Após pressões dos publishers e de autoridades reguladoras, o Facebook anunciou que lançará um sistema paywall em seu Instant Articles – que agrega reportagens de diversas empresas de comunicação e oferece carregamento rápido no meio mobile. Entre produtores de conteúdo, há ainda muita desconfiança e uma série de dúvidas sobre como a mídia social pretende estabelecer o novo modelo. No fim da semana passada, Campbell Brown, que lidera a equipe de parcerias de notícias no Facebook, garantiu que a empresa não tem interesse nos recursos angariados pelos publishers com assinaturas nem nos dados envolvidos nas futuras transações, informou o site especializado Recode.

Publicado em Jornal ANJ Online

Empresas jornalísticas dos Estados Unidos e do Canadá advertiram nesta segunda-feira (10) sobre o "duopólio" formado por Google e Facebook e pediram ao Congresso americano autorização para negociarem, juntas, com os dois gigantes da internet, que usam e distribuem o conteúdo criado pelas companhias de mídia sem qualquer contrapartida. Os publishers alertaram que, no atual modelo, Google e Facebook se beneficiam do conteúdo de qualidade produzido pelas companhias jornalísticas, sem arcar com os custos elevados envolvidos nesse processo, e ainda lucram com as receitas de publicidade, que não são repassadas às corporações de mídia.

Publicado em Jornal ANJ Online
Sexta, 30 Junho 2017 17:34

O algoritmo imoral

Há alguns dias, o jornal The Australian, um dos mais importantes da Austrália, publicou uma reportagem estarrecedora, sustentada por um editorial severo. Um documento de 23 páginas produzido pela filial do Facebook analisava como identificar e enviar mensagens para crianças e adolescentes emocionalmente frágeis, em depressão, com baixa autoestima. A rede social não teria ficado nisso. A “metodologia” teria sido oferecida a “pelo menos” um anunciante para ser utilizada como ferramenta de marketing segmentado, para usar uma terminologia anódina, quando se trata de um procedimento que em países minimamente civilizados, inclusive o nosso, teria tudo para ser enquadrado criminalmente como abuso contra pessoa vulnerável.

O Facebook reagiu com um comunicado ambíguo, afirmando que “não oferece ferramentas para chegar a pessoas com base em seu estado emocional”, mas admitiu a existência de uma “análise, feita por um pesquisador australiano com o objetivo de ajudar marqueteiros a entender como as pessoas se expressam no Facebook”. O comunicado, sem assinatura de executivo ou técnico da empresa, acrescentou que o estudo nunca foi usado para publicidade segmentada e se baseava em dados anônimos e agregados. O texto encerra procurando dar a impressão de que não é insensível a eventuais problemas com seus serviços ao afirmar que “tem um processo estabelecido de controle de pesquisas. “Essa pesquisa não seguiu esse processo e estamos revisando os detalhes para corrigir a falha”. Parafraseando um juiz da Suprema Corte norte-americana ao julgar um processo sobre pornografia: não é preciso uma definição de tergiversação para saber quando se está diante de uma.

Não é a primeira vez – e é improvável que seja a última – que o Facebook, assim como outras redes sociais, agregadores e buscadores, recorre a esse tipo de chicana para eximir-se de sua responsabilidade. Foi o que aconteceu com os recentes casos de assassinatos (de um idoso nos, Estados Unidos, e de um bebê, na Tailândia) cujas imagens foram transmitidas e mantidas acessíveis por muitas horas. Foi o que aconteceu com grupos de pedofilia no mesmo Facebook, denunciado pela BBC, e com publicidade comercial e até anúncios institucionais de órgãos estatais britânicos, exibidos associados a sites, blogs e vídeos promotores de preconceitos, ódio e terrorismo. Tem sido o caso, por fim, da propagação em escala industrial de notícias falsas e fraudes nos números de pessoas que visualizaram publicidade, com o emprego de robôs e ferramentas desenvolvidas precisamente com esse fim, ambas alavancando-se mutuamente para obter mais visibilidade e receita.

O argumento principal para eximir-se de responsabilidade é falso. Tão falso quanto a “notícia”: "Marisa fotografada na Itália. Morte da mulher de LULA é mentira, ENTENDA!", difundida pelo site “Pensa Brasil” notória fonte de notícias falsas e de outras fraudes, como revelado pela Folha de S.Paulo em matéria de 19 de fevereiro último. Não por acaso, se você digitar “Pensa” no Google, como fiz neste domingo (07/5), a primeira opção oferecida pelo buscador é ... “Pensa Brasil”. O embuste consiste em que essas empresas se dizem “de tecnologia” e não “de produção e difusão de conteúdo” ou de mídia.

Não há neutralidade técnica nem axiológica na forma como os conteúdos são exibidos nas redes sociais ou nos buscadores como pretendem. Em primeiro lugar, eles são frequentemente manipulados, como está demonstrado no processo contra o Google que tramita na União Europeia, porque há provas de que sites de negócios do próprio buscador são apresentados com prioridade sobre os dos concorrentes, e no episódio das notícias falsas disseminadas pelo Facebook durante a reta final da campanha eleitoral nos EUA.

O argumento também é falso porque, como fazem certos serviços de atendimento ao consumidor, o motivo último e intransponível da permanência da situação é ... “não se pode fazer nada”. O “sistema não permite...” “é o algoritmo...”. Ocorre, assim, uma antropomorfização de um programa de computador, como se fosse dotado de vontade e personalidade. Ao mesmo tempo, é como uma força telúrica contra a qual os mortais nada podem. Já os humanos que o desenvolveram, o administram e tomam as decisões nas empresas que os utilizam volatilizam-se, perdem as prerrogativas humanas, torna-se escravos de uma “inteligência artificial”.

Na verdade, algoritmos não são nem inteligência, nem artificial porque fazem o que foram programados para fazer. No atual estágio tecnológico pelo menos, é possível estabelecer alguns parâmetros limitados para que façam algumas “opções”. Mas são tão limitados que o algoritmo tanto ignora a pedofilia exposta em certas imagens (exceto em condições muito explícitas e previsíveis) quanto censurar uma foto de campanha de aleitamento materno porque, para seus puritanos critérios, um seio à mostra é pornografia. Correções de casos como estes, como prometido reiteradamente pelas empresas, demoram para serem feitas (quando são) e, em geral, só acontecem quando alertadas por algum(muitos) internauta(s). Aqui surge um problema real.

O problema real é que só humanos podem discernir o que algoritmos e sistemas são incapazes detectar. As redes sociais, buscadores e congêneres se negam a fazê-lo. Em primeiro lugar, isso implicaria admitir que são empresas de conteúdo e não plataformas neutras, o que tem imensas consequências, inclusive jurídicas. Implicaria, também, num tremendo desafio ao seu “modelo de negócio”, a começar por um aumento estratosférico de seus custos. É preciso gente para fazer uma curadoria adequada do conteúdo de uma rede social, evitando que crimes sejam praticados e exibidos sem restrições. É preciso gente para o anúncio de uma empresa ou instituição vá para determinado público e não para outro cujos parâmetros (de audiência, localização, perfil sócio-econômico e demográfico, por exemplo) podem ser semelhantes, mas com propósitos condenáveis sob todos os aspectos. É preciso gente habilitada para fazer jornalismo conforme as boas práticas da atividade informativa numa sociedade democrática, sobrepondo-se a uma indústria de notícias falsas. E é preciso gente educada e com senso crítico para entender a importância dessas diferenças e não aceitar o que o algoritmo imoral lhe oferece.        


*Carlos Alves Müller é jornalista e consultor da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
Versão ampliada de artigo publicado originalmente no jornal O Globo, em 12/05/2017.

Publicado em Artigos

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) integrou-se ao Projeto de Jornalismo do Facebook. A iniciativa, que conta com uma página dentro da plataforma da empresa norte-americana na internet, proporciona capacitação e oferece ferramentas aos jornalistas. Umas delas é o guia de segurança no Facebook, que aborda temas como privacidade; moderação de comentários; bloqueio de perseguição e hackeamento; e denúncias sobre abusos e clonagem de perfil de usuário.

Publicado em Jornal ANJ Online

Mathias Doepfner, presidente-executivo (CEO) da maior editora da Alemanha, a Axel Springer, disse no fim da semana passada acreditar que o duopólio Google-Facebook está cada vez mais convencido de que precisa dos publishers para manter seu negócio lucrativo. Por isso, em uma conferência de tecnologia realizada na última quinta-feira (22), Doepfner afirmou alimentar as expectativa de que as gigantes do Vale do Silício mudarão suas operações para que os produtores de conteúdo também ganhem dinheiro e, com isso, possam financiar o jornalismo. “Eles têm de fornecer um modelo de negócio decente para atrair conteúdo para suas plataformas”, enfatizou. “Eles têm o problema da notícia falsa”.

Publicado em Jornal ANJ Online