Jornalismo é principal arma contra notícias falsas, defendem comunicadores, especialistas e parlamentares

O fortalecimento do jornalismo profissional é o principal caminho para combater a proliferação de notícias falsas, fenômeno potencializado pelas redes sociais, defenderam nesta terça-feira (9), em Brasília, jornalistas, especialistas em comunicação e parlamentares. A defesa se deu durante a 11ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão, promovida pelo  Instituto Palavra Aberta em parceria com a Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Câmara dos Deputados. Segundo relato da Agência Câmara, existem no Brasil, conforme a empresa Bites, especializada em monitoramento de redes, pelo menos 30 sites voltados à produção de falsidades em larga escala. Juntas, essas páginas somam 9,2 milhões de visitas mensais, sendo que cerca de 72% do tráfego desses sites têm origem nas redes sociais, revelou a Bites.

Trata-se de uma capacidade “gigantesca” de disseminação, disse o diretor da empresa, Manoel Fernandes. Muitos desses sites, informou, têm até dez vezes mais compartilhamentos no Facebook do que portais de empresas jornalísticas consolidadas. “É uma máquina de compartilhamento”, alertou Fernandes durante a conferência, realizada na Câmara dos Deputados. O encontro, informou o jornal O Estado de S.Paulo, foi dividido em dois painéis: o impacto das notícias falsas na democracia e o papel da imprensa na era pós-verdade e o resgate do jornalismo profissional.

O principal antídoto às mentiras espalhadas na web é a atividade jornalística independente, argumentou a presidente do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco. Segundo ela, apenas o jornalismo produz notícias a partir de critérios técnicos. Patrícia disse acreditar que as pessoas precisam criar o “saudável hábito” de checar a veracidade das notícias antes de a disseminarem.

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) observou que a produção de notícias falsas tinha, em um passado recente, uma “escala artesanal” e com as redes sociais ganharam ares de “escala industrial”. “Isso tem muito impacto na vida social, altera o debate político”, disse. Para o parlamentar, como as redes sociais refletem engajamento político e causam mobilização social, uma falsa notícia pode ter efeitos “catastróficos”. “Há de se dar valor ao jornalismo autêntico”, frisou.

Essa também é a visão do diretor executivo da rádio CBN, Ricardo Gandour. Para ele, a notícia falsa e o erro jornalístico se combatem com mais jornalismo. “A emissão de informação deve ter sujeito, que deve ser cobrado pela sociedade”, disse. Ele defendeu a atividade estruturada e profissionalizada do jornalismo, praticado com princípios e métodos. “O jornalismo é hipernecessário e tenho convicção de que sempre será”, declarou.

A adoção de legislação específica tem sido apontada como uma forma de combater as notícias falsas. O jornalista, advogado e cientista político, Murillo de Aragão, diretor-presidente da empresa Arko Advice, é um dos defensores desse caminho. O Parlamento e o Judiciário, disse, devem se adaptar rapidamente à realidade de disseminação de notícias falsas, que poderão influenciar o resultado das próximas eleições brasileiras, em 2018. Para ele, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Ministério Público (MP) e a Polícia Federal (PF) devem montar uma força-tarefa para lidar com o problema.

Para entidades do setor, a expressão tem de ser estimulada, e não coibida. A autorregulamentação é o melhor caminho, segundo o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, que alertou para os riscos da regulação da mídia, base de regimes autoritários.

O secretário de Comunicação Social da Câmara dos Deputados, deputado Márcio Marinho (PRB-BA), destacou que os políticos são especialmente atingidos pela proliferação das notícias falsas e tendenciosas. Ele chamou a atenção para a importância do apuro e do cuidado na confecção da notícia que chega ao cidadão na era da pós-verdade. Na visão do presidente do Conselho de Comunicação Social – órgão auxiliar do Congresso Nacional –, Miguel Ângelo Cançado, “a superação da pós-verdade” passa pelo Parlamento. “Daqui, em sinergia com a sociedade, haverá de sair a solução para as crises que vivemos hoje”, apostou.

A senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), também defendeu, de acordo com a Agência Câmara, a pronta resposta dos políticos às notícias falsas disseminadas sobre eles. Ana Amélia disse que não são apenas as redes sociais que promovem notícias falsas, mas muitas vezes órgãos de imprensa consolidados. A senadora, entretanto, disse que eventuais mudanças na legislação devem ser discutidas com os órgãos de imprensa. A deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) ressaltou que as escolas devem promover a educação para a mídia, ensinando crianças e jovens a se comportar nas redes sociais.

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http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/COMUNICACAO/533220-FORTALECER-O-JORNALISMO-PROFISSIONAL-E-MEIO-DE-LIDAR-COM-NOTICIAS-FALSAS,-DIZEM-DEBATEDORES.html

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/COMUNICACAO/533222-LEI-E-EDUCACAO-PARA-REDES-SOCIAIS-PODEM-COIBIR-NOTICIAS-FALSAS,-DIZEM-DEBATEDORES.html

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,instituto-palavra-aberta-debate-liberdade-de-expressao,70001770010