Verificadores de fatos driblam sistema fechado e criptografado do WhatsApp para contestar desinformação Reprodução

Verificadores de fatos driblam sistema fechado e criptografado do WhatsApp para contestar desinformação

A desinformação em massa por meio do WhatsApp causou gigantescos transtornos durante a campanha eleitoral de 2018 no Brasil, e muitos especialistas acreditam que o problema vai se repetir em 2020, quando os brasileiros vão escolher seus representantes municipais. Mas um estudo feito pelo Centro Tow para o Jornalismo Digital, da Universidade Columbia, revela que algumas das práticas das organizações de fact-checking no embate à enxurrada desinformativa verificada no aplicativo de mensagens do Facebook durante a última corrida eleitoral na Índia, entre 1º de março de 2019 e 16 de junho, podem ser replicadas no Brasil para minimizar o impacto das falsidades digitais no ano que vem.

Na Índia, os pesquisadores do Tow Center conseguiram driblar os obstáculos impostos pelas mensagens criptografadas, que limitam os estudos a grupos públicos e, com isso, deixa uma grande quantidade de informação inexplorada. Na prática, eles conseguiram se juntar a 1.400 grupos privados e puderam monitorar o fluxo de informações (1.000 gigabytes de dados e mais de 1 milhão de mensagens) trocadas pelos participantes.

Segundo os estudiosos, há duas maneiras pelas quais alguém pode se tornar parte de um grupo no WhatsApp: ser adicionado por um administrador ou ingressar por meio de link de convite. A pesquisa começou dando ênfase a busca de links de convites públicos, uma abordagem adotada por pesquisadores que realizaram pesquisas semelhantes no Brasil. Na Índia, os estudiosos aumentaram o leque de buscas procurando links de convite compartilhados no Twitter, Facebook e WhatsApp.

Os pesquisadores do Centro Tow uniram-se apenas aos grupos relevantes para o estudo, em que havia clara motivação política. No processo, iniciado com um único iPhone e um número de telefone adquirido nos Estados Unidos, os estudiosos identificaram-se como associados ao "Tow Center" e ingressaram em grupos como pelo menos 60 participantes, respeitando o design de segurança do WhatsApp.

O estudo descobriru que 35% do conjunto de dados coletados eram de mensagens encaminhadas, identificadas pelo WhatsApp como um vetor-chave da disseminação de informações erradas. Os pesquisadores também descobriram que os 10 itens mais compartilhados não se sobrepunham aos 10 itens mais encaminhados. 

Além disso, os links para organizações noticiosas eram raros: a versão em hindi da NDTV, por exemplo, recebeu o maior número de links; pouco mais de 700. Todos os outros veículos de notícias da Índia tinham menos de 300 links coletivamente. ”Isso significa que menos de 1% de todos os links compartilhados foram para as organizações de notícias”, diz o estudo. Em comparação, 65% dos links foram para o YouTube, rede social do Google criticada por recomendar vídeos de conteúdo errôneo.

Anonimato e campanha dirigida

Cada vez mais, a publicidade política está sendo distribuída em redes fechadas, como WhatsApp e Messenger (de propriedade do Facebook), Signal e Telegram, diz o estudo do Tow Center. Durante as eleições, continua o relatório, as redes fechadas fornecem um meio para campanhas políticas e ativistas evitarem o escrutínio de reguladores e repórteres. Daí a importância de pesquisa como a feita na Índia, onde mais de 400 milhões das 460 milhões de pessoas on-line estão no WhatsApp.

As vantagens de usar uma plataforma como o WhatsApp para campanhas são claras, destaca o estudo: não apenas permite que os estrategistas personalizem mensagens para vários grupos de interesse (semelhante ao que o Facebook permite com seus anúncios), mas também oferece anonimato aos remetentes. Como o WhatsApp identifica os usuários apenas pelos números de telefone, é fácil deturpar a identidade de um remetente para outras pessoas, especialmente em grandes grupos. O WhatsApp não tem como rastrear o conteúdo que está sendo compartilhado entre grupos privados, nem os membros do grupo podem verificar a origem de uma mensagem ou ter certeza sobre os motivos.

Dada a largura de banda móvel cada vez mais acessível e, portanto, onipresente, na Índia, as pessoas adotaram visuais coloridos (imagens e vídeos) em vez de textos sem graça, afirma o estudo. “As mensagens visuais tendem a ser mais memoráveis, recebem mais atenção e, como alguns estudos demonstraram, inspiram mais confiança entre os destinatários”. A pesquisa também indica que eles são compartilhados mais amplamente.

Sem o modelo usado pelo Tow Center na Índia, os verificadores que monitoram a desinformação no WhatsApp dependem da boa vontade dos seus leitores – aos quais os jornalistas solicitam o alerta sobre conteúdo duvidoso – e do rastreio da desinformação quando ela já está em grupos abertos das diferentes mídias interativas. No Brasil, o aplicativo de mensagens do Facebook tem mais 120 milhões de usuários em um país de 200 milhões de habitantes.

Leia mais em:

https://www.cjr.org/tow_center/india-whatsapp-analysis-election-security.php

https://www.niemanlab.org/2019/10/heres-how-researchers-got-inside-1400-private-whatsapp-groups/?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=8bfbfd7e5f-dailylabemail3&utm_medium=email&utm_term=4d68 -8bfbfd7e5f-386384393

https://www.poynter.org/fact-checking/2018/whatsapp-has-been-quiet-about-misinformation-in-brazil-so-fact-checkers-called-it-out-in-the-new-york-times/