximo: no documentário, na coluna da Internet, no blog, no impresso, na TV?

Fabiana – Eu acho que em todos esses lugares que você traz... eu acho que a televisão tem ganhado um impulso ainda maior, embora as pessoas digam “ah, a televisão...”, mas a televisão está no computador. Então, o conteúdo de uma Fátima Bernardes, de um Canal Brasil, isso tudo também está na Internet. Os conteúdos televisivos estão na Internet. O suporte muda, mas a gente está vendo o mesmo conteúdo, muitas vezes. Isso, na verdade, está mais espraiado, de certa maneira. Até escrevi sobre isso hoje, pensando um pouco sobre alguns jornalistas que eu conheço e que não exerceram o jornalismo hard, digamos assim, e são artistas. Então, o jornalismo pode adentrar espaços vários, né? Hoje, eu vejo jornalismo numa galeria de arte. Então, eu lembro que, ano passado, eu vi uma exposição grande, patrocinada, inclusive, pela Piauí, que levou um fotógrafo pra Mariana, pra fazer a cobertura do desastre ambiental. E essas fotografias e os textos estavam postos numa galeria. Então, essa é uma dimensão que, pra gente, dá até um tiute pensar nisso. Mas, talvez, a gente tenha meio que subestimado, como profissional, sabe? Eu acho que, por exemplo, jornalistas não se veem escrevendo roteiros e a gente está escrevendo roteiro, de certa maneira, toda hora (risos). A gente tá o tempo todo na rua, a gente tá pegando histórias, então, a gente tem uma tremenda potência pra documental, pro roteiro, pra uma galeria... mas são atividades que a gente acha que não é pra gente, digamos assim.

OP – E, no meio dessa crise existencial, nossa e das Redações, a gente ainda se pergunta muito, atualmente, pra que e a quem a serve o jornalismo. Nós mesmos, jornalistas, estamos meio perdidos diante das possibilidades...

Fabiana – Exatamente. Não é, realmente, um período fácil. Porque, além de você ter um encolhimento de Redações, e uma coisa tá relacionada a outra, você tem uma debandada de leitores enorme. Não é assim: “é porque tem que tá na Internet que as pessoas vão ler”. Não vão, muitas vezes. Falo isso por experiência própria. Uma vez, fiz uma reportagem, acho que foi no final de 2012, sobre várias mulheres assassinadas e todas elas tinham o nome da mãe de Jesus, Maria. E, aí, eu me lembro, numa primeira semana, deu um boom, que tinha um hotsite só pra isso – hotsite é um termo vintage, eu acho (risos). E, aí, eu me lembro que a gente ficou bem feliz porque tinha 45 mil visitantes únicos em muito pouco tempo.Só que, ao mesmo tempo, a duração da leitura de cada matéria era de um a dois minutos, o que era impossível. Então, eu podia jogar, dizendo: teve muito acesso... mas o tempo de leitura é fundamental. Pra mim, que escrevi, eu queria que as pessoas lessem (risos). E eu fiquei pensando nisso. E é engraçado porque eu posso bater no peito e dizer: nossa, bombou, foi incrível. Mas, ao mesmo tempo, pra o que ele foi feito não estava, de fato, contemplado. Que é a leitura.

OP – O número de “likes” não quer dizer muita coisa para o jornalismo...

Fabiana – Não, de forma alguma. Na verdade, não. Agora, há poucos meses, eu publiquei uma matéria, que eu tinha feito para o jornal, não tinha saído no jornal; na época, eu saí do jornal e essa matéria não tinha sido publicada. Sobre uma mulher trans daqui, que ficou encarcerada, durante muito tempo, com dezenas de homens. Eu pedi autorização, o jornal ok, e eu publiquei essa matéria no meu Facebook. E essa matéria foi republicada em um monte de blogs. Eu nem pedi. Eles republicaram com o meu nome, foi ótimo. Foi republicada em um monte de blog e compartilhada mais de mil vezes. É engraçado isso porque, ao mesmo tempo, era um tipo de visibilidade de um texto que fazia tempo que eu não tinha. E eu publiquei na minha página. Eu não tenho um estouro de seguidores, eu tenho uns dois mil e pouco. Então, eu nem sei pra quem apareceu aquilo. Sei que foi bem legal como essa informação rodou, sabe? Mas é isso. Eu acho que é um momento de perplexidade mesmo e, ao mesmo tempo, de percepção de que qualidade é o leme da história.

OP – Dentro desse momento de perplexidade, de parar um pouco para perceber e refletir, temos também questões da ética atual. Para você, até onde pode ir uma pergunta? Você que trabalha com tantos humanos, mergulhando na vida de tanta gente?

Fabiana –Acho que a dimensão ética não muda porque os suportes mudam, sabe? A dimensão ética é o esteio. Essa questão do que perguntar e até onde perguntar depende dos atores em questão. É obrigatório, sim, que a gente faça perguntas desconfortáveis a setores do poder, privado ou público. Alguém já disse isso: jornalismo não é Rivotril, jornalismo não é pra deixar ninguém calminho, não. E, ao mesmo tempo, acho que a gente deve ter cuidado redobrado ao fazer perguntas pra pessoas e pra grupos que estão em situação de maior vulnerabilidade e que, muitas vezes, não têm um filtro na fala com o jornalista e se expõe demais. E, às vezes, a gente acaba se utilizando dessa boa fé das pessoas. E, aí, eu acho que a gente tem que se autocensurar. É uma palavra que a gente odeia, mas eu acho que a gente tem que se autocensurar mesmo em relação, às vezes, à exposição de algumas pessoas, sabe? Elas se expõem pra gente. Alguém diz, ah, mas ela é adulta e se expôs, disse tal coisa, e a gente vai e publica. Não é assim que funciona. Porque a gente sabe que o jogo tá sendo jogado. Então, que pergunta é e até onde perguntar vai depender dessas pessoas, para quem está perguntando, e como é que isso vai ser utilizado. Que tipo de fissura ou não você está querendo causar com essa pergunta e com o questionamento específico. E não tem uma fórmula pra isso.

OP - A reportagem sobre o nascimento de Joicy, que é um marco em sua carreira, fez você ultrapassar o distanciamento entre entrevistador e entrevistado, imposto pela objetividade jornalística. Até onde você ia (ou vai), nas profundezas da sua apuração – humana, principalmente -, e como fez (faz) para voltar todas as vezes?

Fabiana – (risos) (pausa) Eu sou ruim pra responder pergunta difícil, Ana (risos). A princípio, quando a gente começa uma reportagem, uma investigação, a gente não sabe muito para onde ela vai. A gente vai, vai, quando vê, a gente tá com água no pescoço. Eeu nunca achei justo ou interessante manter minha cabeça fora d´água enquanto a pessoa que eu estou tratando tá dentro da água, totalmente. E, por mais que eu também faça essa submersão, que eu entre, eu entendo que é sempre uma relação assimétrica. Talvez, eu consiga com mais sucesso e, às vezes, com muito pouco sucesso, consiga chegar porque eu procuro estabelecer uma certa horizontalidade dentro dessa relação assimétrica. E uma coisa que eu acabo trazendo, pensando em Joicy e pensando em outros personagens, outras pessoas, é que é preciso também você se despir de certos moralismos. Se despir, não, porque, às vezes, eu acho que é muito difícil. Você tem que deixar ele meio que numa geladeirinha lá, pra conseguir dar conta de algumas coisas. E, aí, quando você volta de tudo isso, às vezes, essas questões morais voltam transformadas, voltam, às vezes, mais fortes também. Eu estou falando contigo e me lembrando muito de Carol, que é uma mulher que estava presente na reportagem Casa Grande e Senzala. E eu me lembro muito dela grávida me pedindo dinheiro pra comprar cigarro. A barriga grande. E aquilo me detonava. E quando eu dizia, Carol, não vou te dar cigarro, ela ficava puta. E eu percebi que não adiantava eu dizer: Carol, não fuma. Ela ia fumar. Ela ia pedir a outra pessoa na esquina, sabe? Mas, ao mesmo tempo, eu ficava, vamos comer alguma coisa e, depois, tu fuma, vamos comprar milho, vamos comprar alguma coisa. Eu queria ter ela por perto, óbvio, queria escutá-la, queria conversar... Estava no processo de construção de uma matéria que eu queria trazer muito esse cotidiano das meninas, queria muito trazer, principalmente, pensando numa perspectiva de uma continuidade, de uma relação de poder que fere, mutila, continuamente, historicamente, mulheres negras. Era importante, pra mim, escrever sobre isso, escrever sobre sexo, inclusive. E eu queria Carol por perto. E, aí, era muito difícil, às vezes. Eu voltava pra casa muito ruim mesmo. Quando falo isso, se eu repito isso, como foi difícil, acabo sendo a protagonista da história dos outros. E não sou a protagonista da história. A protagonista são as meninas, é a história das meninas. Então, eu acho que vai ter que segurar a onda mesmo. Claro, você tem que procurar apoio, tem que procurar falar com seus pares, com a sua família. Mas não dá pra você dizer: olha, passei por isso quando fiz aquela matéria... a matéria não era sobre você. A não ser que aconteçam coisas que acabem lhe colocando como também no olho da história. Escrevi sobre Joicy, no livro, mas era um pós-reportagem: minha experiência em si não estava na reportagem. O pós-reportagem é que é uma análise dessas dimensões éticas, morais, de limites. Mas eu não ia trazer isso na reportagem, ficar falando como foi difícil. E eu vejo muito jornalista fazendo isso. Acho muito complicado, sabe? Isso sempre me incomodou. Você acaba capitalizando com o sofrimento dos outros.

OP - Qual é o seu ponto de partida para uma reportagem?

Fabiana – (pausa) Uma coisa que talvez una, de uma maneira conceitual, todas elas seja uma necessidade muito grande de provocar, de questionar, de restabelecer uma perspectiva nova de assuntos e temáticas que já foram muito trabalhados midiaticamente, especificamente, no jornalismo. E que eu vi sendo trabalhados, durante todo esse tempo, de uma maneira que engessa as pessoas que estavam sendo trazidas nas histórias, sabe? E que terminam, pra mim, não trazendo nenhum tipo de ganho pras pessoas que estão ali. Quando falo de ganho, são ganhos simbólicos, não ganhos materiais. Mas, sinceramente, eu não queria fazer, eu ia me sentir muito mal se eu fosse fazer uma matéria sobre racismo e trazer negros sofredores. Nessas matérias todas, uma coisa que eu sempre tentei trazer, às vezes, não consegui, às vezes, foi desastroso, mas também trazer a perspectiva de que as pessoas que estão ali, na matéria, têm agência própria, de que também elas falam por si, que elas têm vida, sonho, conforto. E, nesse sentido, mostrar que as pessoas não são diferentes da gente. Mostrar que uma mulher como Joicy, uma menina como Carol não têm vontades tão diferentes da nossa. Elas querem amor, querem uma casa, não querem passar a vida na solidão. Se pudesse usar uma palavra, não sei se vou saber pronunciar, mas é desexotizar, não sei nem se essa palavra existe, mas é não mostrar as pessoas da perspectiva do exótico mesmo. Eu acho que isso era o intuito de vários textos que eu escrevi e venho escrevendo.

OP - Por que você saiu de uma grande Redação quando, inclusive, já havia alcançado o desejado posto de repórter especial?

Fabiana – (pausa) Porque eu acho que estava no momento de compartilhar essas coisas que foram sendo aprendidas. Estava no momento de me voltar para algo que eu sempre gostei muito de fazer, que está impresso nas reportagens, que é a pesquisa. E acho que escrever a partir de outros lugares também, sabe? Claro que eu saí porque fiz um concurso, fui chamada, era uma coisa que eu queria fazer, um concurso de comunicação, que tem a ver com toda a minha história. Claro que não é uma saída fácil. Eu sinto falta, muitas vezes, de escrever. Mas eu acho que o próprio modelo de reportagem que eu estava fazendo, não sei se ele era interessante ainda pra o caminho que a Redação estava tomando. Eu acho que não. Tinha acabado de acontecer uma série de demissões, um dia antes d´eu sair e eu continuava no jornal. Mas, ao mesmo tempo, eu não achava mais que era uma plataforma que fosse interessante pra mim. Eu estava há 20 anos ali, eu precisava escrever a partir de outros lugares. Claro, com a visibilidade muito menor que o jornal vai me dar, mas, ao mesmo tempo, com um capital, uma rede muito legal de jornalistas do País inteiro, de leitor de muito canto, isso é muito importante, né? Às vezes, penso em sair de uma plataforma como o Facebook, mas, ao mesmo tempo, ainda tenho uma interação muito forte, muito potente com muita gente que foi aparecendo ao longo desses anos todos. E, aí, não sinto uma falta porque todas essas pessoas e as questões continuam presentes. As pessoas me procuram muito: olha tá acontecendo isso e aquilo... Sua referência como jornalista é pra vida toda, sabe?

OP – O que lhe faria voltar pra uma Redação de jornal?

Fabiana – (pausa) É uma boa condição de fazer uma reportagem importante, boa. Mas não acho que tem que ser na Redação do jornal, não, sabe, Ana? Agora mesmo, tem uns três quatro editais abertos pra reportagens, de fundações diferentes, direitos humanos, as pessoas produzirem suas reportagens, isso tá aí. E, de certa maneira, seria mais honesto com o que eu estou fazendo hoje, com o tipo de coisas que eu quero abordar hoje. Não sei se esses assuntos são interessantes pros jornais. Porque os jornais estão enlouquecidos com essa questão de perda de leitor e eu não sei se daria match (risos), atualmente, mais. Mas não preciso, de fato, estar na Redação. Quero fazer umas coisas... Tenho que organizar muita coisa ainda que a academia te obriga, de produção de texto acadêmico, de estar em congresso... E eu tenho produzido textos de que tenho gostado muito. Os textos acadêmicos, pra mim, são importantes. Mas, assim, de me organizar pra fazer uma reportagem por ano. Tenho pensado nisso. Escrevi, um dia desses, um texto sobre uma experiência que tive em São Paulo, numa mesa, muito legal ter um texto mais longo. E teve um compartilhamento grande, uma discussão grande em cima dele. E fiquei pensando: certamente, sou uma pessoa melhor quando escrevo (risos). Eu não posso abrir mão disso.

OP – O que o jornalismo, até agora, fez por você? Como você se modificou sendo repórter?

Fabiana – Me modificou?

OP – Sim. Você disse que se torna melhor quando escreve...

Fabiana – É. Sou melhor quando escrevo porque é o tempo que eu paro pra exercer uma necessária reflexão. A gente tem vivido um momento de correria muito grande, né? A gente está, o tempo todo, tendo que dar respostas rápidas, tendo uma performance alta. A gente é analisado como máquina mesmo, como se mede performance de máquina. E o fato de, durante anos, ter perseguido uma carreira acadêmica, simultaneamente, a uma carreira profissional, me fez correr muito e não ter tempo pra muita coisa. Acordar muito cedo pra estudar e, depois, ir pro jornal e voltar a estudar, e ter seminário, e entregar uma dissertação, depois, uma tese, e está no jornal com matéria especial. E tinha toda uma expectativa em cima de você. Todo repórter especial deve sentir isso, de ser olhado como uma espécie de galinha dos ovos de ouro (risos). “Quero prêmios!” e, se você não traz prêmios, “ah, não gosto mais de você” (risos). E você não tem a obrigação de trazer prêmio, todo ano, pro jornal, pô! Não é assim, né? Não é fácil assim, não. E, nessa coisa da correria, muitas vezes, eu me viasem tempo pra exercer uma reflexividade. E a escrita traz isso, sabe? Você passar um tempo fazendo uma pesquisa, se sentar pra escrever, refletir sobre o que está escrevendo, voltar a pesquisar outra coisa, trazer aquilo para o texto de novo, isso lhe constrói também, né? Constrói uma linha sua, lhe mobiliza de outros lugares que não é esse lugar da resposta rápida, essa tensão, essa ansiedade. Eu acho preocupante, como Sílvia Moretti, que sempre cito, quando ela fala que jornalista vive dizendo: ah, não tenho tempo pra pensar. Putz! A gente tem que ter tempo pra pensar. Pensar não é luxo, não. A gente está falando da vida das pessoas, são questões do cotidiano das pessoas, quem é que vai refletir sobre isso se não é a gente, enquanto estou escrevendo e publicando essas coisas?

PERGUNTA DO LEITOR

LEITOR - Quando um mundo que, aparentemente, não cabe mais no jornal irrompe da cena em narrativas que comportam o sensível e o subjetivo, esse parece ser o momento em que o jornalismo ainda nos convida a pensar o outro. Que lugar a objetividade ocupa nesse outro modo de narrar? E por que falar em subjetividade soa quase como um pecado no jornalismo?

Fabiana –Não são coisas em separado, subjetivo e objetivo. É um bolo só, tem uma espécie de Yin-Yang. Quando vou falar de uma personagem como Joicy, tem questões objetivas pra narrar a vida de Joicy que é, por exemplo, qual o discurso médico em relação ao corpo de Joicy, o código científico em relação ao corpo de Joicy, qual é a sustentação social – Previdência, que cabe a pessoas como Joicy, como é que o âmbito jurídico trata pessoas transexuais no Brasil em relação à questão do nome social... Isso tudo são questões objetivas que estão aí, postas. Dentro disso, elas estão entremeadas em questões do dia a dia, do cotidiano de Joicy, da subjetividade de Joicy. Por exemplo, me lembrei de uma travesti, Cláudia, que estava em uma sala de espera do médico e estava paquerando um rapaz. E a atendente, ao invés de chamá-la pelo nome social, chamou pelo nome da identidade. E ela me disse: Fabiana, na mesma hora, ele parou de olhar pra mim. Então, essas duas questões estão postas aí. Tenho a questão objetiva da dificuldade das pessoas mudarem seu nome no documento porque um juiz pode aceitar uma coisa e outro pode aceitar outra. A cirurgia de readequação sexual é feita pelo SUS, mas as mudança dos nomes, dos documentos não é aceita. Não tem uma lei que ampare isso. O que existem são decisões específicas desse ou daquele juiz ou juíza. E, ao mesmo tempo, eu tenho a fala de Cláudia dizendo que aquilo tirou ela, novamente, do mercado amoroso, digamos assim. Estou exemplificando isso para dizer que não existe uma separação, o objetivo vai estar inserido no cotidiano da gente toda hora. Qual é a questão mais objetiva que nós, brasileiros, estamos passando agora? É essa panaceia política, brasileira, que afeta todos nós. Como ela afeta, aí, são várias narrativas. Mas a gente tem uma questão objetiva, hoje, em cima da gente, que é insegurança política enorme. Índices de desemprego terríveis e como é que esse desemprego, essa objetividade dos dados desse desemprego, vem perpassando a vida das pessoas. A gente não pode pensar em separado essas questões, se não, cria um falso problema.

OP – E por que a subjetividade é um pecado no jornalismo?

Fabiana – É uma bobagem. Na verdade, quando você traz o ruído subjetivo pra dentro do texto jornalístico, você tem um texto que se aproxima muito mais da veracidade do que quando você apaga tudo isso pra mostrar algo específico, objetivo. Eu nunca consegui entender muito essa cultura, nunca fez parte da minha prática, não.

PERFIL

A jornalista Fabiana Moraes, 42 anos, é professora adjunta da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE/Centro Acadêmico do Agreste), participando do Núcleo de Design e Comunicação. É também doutora em Sociologia (UFPE). Quatro de suas grandes reportagens, publicadas no Jornal do Commercio, tornaram-se livros: Os Sertões (Cepe, 2010), Nabuco em pretos e brancos (MassanganaFundaj, 2012), No país do racismo institucional (MPPE, 2013) e O Nascimento de Joicy (Arquipélago Editorial, 2015). Entre os prêmios do currículo, conta três Essos. Fabiana também integra a diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

 *Entrevista publicada em no jornal O Povo em 31/07/2017

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