Sexta, 30 Junho 2017 17:34

O algoritmo imoral

Há alguns dias, o jornal The Australian, um dos mais importantes da Austrália, publicou uma reportagem estarrecedora, sustentada por um editorial severo. Um documento de 23 páginas produzido pela filial do Facebook analisava como identificar e enviar mensagens para crianças e adolescentes emocionalmente frágeis, em depressão, com baixa autoestima. A rede social não teria ficado nisso. A “metodologia” teria sido oferecida a “pelo menos” um anunciante para ser utilizada como ferramenta de marketing segmentado, para usar uma terminologia anódina, quando se trata de um procedimento que em países minimamente civilizados, inclusive o nosso, teria tudo para ser enquadrado criminalmente como abuso contra pessoa vulnerável.

O Facebook reagiu com um comunicado ambíguo, afirmando que “não oferece ferramentas para chegar a pessoas com base em seu estado emocional”, mas admitiu a existência de uma “análise, feita por um pesquisador australiano com o objetivo de ajudar marqueteiros a entender como as pessoas se expressam no Facebook”. O comunicado, sem assinatura de executivo ou técnico da empresa, acrescentou que o estudo nunca foi usado para publicidade segmentada e se baseava em dados anônimos e agregados. O texto encerra procurando dar a impressão de que não é insensível a eventuais problemas com seus serviços ao afirmar que “tem um processo estabelecido de controle de pesquisas. “Essa pesquisa não seguiu esse processo e estamos revisando os detalhes para corrigir a falha”. Parafraseando um juiz da Suprema Corte norte-americana ao julgar um processo sobre pornografia: não é preciso uma definição de tergiversação para saber quando se está diante de uma.

Não é a primeira vez – e é improvável que seja a última – que o Facebook, assim como outras redes sociais, agregadores e buscadores, recorre a esse tipo de chicana para eximir-se de sua responsabilidade. Foi o que aconteceu com os recentes casos de assassinatos (de um idoso nos, Estados Unidos, e de um bebê, na Tailândia) cujas imagens foram transmitidas e mantidas acessíveis por muitas horas. Foi o que aconteceu com grupos de pedofilia no mesmo Facebook, denunciado pela BBC, e com publicidade comercial e até anúncios institucionais de órgãos estatais britânicos, exibidos associados a sites, blogs e vídeos promotores de preconceitos, ódio e terrorismo. Tem sido o caso, por fim, da propagação em escala industrial de notícias falsas e fraudes nos números de pessoas que visualizaram publicidade, com o emprego de robôs e ferramentas desenvolvidas precisamente com esse fim, ambas alavancando-se mutuamente para obter mais visibilidade e receita.

O argumento principal para eximir-se de responsabilidade é falso. Tão falso quanto a “notícia”: "Marisa fotografada na Itália. Morte da mulher de LULA é mentira, ENTENDA!", difundida pelo site “Pensa Brasil” notória fonte de notícias falsas e de outras fraudes, como revelado pela Folha de S.Paulo em matéria de 19 de fevereiro último. Não por acaso, se você digitar “Pensa” no Google, como fiz neste domingo (07/5), a primeira opção oferecida pelo buscador é ... “Pensa Brasil”. O embuste consiste em que essas empresas se dizem “de tecnologia” e não “de produção e difusão de conteúdo” ou de mídia.

Não há neutralidade técnica nem axiológica na forma como os conteúdos são exibidos nas redes sociais ou nos buscadores como pretendem. Em primeiro lugar, eles são frequentemente manipulados, como está demonstrado no processo contra o Google que tramita na União Europeia, porque há provas de que sites de negócios do próprio buscador são apresentados com prioridade sobre os dos concorrentes, e no episódio das notícias falsas disseminadas pelo Facebook durante a reta final da campanha eleitoral nos EUA.

O argumento também é falso porque, como fazem certos serviços de atendimento ao consumidor, o motivo último e intransponível da permanência da situação é ... “não se pode fazer nada”. O “sistema não permite...” “é o algoritmo...”. Ocorre, assim, uma antropomorfização de um programa de computador, como se fosse dotado de vontade e personalidade. Ao mesmo tempo, é como uma força telúrica contra a qual os mortais nada podem. Já os humanos que o desenvolveram, o administram e tomam as decisões nas empresas que os utilizam volatilizam-se, perdem as prerrogativas humanas, torna-se escravos de uma “inteligência artificial”.

Na verdade, algoritmos não são nem inteligência, nem artificial porque fazem o que foram programados para fazer. No atual estágio tecnológico pelo menos, é possível estabelecer alguns parâmetros limitados para que façam algumas “opções”. Mas são tão limitados que o algoritmo tanto ignora a pedofilia exposta em certas imagens (exceto em condições muito explícitas e previsíveis) quanto censurar uma foto de campanha de aleitamento materno porque, para seus puritanos critérios, um seio à mostra é pornografia. Correções de casos como estes, como prometido reiteradamente pelas empresas, demoram para serem feitas (quando são) e, em geral, só acontecem quando alertadas por algum(muitos) internauta(s). Aqui surge um problema real.

O problema real é que só humanos podem discernir o que algoritmos e sistemas são incapazes detectar. As redes sociais, buscadores e congêneres se negam a fazê-lo. Em primeiro lugar, isso implicaria admitir que são empresas de conteúdo e não plataformas neutras, o que tem imensas consequências, inclusive jurídicas. Implicaria, também, num tremendo desafio ao seu “modelo de negócio”, a começar por um aumento estratosférico de seus custos. É preciso gente para fazer uma curadoria adequada do conteúdo de uma rede social, evitando que crimes sejam praticados e exibidos sem restrições. É preciso gente para o anúncio de uma empresa ou instituição vá para determinado público e não para outro cujos parâmetros (de audiência, localização, perfil sócio-econômico e demográfico, por exemplo) podem ser semelhantes, mas com propósitos condenáveis sob todos os aspectos. É preciso gente habilitada para fazer jornalismo conforme as boas práticas da atividade informativa numa sociedade democrática, sobrepondo-se a uma indústria de notícias falsas. E é preciso gente educada e com senso crítico para entender a importância dessas diferenças e não aceitar o que o algoritmo imoral lhe oferece.        


*Carlos Alves Müller é jornalista e consultor da Associação Nacional de Jornais (ANJ)
Versão ampliada de artigo publicado originalmente no jornal O Globo, em 12/05/2017.

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Mathias Doepfner, presidente-executivo (CEO) da maior editora da Alemanha, a Axel Springer, disse no fim da semana passada acreditar que o duopólio Google-Facebook está cada vez mais convencido de que precisa dos publishers para manter seu negócio lucrativo. Por isso, em uma conferência de tecnologia realizada na última quinta-feira (22), Doepfner afirmou alimentar as expectativa de que as gigantes do Vale do Silício mudarão suas operações para que os produtores de conteúdo também ganhem dinheiro e, com isso, possam financiar o jornalismo. “Eles têm de fornecer um modelo de negócio decente para atrair conteúdo para suas plataformas”, enfatizou. “Eles têm o problema da notícia falsa”.

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Poucos dias antes de receber da União Europeia uma multa recorde por abuso de poder econômico, o Google anunciou, na última sexta-feira (23), que em breve seus algoritmos não mais lerão o conteúdo das mensagens do serviço de endereço eletrônico gratuito Gmail. A prática, uma das mais controversas da gigante de buscas da internet, garante o direcionamento de anúncios a partir dos temas descritos nos assuntos das mensagens dos e-mails e geraram processos judiciais e algumas das críticas mais duras feitas à empresa em seus primeiros anos de operação, segundo a Bloomberg. No entanto, a mudança não é um reconhecimento de má prática comercial. Trata-se de uma estratégia de negócios que mantém o uso de dados dos usuários para a padronização de publicidade.

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A Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, aplicou nesta terça-feira (27) uma multa recorde de € 2,4 bilhões (equivalente a US$ 2,7 bilhões ou a R$ 9 bilhões) ao Google, controlado pela Alphabet, por ter abusado de seu domínio nas buscas na internet para favorecer seu comparador de preços, o Google Shopping. Indicando que adotará uma linha dura em relação à companhia em dois outros casos em andamento, a Comissão Europeia disse que a empresa de buscas na internet tem 90 dias para deixar de favorecer seu próprio serviço de compras, aplicando aos concorrentes o mesmo posicionamento e forma de exibição que dá a seus serviços, e explicar à UE como fará isso, além de se submeter ao monitoramento do bloco europeu. Caso o Google descumpra as determinações, estará sujeito a pagar até 5% do faturamento médio diário da Alphabet.

A Comissão considerou que o Google ofereceu sistematicamente uma posição proeminente nas pesquisas para seu próprio serviço de comparação de compras e que rebaixou o serviço de rivais nos resultados. “O que o Google fez é ilegal sob leis antitruste da União Europeia. Ele negou a outras companhias a chance de competir nos méritos e de inovar. E mais importante, ele negou aos consumidores europeus uma escolha genuína de serviços e os benefícios completos da inovação”, disse a comissária europeia da concorrência, Margrethe Vestager, em comunicado.

O Google, disse a comissária, criou muitos produtos e serviços inovadores que fizeram a diferença nas vidas das pessoas. “Essa é uma coisa boa. Mas a estratégia do Google para seu serviço de comparação de compras não era só para atrair consumidores ao fazer seu produto melhor do que o de outros rivais”,  afirmou. A UE informou ainda que a decisão no âmbito das leis antitruste não impede que a empresa seja alvo de ações judiciais nos países que fazem parte do bloco.

A empresa norte-americana informou em nota que estuda recorrer da multa, calculada com base na receita da empresa nos 13 países que compõem a área econômica europeia. Em casos de acusações de abuso de posição dominante, a maior multa emitida até então pela Comissão Europeia havia sido de € 1,06 bilhão contra a Intel, em 2009.

O caso se arrasta desde 2010 e foi iniciado quando os concorrentes americanos Microsoft e TripAdvisor denunciaram a Google à UE. Em abril de 2015, a Comissão Europeia emitiu uma “comunicação de objeções”, o equivalente a uma acusação, reforçada em 2016.  Durante cinco anos, o ex-comissário de concorrência, Joaquín Almunia, tentou junto ao Google encontrar um meio para que as reclamações fossem atendidas. Para chegar a uma conciliação, a Comissão alterou a proposta de solução três vezes.

Para a Comissão Europeia, informou o G1, as ações do Google para minar os concorrentes começaram em 2008 e era sustentada em duas frentes:

– Sistematicamente dar uma colocação proeminente [no resultado das buscas] para o seu próprio serviço de comparação de compras;
– Rebaixar os serviços de comparação dos rivais em seus resultados de pesquisa.

A ação do Google só foi possível porque a empresa usou seu amplo poder nesse segmento, já que concentra 90% das buscas na internet na Europa. “Como resultado, o serviço de comparação compras do Google é muito mais visível para os consumidores nos resultados de pesquisa do Google, enquanto os serviços de compras de comparação rivais são muito menos visíveis.”

A UE ainda explica quais eram os efeitos dessa prática. “Mesmo nos computadores de mesa, os dez resultados de pesquisa genéricos de maior ranking na primeira página do resultado da busca geralmente recebem 95% de todos os cliques (com o resultado superior recebendo cerca de 35% de todos os cliques). O primeiro resultado na segunda página dos resultados de pesquisa do Google recebe apenas cerca de 1% de todos os cliques.”

O efeito dessa prática, ainda de acordo com o G1, produziu resultados na quantidade de pessoas que acessavam o Google Shopping, segundo avaliação da UE. O tráfego direcionado ao serviço cresceu:

– 45 vezes no Reino Unido
– 35 vezes na Alemanha
– 19 vezes na França
– 29 vezes na Holanda
– 17 vezes na Espanha
– 14 vezes na Itália

Enquanto isso, o tráfego de acessos aos serviços rivais “caiu significativamente”, apontou a UE, que constatou quedas de:

– 85% no Reino Unido
– 92% na Alemanha
– 80% na França

Em 2015, quando a denúncia foi formalizada, o Google minimizou seu papel na internet. Comparou sua atuação à de uma porta de entrada. Considerou ainda que a acusação é equivocada, já que há outras opções de busca na internet. Citou como opções aos seus serviços Bing, Yahoo, Quora, DuckDuckGo, Facebook, Pinterest, Twitter e Amazon.

A União Europeia avalia outros casos contra o Google por abuso de posição dominante. Um sobre sua plataforma de anúncios AdSense, e outro, sobre o sistema operacional Android. O objetivo do bloco europeu é “avaliar se, ao concluir acordos contrários à concorrência ou cometendo abusos de sua posição dominante, o Google prejudicou de forma ilegal desenvolvimento e acesso ao mercado de sistemas operacionais para telefonia móvel”.

Leia mais em:

http://br.reuters.com/article/internetNews/idBRKBN19I1E6-OBRIN

http://g1.globo.com/tecnologia/noticia/uniao-europeia-impoe-multa-de-24-milhoes-por-abuso-de-dominio.ghtml

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Em 2011, o empreendedor digital e escritor Eli Pariser expôs, com uma clareza até então inédita, as artimanhas dos algoritmos que personalizam conteúdo, especialmente no Facebook e no Google, e são capazes de isolar as pessoas em bolhas virtuais de pensamentos únicos, sem acesso à divergência. Os perigos dessa personalização foram relatados por Pariser no livro O Filtro Invisível – O que a Internet está Escondendo de Você (editado no Brasil pela Zahar) e, de lá para cá, as bolhas ganharam mais força, passaram a influenciar as agendas políticas, sociais e econômicas e, também, constituíram-se em um dos pilares do fenômeno das notícias falsas na internet. Agora, depois do alerta que fez há quase seis anos, o visionário empreendedor sustenta que esse ambiente digital está consolidado e, para deixá-lo mais saudável, é preciso de ferramentas semelhantes às usadas pelo duopólio Google-Facebook – cujo modelo de negócio não encontra hoje alternativa –, entre elas os algoritmos e o entretenimento como e engajador de audiência, além de um jornalismo cada vez mais qualificado, formando o chamado conteúdo viral, principal produto do site liderado por Pariser, o Upworthy.

“Existe esse processo de filtro, de uma enorme quantidade de informações que podem chegar ao leitor, que são selecionadas por esses algoritmos”, reforçou Pariser em recente entrevista ao jornal El País. “O que mudou é que toda essa criação tomou consciência de si mesmo. Agora mesmo, meios de comunicação como o seu criam notícias e as distribuem com a expressa intenção de entrar nessa bolha e chegar até os leitores”, disse o escritor e empreendedor em resposta a uma pergunta do repórter David Alandete sobre as mudanças ocorridas entre 2011 e 2017. Pariser enfatizou ao El País que o entretenimento é a chave dos algoritmos. “[Os sistemas automatizados] Não discriminam em função da ideologia, e sim pelo que dá mais cliques. E o entretenimento dá mais cliques do que as notícias factuais. Ao final, as bolhas nas quais nos relacionamos têm mais a ver com nossos gostos do que com a ideologia”, afirmou, sem deixar de reconhecer que também é verdade que os gostos podem determinar a ideologia.

As notícias falsas, advertiu o escritor em outra entrevista, desta vez ao El Mundo, são de fato um problema. “Mas, se pudéssemos eliminá-las numa canetada só não teríamos um ecossistema informativo funcionando bem (…)”, argumentou. Novamente, Pariser destacou a importância do jornalismo. “Necessitamos anticorpos mais fortes e um sistema imune mais saudável, ou seja, mais notícias verdadeiras e melhor distribuídas, de maneira que possam chegar a mais gente e combater as que são mentira”.

Ao mesmo tempo, Pariser insiste sobre o papel fundamental do conteúdo de entretenimento, recurso muito usado por ele e seus parceiros no site Upworthy. “Nossa intenção era fazer das notícias algo divertido e atrativo, além de informativas. Devemos admitir: hoje em dia as notícias competem com o entretenimento, e dever ser atrativas”, frisou o escritor ao El País. O Upworthy, garante ele, não perdeu valor jornalístico ao procurar ser um meio viral. “Temos uma equipe dedicada a comprovar dados de forma muito rigorosa”, comentou Pariser. “Na realidade, o que é isso que chamamos de meios virais? São meios de notícias que as pessoas estão dispostas a compartilhar com seus amigos. Creio que não é uma má aspiração na realidade, porque se você consegue, está fazendo um favor as pessoas”, argumenta.

Leia mais em:

http://cultura.elpais.com/cultura/2017/06/19/actualidad/1497900552_320878.html

http://www.elmundo.es/television/2017/06/19/594813f0e5fdea6a5a8b4593.html

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