Imprensa ganha espaço como antídoto às notícias falsas, avalia presidente da ANJ Imagem: Reprodução/ADWEEK

Imprensa ganha espaço como antídoto às notícias falsas, avalia presidente da ANJ

O jornalismo começa a reverter o que parecia ser uma derrota certa diante do acelerado ritmo de propagação das notícias falsas e de um mercado digital dominado pelo duopólio formado por Google e Facebook. Agora, destaca o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, a atividade jornalística volta “a andar de cabeça em pé” graças a um embrionário processo de reconhecimento de que a profissão é a mediadora entre fatos e fenômenos com o público, valendo-se dos relatos mais fidedignos possíveis e da pluralidade de visões”.

Rech, também presidente do Fórum Mundial de Editores, ressalta que, nessa retomada e frente aos novos desafios da humanidade, a sociedade tem de compreender que o jornalismo qualificado não é um produto barato. “Os mocinhos estão ressurgindo para restabelecer a conversação pacífica e respeitosa, defender a democracia e exterminar os fatos alternativos da face da Terra. Mas, antes que seja tarde demais, precisam do apoio da cidade e de seus cidadãos de bem”, assinala.

Em detalhada análise publicada na mais recente edição (Nº19) da Revista de Jornalismo da ESPM, o presidente da ANJ sustenta que, para desmontar versões em escala permanente e generalizada, as empresas de mídia precisarão de mais e mais recursos no momento em que já são profundamente afetadas pela drenagem de verbas canalizadas para o Google e o Facebook. “A ironia é que o modelo de negócios dos gigantes digitais depende do conteúdo de qualidade, exatamente o que as melhores redações produzem. Somente quando os dois mundos se complementarem em um modelo harmônico e sustentável, capaz de manter o jornalismo vivo, vibrante e em permanente evolução, os sujeitos maus serão expulsos da cidade pelos xerifes da verdade. É bom avisar os bandidos”, reforça o jornalista, vice-presidente editorial do Grupo RBS.

Até que se chegue a esse momento, será preciso minimizar os efeitos nefastos – como as notícias falsas, a intolerância e o descrédito ao jornalismo – do modelo de negócios praticado pelas principais empresas de mídia com base em tecnologia. “Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça”, ressalta Rech ao comentar a base de sustentação econômica dos gigantes do Vale do Silício. O produto do Facebook e Google, lembra o presidente da ANJ, é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. “O engajamento é o negócio dos gigantes, e, quanto mais alguém interagir com o conteúdo, mais estará servindo aos propósitos de Facebook e Google”.

Ao mesmo tempo há, pela frente, muita tarefa aos jornalistas e empresas de mídia. “A indústria da informação está sendo transformada radicalmente pela tecnologia”, afirma Rech. No entanto, continua ele, a tecnologia para esse jornalismo em um novo patamar não será um fim em si mesmo, mas um “instrumento pai” a alcançar novas audiências, desencavar matérias, interagir, providenciar diferentes formas de acesso e apresentação e, assim, gerar novas experiências e níveis de engajamento.

“Esse será o bem mais valioso do futuro – para o sistema econômico, que pode ser devastado por rumores, por governos e políticos, que têm o dever de prevenir a disseminação de informações falsas e preservar a democracia, e, naturalmente, para os indivíduos e a sociedade civilizada, diz Rech. O presidente da ANJ alerta ainda que o desafio está no começo; mais um motivo para que o jornalismo de credibilidade seja valorizado e financiado.

“Confiança se tornou tão indispensável porque nunca antes o apocalipse moral esteve tão próximo. Nos próximos cinco ou vinte anos, o mundo será desafiado por uma inesperada sucessão de ameaças desencadeadas pela difusão de informações falsas, seja por robôs programados para espalhar a cizânia ou por bem-intencionados cidadãos semianalfabetos em termos midiáticos e, portanto, presas fáceis do compartilhamento de sandices. Ao mesmo tempo, as redes sociais e suas bolhas deverão prosseguir em sua jornada rumo à progressiva intolerância e alienação do pensamento divergente”.

Leia aqui o artigo de Rech na íntegra.