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Contra fake news, é preciso estabelecer agenda que reinvente o jornalismo, diz especialista Reprodução

Contra fake news, é preciso estabelecer agenda que reinvente o jornalismo, diz especialista

O problema das notícias falsas potencializadas na web é global e, apesar de significativas reações para neutralizá-lo – em especial as que envolvem o jornalismo qualificado, principal arma contra as falsidades – vai se agravar. A projeção é de Charlie Beckett, jornalista, professor de mídia da London School of Economics and Political Science (LSE), da Universidade de Londres, e diretor da think-tank Polis. Para enfrentar o que está por vir, defende, é necessário estabelecer com urgência uma nova agenda do jornalismo contra as fake news, com base na verdade, na confiança e na tecnologia. Nessa mudança, afirma o especialista, é preciso do bom jornalismo, mas reinventado, de forma que faça parte das vidas emocionais e materiais dos cidadãos no meio online.

Beckett alerta que governos e outras agências de poder estão começando a implantar o conceito que move as notícias falsas e a propaganda política a favor de seus interesses de poder. “E [eles] têm recursos muito maiores do que aqueles que procuram produzir boa informação”, assinala. Ao mesmo tempo, diz, notícias falsas exploram com facilidade as novas tecnologias e canais, como aplicativos de mensagens, para se espalharem sem serem detectadas. Além disso, continua o jornalista, as falsas informações são uma “condição endêmica de nossas vidas cada vez mais mediadas e complexas”.

Por isso, Beckett avalia que não se trata apenas de erradicar a má informação. Mais importante do que isso, garante, é investir em novas e melhores maneiras de conectar as pessoas a informações confiáveis e a um debate mais saudável no futuro. No curto prazo, reconhece o especialista, há sinais positivos de reação e, diante dos males das mentiras, o público tem lembrado o quanto o jornalismo é valioso. Mas é preciso pensar à frente e agir rapidamente, enfatiza o jornalista e professor. É o que ele está fazendo ao liderar um comissão na LSE que, a partir de consulta a diferentes partes interessadas, publicará em breve um relatório com o objetivo de estabelecer a Agenda da Verdade, da Confiança e da Tecnologia. “Primeiro [o documento] informará sobre o cenário no Reino Unido, mas pretendemos que ele se torne um projeto internacional”, afirma.

O relatório será um compêndio de respostas a perguntas essenciais, sempre pensando no futuro, tais como as destacadas por Beckett em artigo publicado pelo site colaborativo Medium: Podemos ver o que é "falso", mas o que é verdade em um mundo de opiniões diversas e crescente subjetividade? Estamos realmente em um mundo pós-verdade ou é mais um mundo multi-verdade? O jornalismo é suficientemente bom para entender e explicar o que está acontecendo no nosso mundo complexo?

Beckett sugere que, talvez, o verdadeiro problema não sejam apenas as notícias falsas, mas a superabundância de informações e fontes. “Há uma maré crescente de fatos e opiniões que são trazidas constantemente e imediatamente para a vida das pessoas através de novas tecnologias móveis íntimas”, ressalta. “Então, em face disso, talvez não seja surpreendente que as pessoas dependam cada vez mais de respostas instintivas e emocionais ao consumo e ao compartilhamento de informações”, completa.

Confiança não é fé cega

É aí que está o verdadeiro desafio ao jornalismo, analisa Beckett. “Nós, nas mídias de notícias, nunca fomos tão confiáveis ​​quanto pensamos, e isso se deve em parte porque a mídia tradicional geralmente foi falível, tendenciosa e inexplicável assim como os comerciantes de ‘notícias falsas’ que gostamos de criticar”, adverte. O especialista diz que, para garantir confiabilidade ao jornalismo no futuro, é preciso, por exemplo, redefinir o conceito de confiança. “Não deve significar fé cega. A confiança não deve significar apenas que eu confio na fonte com a qual eu concordo. A confiança deve se tornar uma relação que compartilha o processo de compreensão, mais uma conversa do que uma palestra”, sugere, lembrando também que a confiança não é um dado. “Tem que ser ganha todos os dias”. 

O professor e jornalista frisa que, na construção de uma nova relação de confiança, transparência e interatividade são fundamentais. “Mostre suas fontes, admita o que você não conhece, encontre melhores especialistas, ouça seu público e aja com maior humildade e engajamento”, ensina Beckett. Para ele, as redações estão desconectadas da maior parte das realidades das pessoas e, assim, têm de ir mais longe para entender e refletir a diversidade que há atualmente.

O especialista reforça que os valores do jornalismo tradicional não podem ser abandonados, mas é necessário adaptá-lo ao mundo das redes sociais e das constantes novidades tecnológicas. “Precisamos pensar mais sobre as razões humanas e políticas, bem como tecnológicas, o motivo pelo qual a informação ruim é tão popular”, afirma. É necessário, destaca Beckett, usar os dados da audiência não apenas para perseguir o tráfego e fomentar cliques, mas como métrica para entender o que o público está interessado e, assim, atender os usuários pessoalmente, com conteúdo relevante, mas também estimulante e até desafiador.

Leia aqui o artigo na íntegra.

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