Comércio de cliques pode destruir reputações, desacreditar jornalistas e influenciar eleições

Comércio de cliques pode destruir reputações, desacreditar jornalistas e influenciar eleições

No Brasil, o comércio de cliques não está nos mercados da deep web e o uso publicitário desses serviços, apesar de questionável, não é ilegal, relata O Globo. Contudo, destaca o jornal do Rio de Janeiro, a manipulação de algoritmos pode ter outras consequências, desde a destruição da reputação de uma pessoa à vitória numa eleição. Em recente relatório, a empresa de segurança Trend Micro estima que é possível, por exemplo, desacreditar um jornalista com campanhas em redes sociais com cerca de US$ 55 mil.

Os pesquisadores fizeram uma simulação a partir de hipotético comunicador popular, com 50 mil seguidores no Twitter, 10 mil amigos no Facebook e um blog que publique três artigos semanais, com média de 200 comentários em cada texto. Em uma campanha de quatro semanas, diz e a empresa de segurança, é possível manchar a reputação desse profissional, usando uma mescla de serviços que inclui notícias falsas e compra de seguidores e curtidas. É possível até comprar comentários, para criar uma ilusão de credibilidade.

O primeiro passo, diz o relatório citado pelo jornal O Globo, é criar uma conta e dar a ela aparência de real, com muitos seguidores, curtidas e comentários comprados. Feito isso, detalha o diário fluminense, o ataque é iniciado, com exércitos de contas falsas comentando e compartilhando notícias mentirosas contra o jornalista e nos textos do profissional, tanto no Twitter como no Facebook. “O resultado? Por cerca de US$ 55 mil, um internauta que lê, assiste ou faz outras buscas sobre o conteúdo falso da campanha pode ser levado a ter uma impressão fragmentada e negativa do jornalista”, diz o relatório.

No Brasil, basta procurar no Google por “vendo curtidas” que aparecerão até empresas anunciantes. Numa das ofertas, no Mercado Livre, o vendedor oferece 500 seguidores no Instagram por R$ 14,90, sendo que o “lote”, com cem mil seguidores, sai por R$ 2 mil. Ou seja, 300 mil seguidores custam R$ 6 mil. As vendas acontecem livremente na internet. É uma área cinza, não existem leis que proíbam esse tipo de manipulação, afirma André Alves, conselheiro técnico da Trend Micro Brasil.

Outro ponto abordado no estudo foi o impacto no processo decisório, “de eleições, acordos comerciais e referendos até decisões financeiras pessoais”. Numa campanha, os pesquisadores da Trend Micro sugerem que um operador por comprar alguns sites na região alvo, que fazem referência um ao outro para conferir credibilidade. No início, o ideal é que notícias reais sejam publicadas, e distribuídas pelas redes sociais, para conquistar uma presença online.

Quando o momento decisório se aproximar, esses sites são usados para publicar notícias falsas, que são amplificadas por redes de bots e contas reais infladas com seguidores comprados. “Uma campanha de 12 meses com orçamento de US$ 400 mil deve ser capaz de ao menos atrair uma multidão de pessoas com percepção e crenças aliadas com a da agenda da campanha”, aponta o relatório. “O fator decisivo para o sucesso da campanha é, entretanto, o timing, ou quão rápido o conteúdo falso pode se espalhar antes de a decisão ser tomada”.

Essa prática, classificada como “ciclo da opinião pública” no relatório, tem se difundido nos últimos processos decisórios em todo o mundo, e alertado os defensores do sistema democrático. Nos EUA, a eleição do presidente, Donald Trump, foi marcado pelas fábricas de notícias falsas, o mesmo aconteceu no Brexit. No Brasil, a campanha presidencial e o processo de impeachment de Dilma Rousseff foram marcados pela presença de redes de bots nas redes sociais. “Existe a tendência de pensar que a manipulação de uma eleição acontece nas urnas, nas máquinas de voto, mas hackear essas máquinas é muito difícil. Não existe notícia de que isso tenha acontecido no mundo”, afirma Alves. “Mas podemos dizer que sim, uma eleição pode ser hackeada”.

A pesquisa mostra também como podem ser insufladas as carreiras de algumas celebridades da web que usam a influência sobre seguidores para lançar tendências e promover produto. O relatório da Trend Micro mostra que com US$ 2.600, cerca de R$ 8.200, é possível comprar 300 mil seguidores e enganar os algoritmos de redes sociais. “Esse mercado tem um impacto no algoritmo. As contas com mais seguidores são apresentadas como de maior relevância; 300 mil seguidores é volume suficiente para uma conta ser notada pelo algoritmo e ter sua influência ampliada”, comenta André Alves.

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https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/com-compra-de-seguidores-possivel-criar-uma-celebridade-com-8-mil-21603422#ixzz4nHqtgBac