Dia Internacional da Democracia - 15 de setembro

Publicado em Jornal ANJ Online
Quarta, 02 Agosto 2017 18:38

Trump em desequilíbrio acelerado

Quando o deputado democrata Ted Lieu, da Califórnia, apresentou seu projeto de lei propondo a incorporação de um psiquiatra à equipe médica que acompanha todo presidente dos Estados Unidos, parecia que o louco era ele. Ou, no mínimo, que era um temerário, pois Donald Trump, que acabara de tomar posse, já dera sinais abundantes de reagir mal a insinuações sobre seu equilíbrio emocional e capacidade de liderança.

Na verdade, a proposta do congressista de segundo mandato, em cujo gabinete está afixado o aviso “Zona livre de fatos alternativos”, tem fundamento, lógica e modernidade. Quase nove décadas atrás o Congresso americano aprovara a lei que instituiu a obrigatoriedade da presença de uma equipe médica na Casa Branca. William Harding, o presidente anterior à lei votada em 1928, morrera subitamente no exercício do poder, e cabia a dúvida se o desfecho teria sido outro se ele tivesse tido assistência permanente.

Lieu explica que a visão mundial de saúde mental na época do voto de 1928 não contemplava a necessidade de um psiquiatra ou psicólogo. Mas que no século XXI, graças aos recursos e conhecimentos adquiridos, a importância da saúde mental de qualquer ser humano — presidente ou não — corre junto com o seu bemestar físico. “A meu ver”, resumiu o parlamentar para a jornalista Amy Goodman, “a Casa Branca precisaria ter um psiquiatra ou um psicólogo à disposição o tempo todo… Quando você tem um presidente que mente patologicamente, e que acredita em fatos alternativos, penso que isso pode ser um problema”.

Visto que desde 2015 todo novo recruta das Forças Armadas dos Estados Unidos é obrigado a se submeter a um teste de saúde mental, o comandante em chefe dessa força militar — o presidente — poderia dar o exemplo. Até porque recai sobre ele a decisão final, se necessário, de disparar ou não quatro mil armas nucleares em questão de minutos contra um inimigo.

Quando termos como “distúrbio de personalidade narcisista” e “personalidade borderline” começaram a circular entre profissionais e leigos, o jornalista Lee Siegel analisou a cautela da mídia em especular sobre as raízes do comportamento errático de Trump. Siegel argumenta ser obrigação da imprensa tratar do tema, uma obrigação para com o público. “Um diagnóstico profissional nem sempre é necessário”, escreveu ele na Columbia Journalism Review. “Quando alguém mente de forma compulsiva, se contradiz sem parar, implora pelo apoio de pessoas ao mesmo tempo que as ataca, exalta alguém um dia e no dia seguinte o vilipendia, a questão do estado mental está colocada. Neste caso o mais seguro é não apenas manter distância do personagem, como mantê-lo longe de situações em que ele possa causar danos”.

Por vezes a linha de ação e pensamento de Trump é tão desconectada da realidade, que sequer serventia tem para a vala comum das mídias sociais. Um tuíte por ele postado de Hamburgo, por exemplo, enquanto se reunia com o Grupo dos 20, gerou pasmo:


“Aqui todo mundo está comentando o que levou John Podesta a entregar o servidor da campanha democrata ao FBI e à CIA. Vergonhoso!”, escreveu @TheRealDonaldTrump. Só que em Hamburgo nenhum dos líderes do G-20 tinha a menor ideia do que atazanava a mente do presidente.

No mês anterior, o constrangimento maior foi dos próprios americanos. Trump havia convocado a mídia para testemunhar (e transmitir) a primeira reunião de seu ministério na Casa Branca. Era o 143º dia de sua presidência e todos tomaram assento em torno de uma imensa mesa de jantar. Trump, entronizado no meio, abriu a sessão com delirante elogio a seu próprio desempenho. Em seguida, instruiu os demais para fazerem o mesmo: elogiar o novo ocupante da Casa Branca segundo a perspectiva de cada setor.

O primeiro a humilhar-se foi o chefe de gabinete, Reince Priebus:

“Em nome de toda a equipe de primeiro escalão, Sr. Presidente, agradecemos a oportunidade e a bênção recebida por poder servir à sua agenda e ao povo americano”, discursou, emocionado. “Continuamos a trabalhar diariamente para alcançar essas metas”. (Esta semana o mesmo Priebus foi chamado de “fucking esquizofrênico-paranóide” pelo novo diretor de Comunicação, Anthony Scaramucci, em entrevista para a revista “New Yorker”.)

Todos os convocados para a reunião ministerial se prestaram à aguardada genuflexão verbal ao chefe. “É uma honra poder servi-lo”, garantiu o procurador-geral, Jeff Sessions, que esta semana está sendo fritado grosseiramente pelo presidente… “É um privilégio estar aqui. Me sinto profundamente honrado”, arriscou o secretário do Trabalho… “O povo do Misssissippi adora o senhor”, atestou o secretário de Agricultura, à falta de algo mais imponente. É provável que em 228 anos de história presidencial dos Estados Unidos jamais foi registrado um espetáculo tão patético. E deprimente. Trump, que já se comparou a Franklin D. Roosevelt, a Lincoln e a George

Washington, saiu da reunião como um rei sol.

Em comparação, a desajeitada referencia à ausência de palmas feita por Michel Temer na cerimônia de comemoração da concessão de quatro aeroportos até soa simpática.

*Texto publicado originalmente no jornal O Globo de 30/07/2017. A premiada jornalista Dorrit Harazim é colunista do jornal do Rio de Janeiro.

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Domingo, 29 Novembro -0001 21:00

A culpa é da imprensa

Não há “piores momentos”. Todos são piores momentos, todos revelam como e por que chegamos tão baixo, como se venderam as nossas ilusões e se desfizeram os nossos sonhos. Todos mostram como o nosso esforço foi para nada, como os nossos impostos só serviram para saciar a sede de — mas de que mesmo? de badulaques? de futilidades? de viagens em jatinhos? de hotéis de luxo? — que moveram os criminosos que mandam no país. Mas talvez o pior dos piores, o mais acintoso, o mais repulsivo, seja aquele momento em que Emílio Odebrecht abre o seu coração num lampejo de mágoa:

“O que nós temos no Brasil não é um negócio de cinco anos, dez anos atrás” — diz o dono da lama toda. “Nós estamos falando de 30 anos atrás. Tudo o que está acontecendo é um negócio institucionalizado. Era uma coisa normal. O que me surpreende é quando eu vejo todos esses poderes, a imprensa, tudo realmente como se isso fosse uma surpresa. Olhe, me incomoda isso. A imprensa toda sabia que o que acontecia era isso. Por que agora estão fazendo tudo isso? Por que não fizeram isso há dez, 15, 20 anos atrás?”

Como se vê, a culpa, mais uma vez, é da imprensa. É uma conversa bem conhecida essa, compartilhada universalmente por bandidos de todos os quadrantes do espectro político, que acham que imprensa boa é imprensa morta. Mate-se a imprensa pelo que se diz que faz, e mate-se pelo que se diz que não faz.

“Olhe, me incomoda isso.”

Pois a mim o que me incomoda é o cinismo, a cara dura, a desfaçatez. O que me incomoda é a sua risada asquerosa, Emílio Odebrecht, a sua vilania, a sua falta de humanidade; o que me incomoda é a sua alma podre.

Para além do incômodo, me revoltam os seus crimes, me revolta imaginar quantas pessoas morreram pelo hospital que não houve, pela comida que não chegou à mesa; me revolta saber quantas gerações deixaram de se educar nos 30 anos açambarcados pela sua sordidez.

“Revolta”, aliás, nem começa a definir o que eu sinto.

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A imprensa isso, a imprensa aquilo.

Não aguento mais isso.

Eu sei, a imprensa não é perfeita. Errou e erra muito, sempre, como erram todos os seres vivos. Tem falhas enormes. Imensas.

Mas eu prefiro mil vezes os erros e as falhas de uma imprensa atuante, que bota a boca no trombone, ao silêncio servil que as ditaduras e os canalhas tanto amam.

E, ao contrário de Emílio Odebrecht e dos seus miquinhos amestrados que se multiplicam pela internet, eu me lembro de centenas de editoriais, matérias e colunas denunciando a corrupção ao longo dos anos, quase uma categoria jornalística em si mesma. Também me lembro dos desmentidos veementes dos políticos e dos incontáveis processos que moveram contra jornalistas, assim como não me esqueço da intensa campanha de demonização da mídia promovida pelo PT desde que chegou ao poder, e da sua obsessão com a “regulação dos meios de comunicação”, um eufemismo “progressista” para censura.

Dito tudo isso, a verdade é que, ainda que existisse uma percepção nítida de que estávamos cercados de ladrões, ninguém tinha a mais pálida noção das dimensões que a corrupção havia tomado. E ninguém tinha a mais pálida noção porque essas dimensões não eram imagináveis. Não era possível, nem para a fantasia mais delirante, perceber a que ponto o país estava contaminado.

Quem não manifestou surpresa diante das delações ou não é humano, ou estava por dentro do esquema.

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Um leitor me mandou, por esses dias, uma coluna antiga de que já havia me esquecido, e que escrevi motivada pela declaração de rendimentos que tinha acabado de preencher. Por acaso, ela se mostrou oportuna: eu sabia, como todos nós que temos olhos para ver sabíamos, que aquele dinheiro ia para o ralo, para a composição de um cenário de crescimento que não era real, para a manutenção de mordomias tão desnecessárias quanto ofensivas em todas as instâncias do poder.

“Ao longo do ano, somos constantemente provocados pelas autoridades federais, estaduais e municipais, que tratam o nosso dinheiro como papel higiênico usado. É superfaturamento de obra, ministério inútil, hotel de luxo em Roma, merenda escolar que vai para o lixo, aparelho hospitalar que apodrece sem sair da embalagem, auxílio moradia com dez anos de retroatividade para juízes sem teto, demolição de equipamentos esportivos recém-construídos — a lista não acaba nunca e desafia a imaginação mais pervertida”, dizia a coluna, que assinaria hoje como assinei em maio de 2013, sem mudar uma vírgula.

O engraçado é que, uma semana depois, um rico colunista da “Carta Capital” usou o seu espaço para me acusar de ser uma burguesa elitista sem compromisso com o Fabuloso Brasil de Lula & Dilma. Foi aí que, para minha surpresa, descobri que reclamar do destino dado ao dinheiro público não é coisa de gente bacana — gente bacana não liga para a corrupção, desde que aquele dinheiro esteja sendo roubado do lado certo.

A gente aprende as coisas das formas mais inusitadas.

Agora só me falta mesmo entender como é que a Receita, tão atenta aos centavos dos cidadãos comuns e tão zelosa em multá-los aos menores erros, deixou de ver as montanhas de recursos ilícitos movimentadas debaixo do seu nariz.

 *Texto publicado originalmente no jornal O Globo, de 20/04/2017

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A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) rechaçou nesta segunda-feira (03) os novos ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à imprensa norte-americana que, no entendimento da entidade, podem incitar atos de violência contra jornalistas e mídia. “A retórica do governo de Trump não têm precedentes e ameaça sufocar a capacidade dos meios de comunicação de informar ao público sobre as atividades do novo governo e seus planos para o futuro do país”, alertou Roberto Rock, presidente da Comissão de Liberdade de Imprensa e Informação. A entidade tem manifestado preocupação com a falta de transparência da atual gestão da Casa Branca, além de insinuações da presidência sobre a possibilidade de estabelecer regulação ao direito de sigilo de fonte e a aplicação de leis de difamação contra a mídia, o que afetaria a liberdade de imprensa.

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Sexta, 30 Junho 2017 14:10

Para formar mentes críticas

Marlova Jovchelovitch Noleto*

A internet e as mídias digitais proporcionam hoje um fluxo de informações nunca visto na história da Humanidade. A comunicação se dá em todas as direções, em alta velocidade, facilitando enormemente a vida das pessoas. Mas esse admirável mundo novo das redes sociais, dos blogs, dos sites, dos vídeos praticamente instantâneos e de tudo o mais que a internet incorporou ao nosso cotidiano exige permanente reflexão.

Se hoje, mais do que nunca, a informação é essencial em nossas vidas, torna-se vital que ela seja de qualidade. Crescem de importância, portanto, as informações apuradas com rigor, editadas com critério e contextualizadas com espírito crítico, pois funcionam como instrumentos para que o cidadão construa, ele próprio, a sua visão de mundo.

Vivemos em tempos críticos, que exigem mentes críticas, disse a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, em sua mensagem relativa ao Dia Mundial da Liberdade de Expressão, em 3 de maio. Ao afirmar que a mídia deve ser não apenas uma fonte de informações confiáveis, a diretora-geral destaca que “ela deve fornecer uma plataforma para uma multidão de vozes e mobilizar as novas forças para a tolerância e o diálogo.” E reafirma que a mídia continua tendo um papel importante no avanço de sociedades inclusivas, justas e pacíficas.

Um fenômeno inusitado vem sendo enfrentado pelo setor de comunicações: as notícias falsas, como observado na cobertura de eventos políticos importantes em 2016. O fato distorcido e retirado do contexto real é mal a ser combatido, na mídia tradicional ou em outros ambientes da web, como sites e blogs. Educação e informação de qualidade são essenciais para os cidadãos fazerem as melhores escolhas em suas vidas e nas sociedades a que pertencem, exercendo e exigindo o cumprimento de seus direitos.

Nesse cenário, a Unesco trabalha para oferecer conteúdos, estratégias e conhecimentos com qualidade, respeitando a diversidade cultural e a questão de gênero. Tudo isso, em acesso aberto, na web, por meio de suas áreas de atuação — educação, ciências naturais, ciências humanas e sociais, cultura e comunicação e informação. São insumos para que o cidadão do século XXI possa aprimorar seu pensamento crítico e assim contribuir para o desenvolvimento das sociedades e a redução das desigualdades.

Uma das estratégias desenvolvidas pela Unesco é a Alfabetização Midiática e Informacional (AMI), que busca empoderar os usuários das diversas mídias com as habilidades necessárias para navegar na internet, além de interpretar, rejeitar ou reagir a mensagens provocadoras ou de ódio. Fortalecer a AMI nas sociedades deveria ser, portanto, um objetivo de todos países.

A liberdade de expressão e a liberdade de informação são pré-condições para a democracia. A preservação dessas liberdades no mundo das modernas tecnologias de comunicação é nosso desafio e pressuposto para construção da paz.

*Representante da Unesco no Brasil

Texto publicado originalmente no jornal O Globo.

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