“A remuneração por audiência alimenta a desinformação”, alerta o presidente da ANJ  

“A remuneração por audiência alimenta a desinformação”, alerta o presidente da ANJ  

O presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, enfatizou nesta semana a importância das propostas da coalizão Liberdade com Responsabilidade, formada por 27 entidades de comunicação social do Brasil, sobretudo a que contrapõe a defesa feita pela empresa de tecnologia norte-americana, assim como pelas demais gigantes digitais, da remuneração ou distribuição de receitas que dá prioridade à audiência massiva na internet. A defesa vem após a divulgação de carta enviada pelo Google ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, na segunda-feira (31/08), em contraponto a documento encaminhado ao parlamentar pela frente de organizações de comunicação há duas semanas.

“A remuneração por audiência é justamente uma das distorções que alimenta os piores efeitos colaterais das mídias interativas, como a desinformação, pois sites de notícias falsas ou postagens chamativas e sem qualquer compromisso com a verdade geram muita audiência, sem apoiar os fundamentos básicos de qualidade da informação”, disse Rech em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo e, também, em reunião do Fórum de Editores ligados à ANJ e à Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), realizada nesta quarta-feira (2).

Na reunião com os líderes de redações brasileiras, Rech enfatizou que a métrica de audiência não pode ser o definidor central da destinação dos investimentos na internet. Até porque, o jornalismo, disse ele, não tem sua relevância medida na audiência, mas sim na sua responsabilidade, reputação e compromisso com os fatos. Esse conceito, de acordo com o presidente da ANJ, está em debate em todo o mundo.

Em diferentes países, ressaltou Rech, há neste momento crescente entendimento favorável ao pagamento aos publishers dos conteúdos jornalísticos distribuídos pelas plataformas digitais, dentro de um debate maior: o sentimento de que não é mais viável manter o atual sistema que favorece as empresas de tecnologia, tratadas como se não fossem mídias, quando na verdade são grandes players do setor – exemplo disso são as cada vez mais recorrentes transmissões de grandes eventos, como os esportivos, com gigantescas audiências e farta publicidade.

O presidente da ANJ afirmou ainda que a legislação não deve diferenciar a veiculação de propaganda em veículos noticiosos e plataformas de tecnologia. “A publicidade deve ter uma regulamentação similar ou idêntica a qualquer outra plataforma de mídia do país. Rádio, TV e jornal também são plataformas de mídia, então por que teriam regulação desigual?”, afirmou em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo. Já no encontro do Fórum de Editores da ANJ e da ANER, Rech sublinhou que, para tanto, basta efetivar a extensão da legislação brasileira já vigente sobre publicidade para as plataformas digitais, priorizando a transparência.

Na prática, destacou o presidente da ANJ, há um maior entendimento de que não é mais possível manter uma situação na qual não se sabe bem quem são os financiadores de determinadas publicidades, em especial o que é conhecido como “impulsionamento de conteúdo” nas mídias interativas, o que facilita a propagação de desinformação e o discurso de ódio on-line. A ideia é reforçar a lógica – tão simples quanto eficaz – de deixar evidente quem financia essas atividades comerciais na internet, além de como os conteúdos, inclusive os publicitários, são distribuídos.

Críticas do Google

Na carta enviada a Rodrigo Maia, assinada pelo presidente do Google no país, Fabio Coelho, a empresa criticou a inclusão das ferramentas de busca no projeto de lei das Fake News, e rebateu alegações de que seus serviços tenham prejudicado o trabalho das redações de jornalismo profissional. O comunicado ocorre após a coalizão de 27 entidades representativas do setor da comunicação social protocolar na Câmara, há duas semanas, uma carta a Maia em que defendeu a remuneração de conteúdos jornalísticos, e maior transparência no financiamento de publicidade na internet.

A mensagem do gigante do Vale do Silício norte-americano argumenta, segundo informaram os jornais O Estado de S.Paulo e O Globo, que a responsabilização dos serviços de busca pela propagação de fake news – como tem sido discutido no Congresso – não ajudaria no combate à desinformação. “Ao contrário, isso poderia ser prejudicial ao combate à desinformação ao limitar acesso a uma variedade de fontes de informação”, diz o Google.

A carta traz argumentos contra a proposta de remunerar empresas jornalísticas pelo conteúdo exibido em suas plataformas, que consta no documento enviado a Maia há duas semanas. O Google rebateu a afirmação de que os serviços de busca e redes sociais têm avançado sobre a atuação do jornalismo profissional, ao monopolizar a audiência digital.

“Os maiores beneficiados com os resultados de busca para notícias são as próprias empresas que as produzem: a Pesquisa do Google direciona cerca de 24 bilhões de cliques por mês para sites de notícia em todo o mundo”, argumenta a empresa. O Google alega que proporciona uma audiência “sem precedentes” que poderia ser monetizada por meio de publicidade digital, e diz que a proposta de remuneração de veículos profissionais “desconsidera os arranjos comerciais existentes” e que poderia favorecer grandes veículos de forma desproporcional.

“Consideramos que simplesmente incluir as ferramentas de busca no projeto de lei, sem a devida consideração do conjunto de ações concretas que temos realizado para combater a desinformação em todas as nossas plataformas, poderia fazer com que a futura lei já nascesse obsoleta”, diz a carta.

A empresa listou providências que tomou no combate às fake news, como “suporte financeiro para o trabalho das empresas jornalísticas, agências de checagem de notícias, pesquisadores e iniciativas de educação midiática” e redução do alcance de notícias falsas. O Google também ressaltou que cumpre regras de transparência e a legislação brasileira para remunerar a publicidade digital, um ponto criticado pelas entidades brasileiras do setor de comunicação.

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