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Jornalismo precisa promover mais mudanças para enfrentar ataques e manter relevância em meio à disrupção digital ROGÉRIO LORENZONI

Jornalismo precisa promover mais mudanças para enfrentar ataques e manter relevância em meio à disrupção digital

O segundo painel do seminário da Associação Nacional de Jornais (ANJ), realizado nesta quinta-feira (17) em São Paulo, abordou o impacto direto da desinformação no jornalismo. No debate, o diretor de redação de O Globo, Alan Gripp, enfatizou os riscos do uso da desinformação digital na tentativa de desqualificar o jornalismo profissional, em especial nos períodos eleitorais, o que contribui para desestabilizar os debates dentro das sociedades.

Gripp citou uma frente promovida por apoiadores do então candidato à presidência Jair Bolsonaro, em 2018, alegando, de forma fraudulenta, que uma foto na capa de O Globo era fake. Em apenas um dia, contou o jornalista, 323 pedidos de cancelamento de assinaturas do jornal. “Isso mostra o impacto que esse tipo ataque pode causar no nosso ofício e no nosso negócio”. O diário carioca conseguiu reverter parte dos pedidos de cancelamento, usando até mesmo o telemarketing para o desmentido.

Gripp destacou a importância de as organizações de notícias se empenharem em mostrar como funciona a indústria da desinformação, uma vez que é muito difícil combater as inverdades uma a uma.

A jornalista Dione Kuhn, coordenadora do Grupo de Investigação da RBS (GDI), destacou a relevante contribuição do jornalismo que impacta a sociedade ao promover investigações detalhadas e constante verificação de fatos. A equipe do GDI da RBS está atualmente envolvida e 80 novas investigações e seus trabalhos anteriores são ganhadores de inúmeros prêmios.

O trabalho do GDI cria mais empatia com o público, incentiva mais rigor nos processos de produção e distribuição, além de promover a cultura da integração dentro da redação. Os dados apurados pelo GDI muitas vezes levaram detentores de cargos públicos a admitir o uso de informações equivocadas e a rever seus discursos, com base na realidade apurada pela reportagem.

Ao comentar o maior perigo quando a desinformação vem de governantes, Dione alertou para uma hipótese ainda mais danosa: a manipulação de dados por governantes. Segundo ela, o acesso a dados confiáveis é uma das formas de revelar inverdades.

Os jornalistas também debateram sobre o desafio de conquistar mais leitores pagantes, via assinaturas digitais, receita fundamental para os publishers em uma época em que quase dois terços da publicidade digital são investidos em Google e Facebook.

O jornalista Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL assinalou que as organizações de notícias devem produzir conteúdos mais atraentes, em formatos de fácil entendimento e leitura simples, mas com alta qualidade e diversidade.

Sérgio Dávila, diretor de redação da Folha de S.Paulo reforçou o que disse Murilo e ainda sustentou que os jornalistas precisam romper com as bolhas em que vivem, evitando escrever para eles mesmos. “Precisamos ampliar nosso leque de assuntos e alcances para obter melhores resultados (nas receitas via assinaturas)”.

Ao comentar que, de fato, os jornalistas acabam reproduzindo um mesmo perfil, Dione Kuhn, da RBS, defendeu a pluralidade nas redações. “É fundamental para que novos temas possam surgir”, disse. A jornalista lembrou ainda que as redações precisam ir ainda mais a fundo na interpretação, por meio de dados existentes dos assinantes, sobre o que deseja o leitor. “Temos de saber interpretar os dados e, ainda, ter a sensibilidade de entender que aquilo que já foi notícia não é mais”.

O diretor de redação de O Globo, Alan Gripp, salientou que a credibilidade do jornalismo brasileiro ainda é alta quando comparada com mídias de outros países, mas que o jornalismo brasileiro ainda erra ao demonstrar certa acomodação, como quando se publica uma checagem de fatos, mas não se observa que ela não tem alcance de audiência. “Além disso, durante muito tempo reproduzimos discursos públicos sem muito espírito crítico”, afirmou. “Estamos no caminho, mas ainda temos muito a trilhar”.