Jornais confrontam Google e Facebook; Duopólio anuncia mais parcerias, mas há resistências Reprodução

Jornais confrontam Google e Facebook; Duopólio anuncia mais parcerias, mas há resistências

Em meio à reação dos jornais contra as práticas comerciais anticompetitivas – além de distorções, como a propagação de notícias falsas – promovidas por Google e Facebook no meio digital, o duopólio formado pelos gigantes de tecnologia ampliou sua oferta de parcerias com os veículos de comunicação. As duas companhias, entretanto, terão de superar obstáculos para tornar as iniciativas realmente atraentes aos publishers e quebrar com a desconfiança estabelecida. Ao mesmo tempo, no entendimento de alguns proprietários de grupos de comunicação, executivos e analistas, o cenário neste momento é positivo para que a mídia estabeleça uma negociação com Google e Facebook na tentativa de tornar mais equilibrada a concorrência no meio online. Somente no mercado norte-americano, as duas companhias com sede no Vale do Silício (EUA) controlam mais de 70% dos US$ 73 bilhões gastos ao ano em publicidade digital.

Nesta segunda-feira (10), logo após os jornais dos Estados Unidos e do Canadá, por meio da News Media Alliance (NMA), pedirem ao Congresso americano autorização para negociarem, juntas, com os dois gigantes da internet, o Facebook anunciou mudanças no Instant Articles, sua plataforma mobile de notícias. A empresa de mídia social decidiu permitir a participação de veículos que utilizam os sistemas paywall poroso (um número limitado de textos de acesso aberto e os demais fechados) e freemium (com grupos de conteúdo aberto e fechado), segundo informaram o site Digiday, o jornal Folha de S.Paulo e a publicação online Hora de Cierre, da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

O movimento da empresa de Mark Zuckerberg está associado ao fato de que as receitas com assinaturas digitais se tornaram prioritárias para os veículos a partir da queda na publicidade causada pela ascensão do duopólio das duas gigantes de tecnologia, relataram Lucia Moses, do Digiday, e Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo. O Facebook também estaria interessado em fazer outras concessões aos publishers, tais como garantir a eles total acesso à informação dos assinantes e o controle dos preços das assinaturas.

Reis e servos que suplicam

É difícil deixar de pensar no quanto a companhia de mídia social ganha com isso e, ainda, nos entraves para essa iniciativa, descreve o Digiday. Uma das dificuldades é o fato de que nem todos os veículos aceitam uma experiência uniforme de paywall. “Cada publisher tem um modelo um pouco diferente do outro”, argumenta Lucia Moses. Outro ponto a resolver é como efetivar os pagamentos por meio do Instant Articles e, claro, se o Facebook receberá alguma fatia do valor da assinatura. Atualmente, cerca de 30% das assinaturas feitas por aplicativos para telefones, por exemplo, vão para as empresas fornecedoras dessas ferramentas, Apple e Google.

O Facebook ofereceria uma opção, em concorrência direta com os outros gigantes de tecnologia, permitindo que os publishers trabalhem diretamente via mobile sem a complexidade dos apps. Há expectativa ainda em saber se o Facebook dará aos publishers acesso ao histórico de leitura dos usuários, tal como é feito nas páginas da web das empresas de conteúdo, o que proporcionaria o direcionamento de ofertas personalizadas de leitura. Uma vantagem do Instant Articles é a oferta de uma taxa maior de cliques dos nas postagens tradicionais. No entanto, os publishers teriam de sacrificar certo grau de controle sobre a medição e os dados da audiência.

“Estamos em conversas iniciais com diversas organizações de mídia sobre como podemos dar melhor suporte aos modelos de negócio por assinatura no Facebook”, afirma Campbell Brown, jornalista contratada pela plataforma em janeiro para comandar suas parcerias jornalísticas. “Fomos informados e estamos avaliando se vamos participar”, afirmou ao Digiday um alto executivo de The New York Times. “Até agora não vemos uma grande oportunidade nisso”, emendou. Karl Wells, gerente do WSJ Membership, clube de assinantes do The Wall Street Journal, o Facebook quer buscar uma solução que deixa a todos felizes, o que é uma tarefa muito difícil.

Alguns diretores de meios de comunicação têm dito que é mais complicado de negociar como o Facebook do que com Google ou Apple News. Para muitos publishers, as iniciativas de Zuckerberg para compartilhar suas receitas descomunais com os meios de comunicação são vacilantes. Alguns acreditam que, no fundo, o Facebook quer tirá-los do negócio, sinalizou a publicação Hora de Cierre. “Ao final do dia, eles (Facebook e Google) são os reis da corte e os provedores de notícias de qualidade, os servos que suplicam”, diz Jim Ruttenberg, colunista do The New York Times.

Relação assimétrica eleva a temperatura, diz Mark Thompson

O Google, diz Nelson de Sá, da Folha de S.Paulo, está mais adiantado nas parceiras e divulgou, no último fim de semana, o financiamento de 107 projetos de “jornalismo de alta qualidade” em 27 países europeus, para veículos como o jornal digital espanhol “Público” e o grupo estatal alemão Deutsche Welle. O programa de financiamento da plataforma começou há dois anos e é restrito à mídia europeia. Nesta terceira rodada, estão sendo distribuídos mais de 21 milhões de euros (R$ 78 milhões).
“Queremos ajudar os veículos jornalísticos a terem êxito em sua transição para o digital. Nos últimos anos criamos vários produtos, desenvolvidos especificamente para ajudar a distribuir, financiar e apoiar jornais. É uma prioridade e vamos manter o compromisso de ajudá-los em seus desafios e oportunidades”, afirmou o Google em nota sobre as críticas dos jornais e o anúncio da NMA.

Os gigantes digitais, ainda conforme Nelson de Sá, estão sob questionamento na União Europeia, que há duas semanas multou o Google em 2,4 bilhões de euros (R$ 8,9 bilhões), por prática monopolista no serviço de busca. Dias depois, o parlamento alemão aprovou lei estabelecendo multas de até 50 milhões de euros (R$ 198 milhões) para redes sociais, como o Facebook, que não apagarem conteúdo falso (calunioso) ou de ódio em menos de 24 horas.


A reação institucional europeia aos dois se acentuou desde a virada do ano, diante das notícias falsas que, disseminadas por suas plataformas, influenciaram votações como aquela que levou à saída do Reino Unido da União Europeia. O jornalista Alexios Mantzarlis, do site norte-americano Poynter, ressalta que nos países europeus o debate sobre falsidades e ódio espalhadas na internet, com base em meio digital dominado pelas práticas comerciais do
Google e do Facebook, sempre foi centrada nas legislações e nos legisladores, e isso permanecerá assim. Os Estados Unidos, onde a discussão se desenvolve mais a partir das possibilidade tecnológicas e das soluções para modelos de negócio, pode estar diante de uma transformação.

A ausência de reação semelhante à da União Europeia nos Estados Unidos é justamente um dos argumentos dos jornais para defender a negociação coletiva com os dois gigantes digitais, pedida nesta semana pela NMA ao Congresso dos Estados Unidos. “Os reguladores antitruste se recusaram a tratar do crescente domínio do Google e do Facebook, possibilitando que se apropriassem da economia da informação”, afirma David Chavern, CEO da NMA.


Alguns analistas dos Estados Unidos dizem que a tendência é a de o Congresso não atender o pedido dos jornais. Em entrevista a Rick Edmonds, também do Poynter, Chavern citou alguns motivos que o fazem manter otimismo. “Na minha experiência, os políticos geralmente odeiam a mídia, mas têm boas e produtivas relações com a mídia local”. Então, ele espera que os parlamentares façam a seguinte pergunta: “Minha organização de notícias local é sustentável?”


A NMA também destaca que órgãos americanos como a FTC (o Cade americano, de defesa concorrencial) “permitiram que o Google tomasse o controle da indústria de publicidade on-line comprando Doubleclick, AdMob e AdMeld, assim como o concorrente em mapas Waze, e autorizaram o Facebook a comprar dois concorrentes diretos, Instragram e WhatsApp”. Em nota, informou Nelson de Sá, a News Corp. de Rupert Murdoch, que edita o The Wall Street Journal, afirmou ser necessário “focalizar o público e o Congresso no comportamento anticoncorrencial do duopólio digital”. O presidente da NYT Co., Mark Thompson, afirmou que “a temperatura está subindo, em preocupação e em alguns casos raiva, quanto à relação assimétrica com as grandes plataformas”.


Há três semanas, lembrou o jornalista da Folha de S.Paulo, ao festejar os 150 anos do La Stampa, com participação de Thompson e de Jeff Bezos, dono do The Washington Post, o presidente do grupo italiano Exor, John Elkann, que controla não só o jornal mas a Fiat, alertou para a urgência da negociação com Google e Facebook: “Haverá uma janela de oportunidade nos próximos 12 a 18 meses, para estabelecer um relacionamento e encontrar uma maneira de fazer os pagamentos funcionarem. Precisamos proteger o que as pessoas compram e impedir a pirataria.”

Indústria dividida

Uma das principais dificuldades dos jornais em aproveitar a janela citada por Elkann está dentro da própria indústria jornalística. “O negócio de notícias não é a indústria homogênea que já foi, e qualquer mudança para enfrentar o domínio das empresas da plataforma irá destacar as diferenças entre meios de comunicação tradicionais [impresso e eletrônico] e nativos digitais em vez de uni-los”, adverte Emily Bell, jornalista e diretora da Tow Center for Digital Journalism da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia.

Está claro, afirma Emily Bell, que a mídia está fraturada e fraca diante da força do Google e do Facebook e que o jornalismo, particularmente o local, foi drenado como resultado de mudanças no mercado. A NMA, comenta a jornalista, não representa a nova geração de nativos digitais: Huffington Posts, Breitbarts, BuzzFeeds e Vox Medias. “Também não representa outras organizações de notícias com vigorosas presenças na web, mas raízes na transmissão: CNN, ABC, CBS e NBC.


Duas semanas atrás, o fundador da BuzzFeed, Jonah Peretti, por exemplo, disse ao The Drum que os publishers não não nativos da internet são responsáveis pelas suas próprias subserviências ao duopólio das gigantes de tecnologia: “Muitos dos players de mídia tradicionais atacam oportunamente o Facebook e o Google porque o Facebook e o Google descobriram um modelo melhor para entregar informações e entretenimento às pessoas em tempo real, de formas personalizada, compartilhável e global; tudo o que você não pode fazer em broadcast e impressão”.


Da Europa para os Estados Unidos e vice-versa


Apesar das iniciativas mais contundentes da União Europeia na tentativa de frear os impactos negativos do duopólio Google-Facebook, o movimento da NMA pode ter influência positiva ao publishers não apenas nos Estados Unidos. O jornalista Dominic Ponsford, do site especializado britânico Press Gazette, diz que os veículos de comunicação do Reino Unido enfrentam situação semelhante a dos norte-americanos: a ausência de uma legislação.


“[Google e Facebook] se tornaram tão grandes que é quase impossível para qualquer publisher de notícias online sobreviver sem fazer negócios com eles. No entanto, se todas as editoras de notícias do Reino Unido se sentassem em torno de uma mesa de conferência e concordassem com termos comerciais comuns para negociarem com Google e Facebook, correriam o risco de cair na falta de leis sobre concorrência”, afirma Dominic Ponsford.


O jornalista estima que, com base nos números da Internet Advertising Bureau de 2016, o duopólio ficou com pelo menos £ 6 bilhões de £ 10,3 bilhões gastos em publicidade digital britânica. “Isso é cerca de 15 vezes o rendimento de publicidade digital de todos os jornais nacionais e regionais do Reino Unido”. Dominic Ponsford destaca que a situação é mais dramática para alguns jornais regionais. “No ano passado, os principais grupos de jornais regionais do Reino Unido aumentaram o tráfego de seus sites em 40%, mas a receita de publicidade digital caiu 3,4%”, alerta.


“Seca” no Vale do Silício

O duopólio também parece ser nocivo em seu próprio berço, o Vale do Silício, conhecido pela engenhosidade e diversidade de negócios. “As pessoas ainda estão liderando startups, é claro. Mas o último grande sucesso de inicialização tecnológica, o Facebook, tem 13 anos”, comenta Timothy B. Lee, do site jornalístico norte-americano VOX. O jornalista apurou que muito dessa “seca” é resultado de um bloqueio promovido pelos atuais gigantes da tecnologia, em especial Google e Facebook.

“[As principais companhias do Vale do Silício] estão mais experientes sobre como antecipar ameaças aos seus domínios. Fazem isso expandindo agressivamente em novos mercados e adquirindo potenciais rivais quando ainda são relativamente pequenos. E, dizem alguns críticos, melhoraram o controle e o bloqueio de peças-chave da infraestrutura da internet, fechando caminhos que as primeiras empresas de internet usavam para alcançar um mercado de massa”. Como resultado, afirma Timothy B. Lee, uma indústria que “costumava ser famosa por seu agito está começando a parecer um oligopólio convencional”.


Leia mais em:

http://www.sipiapa.org/notas/1211570-facebook-prepara-una-ofrenda-paz-los-diarios
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/07/1900465-jornais-se-unem-contra-google-e-facebook-que-aceleram-parcerias.shtml
https://digiday.com/media/facebook-ready-roll-paid-subscriptions-publications/
https://www.poynter.org/2017/european-policy-makers-are-not-done-with-facebook-google-and-fake-news-just-yet/465809/?utm_source=Pew+Research+Center&utm_campaign=a41a07a707-EMAIL_CAMPAIGN_2017_07_12&utm_medium=email&utm_term=0_3e953b9b70-a41a07a707-399348769
http://www.pressgazette.co.uk/david-and-goliath-legal-battle-sees-rochdale-online-win-payout-from-manchester-evening-news-over-lifted-news-story/
http://www.poynter.org/2017/news-media-alliance-seeks-antitrust-exemption-to-negotiate-a-better-deal-with-facebook-and-google/466126/
https://www.vox.com/new-money/2017/7/11/15929014/end-of-the-internet-startup
http://variety.com/2017/biz/news/net-neutrality-att-day-of-action-1202492169/
https://www.cjr.org/tow_center/emily-bell-facebook-google-news-media-alliance-collective.php?CJR&utm_source=CJR+Daily+News&utm_campaign=d22e8021dd-EMAIL_CAMPAIGN_2017_06_05&utm_medium=email&utm_term=0_9c93f57676-d22e8021dd-174426941
http://www.businessinsider.com/net-neutrality-explainer-internet-protest-fcc-ajit-pai-2017-7?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=TechSelect&pt=385758&ct=Sailthru_BI_Newsletters&mt=8&utm_campaign=BI%20Tech%20%28Wednesday%20Friday%29%202017-07-12&utm_term=Tech%20Select%20-%20Engaged%2C%20Active%2C%20Passive%2C%20Disengaged