Cresce a consciência de que o jornalismo é o principal antídoto a notícias falsas

O jornalismo produzido por veículos de comunicação de credibilidade reconhecida é o principal contraveneno à proliferação de notícias falsas na web e começa a ganhar terreno nessa guerra. Os primeiros resultados positivos ainda são tímidos, mas demonstram o acerto das diferentes frentes promovidas pelas sociedades democráticas com o objetivo de conscientizar e oportunizar instrumentos às audiências que facilitem a diferenciação entre verdade e mentira. Essas são algumas das principais análises feitas por jornalistas e especialistas nesta terça-feira (4) no fórum “O Papel da Mídia Brasileira na Era da Pós-Verdade”, promovido pela Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER).

“Pela primeira vez após anos, houve uma interrupção no processo de glamourização das redes sociais, e empresas como Google e Facebook passaram a dar explicação sobre o efeito colateral e não-planejado de seus algoritmos”, disse Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ). A sociedade e o mercado, agregou Rech, já observam um processo de reversão, ainda que de forma muito embrionária. Para ele, aos poucos, as pessoas vão passar a checar informações, enquanto as marcas terão cautela para não colocar reputação em jogo.

Rech lembrou que estão em curso campanhas publicitárias, sobretudo nos Estados Unidos, para explicitar a diferença entre a produção profissional da informação e a elaboração de informações por meio das redes sociais. Nesse processo, afirmou, cresce a responsabilidade do jornalismo. “A grande imprensa erra, mas busca a correção dos seus erros. A busca pela clareza e a checagem jornalística têm de ser constantes. Não estamos nesta área para fazer amigos, mas para prover a pluralidade das informações com responsabilidade”, enfatizou o presidente da ANJ.

Também é o que defende o jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP Eugênio Bucci. No entendimento dele, em um mercado regido cada vez mais pelo entretenimento, o desejo por diversão passa a orientar o consumo de notícias, segmentado em interesses. “Somos uma sociedade que consome notícias pela emoção e prazer, e não pela razão. Isto acaba orientando o mercado”, disse. Nesse cenário, Bucci salientou que “o exercício do jornalismo de qualidade, nos parâmetros e nos cânones éticos da profissão, tende a produzir um ambiente de debate em que os fatos ficam mais acessíveis, o que pode desmontar a indústria da mentira e da pós-verdade”.

O professor e jornalista citou a “verdade factual”, da obra “Verdade e Política”, da filósofa Hannah Arendt, como substância da política e elo que mantém a democracia inseparável da atividade da imprensa. “O pano de fundo dos fatos nos dá elementos para que possamos manter uma base comum de diálogo a partir da qual podemos divergir. Se não houver essa âncora factual, nós deixamos para trás o projeto democrático e a própria política, e ingressamos no terreno do fanatismo.”

Combate ao “engajamento sem escrúpulos”

Para Carlos Eduardo Lins e Silva, livre-docente em comunicação pela USP e ex-ombudsman e correspondente em Washington do jornal Folha de S.Paulo, o fenômeno global da polarização política criou um “engajamento sem escrúpulos” na difusão de notícias falsas. “Vale tudo para prejudicar um inimigo ideológico”, disse. Ele frisou que o momento atual é bastante delicado, pois lideranças hierárquicas mundiais usam do artifício de divulgar falsas notícias para fins escusos. Como exemplo, citou a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e disse que o republicano ganhou com base no Twitter e nas mentiras. “Há uma indústria da pós-verdade, com remuneração por resultados”, argumentou.

Segundo Lins e Silva, notícias falsas sempre existiram. “A novidade é a simplicidade e o baixo custo, a capacidade de proliferação rápida e com grande abrangência geográfica”, disse, destacando ainda a formação de uma “indústria da pós-verdade nas mídias sociais que, ao povoarem com anúncios as mídias mais acessadas, premiam a mentira e a notícia falsa”. Lins e Silva afirmou que a tendência é de que isso cresça. “O desafio é enorme e a única saída é o profissionalismo, amparado na checagem de informações”, destacou.

Investimento em credibilidade e certificação

Paulo Tonet, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Rádio e Televisão (ABERT), lembrou que estudos mostram que a grande credibilidade a respeito da cobertura de fatos continua nos veículos que “consagram o jornalismo como princípio”. Para ele, “a avalanche de mentiras” que tem sido produzida em tempos de mídias sociais precisa ser combatida com “mais jornalismo de credibilidade”. Tonet afirmou que o trunfo dos veículos tradicionais está no posicionamento, já que leitores sabem a quem cobrar em caso de erros e informações equivocadas. “É diferente das redes sociais, onde não há auditoria ou regulamentação de natureza jurídica ou de conteúdo”. A arma da imprensa contra a prática das mentiras, comentou o presidente da ABERT, passa pelo exercício da credibilidade, com a certificação do bom jornalismo e da informação crível.

Fabio Gallo, presidente da ANER, destacou que a chamada pós-verdade influenciou e continua influenciando questões políticas, econômicas e sociais, agora com velocidade da informação, sobretudo na internet. “Em meio a inúmeros conteúdos compartilhados, muitas vezes verdades e mentiras se misturam. Uma confusão que também pode ser descrita como ameaça”, frisou. “Nós, representantes da mídia, temos de fazer nosso papel. É por isso que estamos aqui hoje”, acrescentou. O diretor de redação da revista Época, João Gabriel de Lima, apresentou uma visão otimista do futuro e ressaltou a credibilidade conquistada pelos grandes veículos. Abordando o papel das revistas neste cenário, enalteceu o aspecto consolidador dessas publicações ao aprofundar o assunto, os perfis e as histórias. “É nisso que temos de investir”.

O fórum contou ainda com a presença do filósofo Luiz Felipe Pondé e de Francisco Leopoldo Carvalho de Mendonça Filho, da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, que falou sobre reformas estruturais e desinformação.

Leia mais em:

 

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/04/1872684-especialistas-discutem-conceitos-de-verdade-e-pos-verdade-no-jornalismo.shtml

http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2017/04/04/pos-verdade-interrompeu-a-glamourizacao-das-redes-sociais.html

http://www.anj.org.br/2017/04/05/contra-noticia-falsa-informacao-confiavel/

http://aner.org.br/pos-verdade-e-credibilidade-jornalistica-sao-debatidas-em-sao-paulo/