Trump em desequilíbrio acelerado Luiz Arthur Leitão Vieira / O Globo

Trump em desequilíbrio acelerado

Quando o deputado democrata Ted Lieu, da Califórnia, apresentou seu projeto de lei propondo a incorporação de um psiquiatra à equipe médica que acompanha todo presidente dos Estados Unidos, parecia que o louco era ele. Ou, no mínimo, que era um temerário, pois Donald Trump, que acabara de tomar posse, já dera sinais abundantes de reagir mal a insinuações sobre seu equilíbrio emocional e capacidade de liderança.

Na verdade, a proposta do congressista de segundo mandato, em cujo gabinete está afixado o aviso “Zona livre de fatos alternativos”, tem fundamento, lógica e modernidade. Quase nove décadas atrás o Congresso americano aprovara a lei que instituiu a obrigatoriedade da presença de uma equipe médica na Casa Branca. William Harding, o presidente anterior à lei votada em 1928, morrera subitamente no exercício do poder, e cabia a dúvida se o desfecho teria sido outro se ele tivesse tido assistência permanente.

Lieu explica que a visão mundial de saúde mental na época do voto de 1928 não contemplava a necessidade de um psiquiatra ou psicólogo. Mas que no século XXI, graças aos recursos e conhecimentos adquiridos, a importância da saúde mental de qualquer ser humano — presidente ou não — corre junto com o seu bemestar físico. “A meu ver”, resumiu o parlamentar para a jornalista Amy Goodman, “a Casa Branca precisaria ter um psiquiatra ou um psicólogo à disposição o tempo todo… Quando você tem um presidente que mente patologicamente, e que acredita em fatos alternativos, penso que isso pode ser um problema”.

Visto que desde 2015 todo novo recruta das Forças Armadas dos Estados Unidos é obrigado a se submeter a um teste de saúde mental, o comandante em chefe dessa força militar — o presidente — poderia dar o exemplo. Até porque recai sobre ele a decisão final, se necessário, de disparar ou não quatro mil armas nucleares em questão de minutos contra um inimigo.

Quando termos como “distúrbio de personalidade narcisista” e “personalidade borderline” começaram a circular entre profissionais e leigos, o jornalista Lee Siegel analisou a cautela da mídia em especular sobre as raízes do comportamento errático de Trump. Siegel argumenta ser obrigação da imprensa tratar do tema, uma obrigação para com o público. “Um diagnóstico profissional nem sempre é necessário”, escreveu ele na Columbia Journalism Review. “Quando alguém mente de forma compulsiva, se contradiz sem parar, implora pelo apoio de pessoas ao mesmo tempo que as ataca, exalta alguém um dia e no dia seguinte o vilipendia, a questão do estado mental está colocada. Neste caso o mais seguro é não apenas manter distância do personagem, como mantê-lo longe de situações em que ele possa causar danos”.

Por vezes a linha de ação e pensamento de Trump é tão desconectada da realidade, que sequer serventia tem para a vala comum das mídias sociais. Um tuíte por ele postado de Hamburgo, por exemplo, enquanto se reunia com o Grupo dos 20, gerou pasmo:


“Aqui todo mundo está comentando o que levou John Podesta a entregar o servidor da campanha democrata ao FBI e à CIA. Vergonhoso!”, escreveu @TheRealDonaldTrump. Só que em Hamburgo nenhum dos líderes do G-20 tinha a menor ideia do que atazanava a mente do presidente.

No mês anterior, o constrangimento maior foi dos próprios americanos. Trump havia convocado a mídia para testemunhar (e transmitir) a primeira reunião de seu ministério na Casa Branca. Era o 143º dia de sua presidência e todos tomaram assento em torno de uma imensa mesa de jantar. Trump, entronizado no meio, abriu a sessão com delirante elogio a seu próprio desempenho. Em seguida, instruiu os demais para fazerem o mesmo: elogiar o novo ocupante da Casa Branca segundo a perspectiva de cada setor.

O primeiro a humilhar-se foi o chefe de gabinete, Reince Priebus:

“Em nome de toda a equipe de primeiro escalão, Sr. Presidente, agradecemos a oportunidade e a bênção recebida por poder servir à sua agenda e ao povo americano”, discursou, emocionado. “Continuamos a trabalhar diariamente para alcançar essas metas”. (Esta semana o mesmo Priebus foi chamado de “fucking esquizofrênico-paranóide” pelo novo diretor de Comunicação, Anthony Scaramucci, em entrevista para a revista “New Yorker”.)

Todos os convocados para a reunião ministerial se prestaram à aguardada genuflexão verbal ao chefe. “É uma honra poder servi-lo”, garantiu o procurador-geral, Jeff Sessions, que esta semana está sendo fritado grosseiramente pelo presidente… “É um privilégio estar aqui. Me sinto profundamente honrado”, arriscou o secretário do Trabalho… “O povo do Misssissippi adora o senhor”, atestou o secretário de Agricultura, à falta de algo mais imponente. É provável que em 228 anos de história presidencial dos Estados Unidos jamais foi registrado um espetáculo tão patético. E deprimente. Trump, que já se comparou a Franklin D. Roosevelt, a Lincoln e a George

Washington, saiu da reunião como um rei sol.

Em comparação, a desajeitada referencia à ausência de palmas feita por Michel Temer na cerimônia de comemoração da concessão de quatro aeroportos até soa simpática.

*Texto publicado originalmente no jornal O Globo de 30/07/2017. A premiada jornalista Dorrit Harazim é colunista do jornal do Rio de Janeiro.