Quinta, 03 Agosto 2017 12:39

Uma chance para o otimismo

A disseminação da falsidade causou muito estrago, mas há iniciativas para fazer a apuração profissional ganhar fôlego e conter a barbárie.

Basta puxar da memória para apenas um ano atrás. As expressões pós-verdade e fake news ainda não haviam sido transplantadas de alguns poucos trabalhos acadêmicos, o mundo seguia embasbacado pelos números estonteantes de audiência de Google e Facebook e pelo glamour exalado por duas marcas que conquistaram o universo digital e da comunicação praticamente sem resistência. No lado dos ocupados, havia apenas desalento: circulações em queda, receitas migrando na ponte aérea para o duopólio dos gigantes digitais e, pior, dedos apontados para jornalistas e meios de comunicação, desterrados ao passado sob o peso da expressão “mídia tradicional”.

Passados menos de seis meses, o jornalismo profissional começa a se erguer do pântano em que fora metido. Agora, volta a andar de cabeça em pé graças a um embrionário processo de reconhecimento do papel que a história reservou à profissão: servir de mediadora entre fatos e fenômenos com o público, valendo-se dos relatos mais fidedignos possíveis e da pluralidade de visões. Ironicamente, são agora os antigos profetas do futuro que, constrangidos, se veem na condição de dar explicações, buscar justificativas e improvisar iniciativas de relações públicas para tentar demonstrar que se preocupam em agir contra a onda planetária de notícias falsas.

É uma guinada e tanto. Há apenas cinco anos, na esteira da Primavera Árabe, as redes sociais eram incensadas como os novos libertadores dos povos oprimidos. Finalmente, os sem–voz e sem acesso direto a meios de comunicação de massa tinham encontrado uma forma de transmitir sua mensagem para outros que pensavam como eles e, em última análise, para o resto do mundo. Embevecidos pelo novo instrumento que permitia emitir uma mensagem sem filtros, a custo baixíssimo e de forma instantânea, os com-voz não perceberam os primeiros sinais de que a cada ação corresponde uma reação. Quando o desejo de liberdade chegou ao Irã, o regime estava mais preparado. A repressão identificou e prendeu os líderes da rebelião contra o poder dos aiatolás. Bastou seguir as pegadas digitais nas redes sociais e nos sistemas de trocas de mensagens. Duas revoluções começavam a morrer ali: a da liberdade no Oriente Médio e a que prometia liberdade de expressão sem limites e barreiras.

Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça. O produto de Facebook e Google é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. No caso das redes, havia outro fenômeno em formação sem que nem seus criadores se dessem conta dos efeitos tóxicos que estavam gestando. Ao fragmentar o mundo em bolhas de opinião e interesses, o algoritmo que define o que cada um vai ver ou ler oferece ao usuário mais do mesmo, na expectativa de que ele se manifeste, compartilhe ou dê likes sobre o conteúdo, revelando assim mais e mais sobre si mesmo. O engajamento é o negócio dos gigantes, e, quanto mais alguém interagir com o conteúdo, mais estará servindo aos propósitos de Facebook e Google.

Essa fórmula era apenas uma eficiente forma para identificar o cliente mais propenso a adquirir um determinado produto até que a indústria da manipulação, motivada principalmente por interesses ideológicos e econômicos, se deu conta de que haviam encontrado uma avenida para seus propósitos. Para incentivar engajamento, o algoritmo esquadrinha o comportamento dos indivíduos e divide-os, por exemplo, entre os que frequentam o açougue e os que só põem os pés no mercado vegetariano. Um não quer saber do outro e, mesmo que quisesse, o algoritmo não pretende ajudar a construir uma ponte entre os dois universos. Ao contrário, ele reforça as crenças e valores de cada usuário, que, quanto mais se engaja com um enfoque, mais recebe sobre ele. E assim teve inicio a escalada de intolerância que assusta a quem acompanha as consequências do pugilato digital.

Desejo de aniquilação

Outro efeito colateral, não previsto nos primórdios das redes: para conquistar adeptos e likes, o usuário tem de postar ou compartilhar conteúdos cada vez mais espetaculares e radicais, num crescendo de virulência robustecido a todo instante pelo algoritmo. O resultado é que o frequentador do açougue ou do mercado vegetariano acabam não querendo mais apenas saber as novidades em carnes, frutas e verduras. Eles desejam é a aniquilação do outro, a imposição de seus costumes sobre as tribos adversárias. O fenômeno ficou popularizado como bolhas ou câmaras de eco, nas quais as mesmas opiniões se repetem em infinitos likes, esmagando ou expulsando visões dissidentes.

A indústria da manipulação identificou no mesmo mecanismo um campo fértil para as campanhas eleitorais. Demonstrar o valor e o projeto do candidato nas redes já não é mais o objetivo principal. A indústria se deu conta de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos espetaculosos, fofocas e temas apimentados. No Brasil, por exemplo, a “candidata lésbica” ou o “candidato traficante” ganharam muito mais compartilhamentos do que as propostas de ambos para a Previdência Social.

Para reforçar a mensagem sensacionalista, era preciso também desacreditar os meios de comunicação e o jornalismo profissional, a derradeira barreira de contenção a avalizar ou não as inverdades ou meias–verdades a zanzar pela web. Assim, veículos forjados por gerações de profissionais no esforço da credibilidade foram transformados em vilões, suspeitos de ocultar informações sob a acusação de estarem mancomunados com o adversário, fosse ele quem fosse. Ao usuário comum, que assim imagina ter acesso a informações muito sigilosas sobre o que “a grande mídia quer esconder”, a história passa a se revestir de ares de verdade restrita a alguns escolhidos. E assim nascem e florescem as teorias da conspiração, um fenômeno que, até a difusão das redes, vivia na redoma do exotismo, como a história de que Hitler está vivo ou de que o homem nunca pisou na Lua. De uma hora para outra, teorias delirantes passaram a ganhar amplos espaços e vida próprios, transformando o que seriam antigamente eleitores bem-intencionados em crentes de que Hillary Clinton de fato mandava matar desafetos.

Sem barreiras legais ou éticas, especialistas em adulteração de informações passaram a agir nos desvãos das campanhas. Nas Filipinas, a foto de uma menina de nove anos, que teria sido morta por usuários de drogas, foi decisiva para a eleição do truculento Rodrigo Duterte em 2016, meses antes de Trump. A menina fora assassinada no Brasil em 2014, mas quem se importa com os desmentidos? Nas redes, a mentira sobe de elevador, enquanto a aborrecida correção segue, resfolegante, pelas escadas. Durante a campanha, o odor de sangue transformou os eleitores filipinos em tubarões sedentos de carne, numa escalada que só foi possível graças às redes sociais.

Identificar inimigos ocultos e gerar pavor é uma tática antiga de conquistar adeptos e converter recalcitrantes. Dos comunistas comedores de criancinhas aos horrores do nazismo contra os judeus, o século 20 foi farto em campanhas difamatórias com fins políticos. Mas as redes aceleraram dramaticamente esse processo. O medo da invasão dos imigrantes deu alento ao Brexite a ameaça de um terrorista em cada esquina foi decisiva para a vitória de Donald Trump.

No mundo idealizado das redes, as pessoas se organizariam por autogestão, em sintonia perfeita, para compartilhar conteúdos edificantes. Há, claro, muitos conteúdos educativos, de alto nível e – por que não? – divertidos nas redes. Mas imaginar que o trânsito da megalópole poderia se autogerir sem semáforos, placas ou guardas durou apenas até o momento em que as gangues viram uma oportunidade e tomaram conta das ruas, valendo-se da ingenuidade dos motoristas bonzinhos e daqueles aparentemente sensatos que acabaram reféns dos bandidos.

Efeitos colaterais

Na virada do ano, estarrecido pela fábrica de mentiras que ajudou a eleger o presidente da maior potência do planeta, o mundo começou a acordar. Aqui e ali, loucuras originárias da web passaram a tirar pelo menos um pequeno grupo de estudiosos e formadores de opinião da letargia em relação aos efeitos colaterais do mundo em redes. Um desses efeitos tóxicos ocorreu em 24 de dezembro de 2016, quando o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, tuitou a seguinte frase, a propósito de uma suposta entrevista do ministro da Defesa de Israel na qual ameaçaria retaliar uma possível intervenção paquistanesa no conflito sírio: “Israel esquece que o Paquistão é uma potência nuclear também”.

A ameaça acendeu o alerta laranja em Israel. A declaração do ministro israelense jamais fora feita: a entrevista que desencadeou a pesada reação paquistanesa era uma invenção do início ao fim, disseminada como notícia verdadeira pela web. Ou seja, duas potências nucleares estiveram à beira de uma crise diplomática por causa de uma entrevista falsa que enganou e indignou muita gente. A sofisticação de algumas montagens de fato torna difícil distinguir a verdade à primeira vista, mas bastaria uma checagem na fonte original para desmascarar os farsantes.

Nesse preocupante mundo novo da informação, não é suficiente, porém, ostentar uma marca de credibilidade para abrir as portas do paraíso aos jornalistas. A técnica profissional, como em qualquer outra atividade, precisa evoluir para um estágio mais avançado e profundo e produzir um conteúdo muito diferenciado, disponível até agora em poucos veículos do planeta. Para atender à demanda por uma qualidade superior, jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões – de modo rápido e preciso sob pressões tremendas, desviando-se de armadilhas ocultas, sem praticamente nenhum espaço para o erro. Boa parte da pressão virá diretamente do público, ávido por descobrir o que há de verdade sobre um acontecimento ou compreender suas implicações, já não mais em uma questão de dias ou semanas, mas de horas ou minutos.

O consumidor desse jornalismo cirúrgico poderia ser comparado a alguém que, se sentindo doente, recorre ao Google e digita seus sintomas. O fato é que, no caso de algo potencialmente sério, ninguém se contenta com os conteúdos espalhados pela internet. O paciente procura um médico e, diante da complexidade, recorre a um especialista, e assim por diante.

Um processo similar vai ocorrer no campo da comunicação. Os indivíduos continuarão sendo contaminados pela radiação perversa emanada pelas notícias falsas – afinal, há e haverá mais e mais informações distorcidas cientificamente pelos charlatães que atuam na web. Mas, como informação de qualidade será um bem valioso, a tendência que primeiro se busque o refúgio da credibilidade em um jornalismo com menor risco de contágio por interesses políticos e econômicos, ou seja, aquele produzido por alguma forma de guia profissional que persegue princípios básicos universais, como a busca da verdade e a correção de eventuais erros.

Em jogo, a reputação

Naturalmente, como na história do diagnóstico médico, há bons e maus doutores, centros de saúde de referência e outros que mereceriam ser fechados. Achar o melhor jornalista e marca jornalística será como identificar os melhores médicos e hospitais. No futuro, com a sofisticação dos processos de seleção de informação e avaliação de fontes, a reputação será o grande divisor de águas entre curandeiros da noticia e profissionais do jornalismo de alto nível.

A indústria da informação está sendo transformada radicalmente pela tecnologia. No entanto, tecnologia, para esse jornalismo em um novo patamar, não será um fim em si mesmo, mas um instrumento pai a alcançar novas audiências, desencavar matérias, interagir, providenciar diferentes formas de acesso e apresentação e, assim, gerar novas experiências e níveis de engajamento. Embora profundamente conectada à tecnologia, a imprensa não está no ramo de desenvolvimento de software. O núcleo da atividade se assentará cada vez mais sobre a confiança. Esse será o bem mais valioso do futuro – para o sistema econômico, que pode ser devastado por rumores, por governos e políticos, que têm o dever de prevenir a disseminação de informações falsas e preservar a democracia, e, naturalmente, para os indivíduos e a sociedade civilizada.

Confiança se tornou tão indispensável porque nunca antes o apocalipse moral esteve tão próximo – não na forma de códigos nucleares, mas mimetizado como verdade em conteúdos apócrifos. Nos próximos cinco ou 20 anos, o mundo será desafiado por uma inesperada sucessão de ameaças desencadeadas pela difusão de informações falsas, seja por robôs programados para espalhar a cizânia ou por bem-intencionados cidadãos semianalfabetos em termos midiáticos e, portanto, presas fáceis do compartilhamento de sandices. Ao mesmo tempo, as redes sociais e suas bolhas deverão prosseguir em sua jornada rumo à progressiva intolerância e alienação do pensamento divergente.

Apesar de o mundo começar a se dar conta de que o antídoto para os fakebooks da vida é jornalismo profissional em um patamar superior, a sociedade ainda está longe de aceitar que esse produto não é barato. Na realidade, para desmontar versões em escala permanente e generalizada, as empresas de mídia precisarão de mais e mais recursos no momento em que já são profundamente afetadas pela drenagem de verbas canalizadas para o duopólio Google e Facebook.

A ironia é que o modelo de negócios dos gigantes digitais depende do conteúdo de qualidade, exatamente o que as melhores redações produzem. Somente quando os dois mundos se complementarem em um modelo harmônico e sustentável, capaz de manter o jornalismo vivo, vibrante e em permanente evolução, os sujeitos maus serão expulsos da cidade pelos xerifes da verdade. É bom avisar os bandidos. Os mocinhos estão ressurgindo para restabelecer a conversação pacífica e respeitosa, defender a democracia e exterminar os fatos alternativos da face da Terra. Mas, antes que seja tarde demais, precisam do apoio da cidade e de seus cidadãos de bem.

*Presidente do Fórum Mundial de Editores e da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Vice-presidente editorial do Grupo RBS. Artigo publicado originalmente na Revista de Jornalismo ESPM – Nº 19

 

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Assinantes do Estadão já têm à disposição uma nova plataforma para acessar a versão digital do jornal, com recursos que permitem uma navegação mais simples e intuitiva por reportagens, artigos, colunas e outros conteúdos publicados na edição diária.

Os assinantes do ‘Estadão’ ganharam uma nova plataforma para acessar a versão digital do jornal em seus computadores. Os novos recursos permitem uma navegação mais simples e intuitiva pelos conteúdos. O ‘Estadão’ é um dos pioneiros em adotar no País a tecnologia da canadense PressReader. A nova versão da edição digital pode ser acessada a partir do portal ‘Estadão’, por meio do link ‘Jornal Digital’ no topo do site.

“Temos o desafio de oferecer aos leitores não só conteúdo de credibilidade, mas também engajar as pessoas por uma plataforma que ofereça melhor experiência de leitura”, diz Débora Huertas, gerente de aquisição e fidelização do Grupo Estado.

Na nova versão da edição digital, a principal mudança está no formato de navegação, que agora ocorre de forma horizontal. Basta o leitor passar o mouse pelas páginas para acessar as reportagens. Ao clicar no título de um texto, o usuário ativa o novo modo de visualização. É possível, por exemplo, personalizar tipo e tamanho das letras dos textos – ferramenta que atende a sugestões enviadas por assinantes do jornal.

O leitor também terá um novo recurso de descrição em áudio – ou seja, o computador “lê” o jornal em “voz alta”. Isso permite, por exemplo, que assinantes possam escutar o conteúdo enquanto fazem outra atividade, como dirigir. A novidade também melhora o acesso dos deficientes visuais aos textos.

O leitor também poderá escolher assuntos que pretende acompanhar no dia a dia. Ao criar um tópico, como “Lava Jato”, por exemplo, vai encontrar diariamente uma seleção das notícias sobre o tema.

A nova edição digital também permite que o usuário escolha suas notícias favoritas e as arquive em uma pasta, para ler mais tarde. O Estadão também traz uma série de novos recursos de compartilhamento de notícias em redes sociais e aplicativos de armazenamento, como Evernote e OnNote.

Smartphones. Em breve, o Estadão pretende lançar novas versões do aplicativo da edição digital para Android e iOS, de forma a unificar a experiência dos leitores em todas as plataformas, incluindo smartphones e tablets. O acesso à edição digital é restrito a assinantes.

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Já na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump surpreendeu e continua a espantar até os mais cínicos observadores da política americana, com uma interpretação peculiar do que vem a ser fato, realidade, verdade e mentira. Trump insistiu, por exemplo, que havia mais público nas ruas de Washington para sua posse na presidência do que tinha sido o caso da cerimônia do antecessor, Barack Obama. Deu assim o exemplo de como ignorar a realidade diante dos olhos, as fotos na imprensa, a cobertura na TV, os muitos vídeos de celular.

Para caracterizar a cobertura de mídia que o desmentia e apontava a falta de base e substância para as afirmações que ele fazia, Trump consagrou o termo “fake news” — notícia falsa. Cresce daí uma discussão que sai da política rasteira, faz escala na paranoia, no senso de perseguição e chega à filosofia.

Bem como a história da ciência, tenta-se entender o que é fato, o que é verdade, o que é mentira e de onde vem esses conceitos. Entra no circuito acadêmico britânico David Wootton, formado em História pela Universidade de Cambridge, hoje professor dessa disciplina na Universidade de York. É autor de Uma breve história dos fatos, da revista History Today, em que discute a visão peculiar de Trump sobre fatos e verdades. Produziu uma abordagem mais ampla do assunto nas 700 páginas do livro A invenção da ciência: uma nova história da revolução científica.

Silio Boccanera — O governo Trump surpreendeu muita gente com essa interpretação peculiar do que é fato, o que é verdade e o que é mentira. Para nós, os fatos são algo tão natural que é difícil imaginar a vida sem fatos. Mas a sua pesquisa diz que o conceito de fato não existiu sempre ou não era entendido corretamente. Pode explicar isso?
David Wootton — A palavra “fato”, em todas as línguas — latim, inglês, francês, português e outras —, é uma palavra do século 17. Ela se espalhou de um país para outro e decolou na Inglaterra na década de 1660. Ela representa uma atitude nova em relação à informação: devemos buscar informações confiáveis, que possam ser verificadas e cuja veracidade possa ser confirmada de várias formas.

Mas então o que havia antes do fato? Havia duas coisas: a autoridade, ou seja, se alguém importante diz alguma coisa, ou se alguma figura literária diz alguma coisa, deve ser verdade. E vemos Trump tentando usar essa técnica. Quando ele diz: “A minha posse foi a mais cheia”, está dizendo: “Sou o presidente. Se eu disse, é verdade.” Ele está confiando num argumento de autoridade. E a outra coisa é o que se pode chamar de “fama”, que significa “fofoca” ou “reputação” em latim. O que as pessoas dizem.

E a terceira coisa, na qual filósofos e matemáticos confiavam, era a prova, a demonstração. A forma confiável de conhecimento sempre foi o conhecimento demonstrativo filosófico. A filosofia aristotélica se baseava no silogismo: você ia formando um raciocínio a partir de vários silogismos. Se o primeiro fosse verdadeiro, todos os seguintes também seriam. A novidade do “fato” é a ideia de que precisamos de informações empíricas. Ele surge com as novas ciências que confiam na informação empírica.

Silio Boccanera — Ele surge com a revolução científica, como você explica em sua obra. As descobertas que levaram as pessoas a repensar a forma como encaravam…
David Wootton — Sim, e é. uma dessas perguntas do ovo ou da galinha. Foi o fato que deu origem à revolução científica ou foi o contrário? Eles surgem juntos, um ajuda e sustenta o outro.

Silio Boccanera — Sabemos que certos relatos contidos na Bíblia só podem ser aceitos hoje como metáforas, como a criação do mundo de uma vez só.
David Wootton — Pois é. Um exemplo notável é um livro lançado na década de 1640 por Sir Thomas Browne chamado Pseudodoxia Epidemica, algo como A epidemia do conhecimento falso. Ele acumula exemplos de coisas nas quais as pessoas acreditam que não procedem. Por exemplo, que elefantes não têm joelhos.

“Como poderiam andar sem joelhos? Vou mostrar fotos de elefantes e eles têm joelhos.” Mas, sempre que surge um exemplo da Bíblia, ele diz: “Claro, se está na Bíblia, é verdade.” Então ele faz toda uma análise crítica, exceto da Bíblia. Este é o muro que ninguém ultrapassa. Mas, no final do século 17, as pessoas passam a dizer… É isso que Galileu diz no início do século 17 em relação à Terra. A Bíblia diz que a Terra é fixa e o Sol se move. Galileu diz: “Isso é uma figura de linguagem. Não devemos levar ao pé da letra. Devemos entender que a Bíblia foi escrita por inspiração divina para que fosse entendida por pessoas comuns. Não é ciência, são alegorias.” E essa se torna a abordagem científica padrão.

Silio Boccanera — Mas essa crença existe até hoje. Pessoas, não só religiosas, dizem que, se está na Bíblia, é verdade.
David Wootton — Sim. Os meus avós eram assim. O meu pai era missionário cristão. Meus pais não eram dogmáticos a ponto de achar que tudo na Bíblia era verdade, mas meus avós eram. Eu vim desse mundo. É por isso que esse assunto me interessa, porque fico fascinado pelo processo. E essas crenças se autorreforçam, pois você se recusa a cogitar as evidências em contrário. Não há necessidade disso.

Silio Boccanera — Pode haver opiniões alternativas, mas não fatos alternativos.
David Wootton — Não. Não existem fatos alternativos. O que pode existir são fatos diferentes para propósitos diferentes. Se fizer perguntas diferentes, obterá respostas diferentes. Então pode haver fatos que parecem diferentes, mas isso porque são construídos por perguntas diferentes. Se eu lhe pergunto qual é o ponto de ebulição da água, você dirá 100ºC, mas se quero saber o ponto de ebulição da água no alto de uma montanha, a resposta será diferente. Portanto, os fatos em relação ao ponto de ebulição da água mudam dependendo do motivo pelo qual queremos a resposta.

Silio Boccanera — Mas, sem fatos que possam ser provados, não se pode ter conhecimento confiável.
David Wootton — Sem dúvida. A pegadinha — o que tento explicar no livro e que é muito difícil, como andar no gume de uma faca — é que é preciso se certificar de que há uma verdade objetiva absolutamente válida e reconhecer que nós criamos nosso próprio conhecimento para propósitos diferentes, portanto, o tipo de conhecimento que produzimos varia dependendo dos nossos objetivos. Nesse sentido, temos de reconhecer que o conhecimento é um processo social e também que nós criamos processos sociais e intelectuais que produzem conhecimento totalmente confiável. Nós podemos prever precisamente o movimento dos planetas pelos céus, e somos capazes disso desde Newton. Nesse sentido, temos um conhecimento totalmente confiável.

Silio Boccanera — Mas não se pode ter uma verdade específica, um fato verdadeiro que só satisfaça às suas condições, que parece ser a abordagem de Trump. Se alguém diz que não havia muita gente na posse dele, ele rebate: “Havia, sim.” A verdade dele é diferente de…
David Wootton — Vamos falar sobre “fatos verdadeiros”. É uma característica paradoxal e peculiar os fatos terem de ser verdadeiros. É uma redundância. Todos os fatos são verdadeiros. Se não forem, não são fatos. É por isso que não há “fatos alternativos”. Quando Kellyanne falou isso, queria sugerir que poderia haver mais de um fato verdadeiro sobre o mesmo episódio.

Trump criou um universo próprio de interpretação da realidade numa era em que alguns já chamam de pós-verdade. O prêmio Nobel de economia Paul Krugman diz que “Trump e a extrema direita que o apoia veem fatos e análises sérias como inimigos”. Psicanalistas que entraram no debate observam que Trump mente e desmente com tal regularidade que cria confusão entre o público, políticos, jornalistas, que se esforçam para encontrar a verdade.

O que Trump não está permitindo, me parece, é uma discussão, um debate, uma apresentação de pontos de vista diferentes, o que levaria a uma resposta clara sobre a verdade. Ao fazer isso, ele tenta garantir que o debate é tendencioso em seu favor. E isso nos leva de volta à imagem do tribunal.

A questão da imagem do tribunal é que você tem a oportunidade de se defender no tribunal, mas, depois de isso feito diante de um júri, pode ter um julgamento confiável. E o que Trump tenta constantemente fazer é impedir o que seria um julgamento justo das evidências. E ele só consegue isso por culpa de um longo período no qual pessoas como eu, que trabalham em universidades e lidam com assuntos intelectuais, fracassaram em se expressar numa linguagem que se comunique claramente com um universo mais amplo.

Então surgiu uma lacuna entre opiniões intelectuais liberais sobre certos assuntos e a experiência do público. E não são só as pessoas que não ouvem os intelectuais. Os intelectuais também não ouvem as pessoas. É preciso ter uma discussão em que haja troca de pontos de vista e opiniões. E isso não está acontecendo. As universidades se tornaram fechadas As pessoas só conversam entre si, e não com gente de fora.

Silio Boccanera — Trump e seu séquito, sem perceber, guardam algumas semelhanças com os pós-modernistas, com o conceito intelectual de que não há verdade real. O grupo de Trump não sabe disso, mas há semelhanças.
David Wootton — O meu livro é um longo, longo, longo ataque ao pós-modernismo na história da ciência. Porque o pós-modernismo na história da ciência simplesmente alega que a ciência é apenas uma forma de pensar o mundo, e qualquer outra forma de pensar o mundo pode ser igualmente válida. Isso é uma tolice. A ciência é uma forma muito peculiar e especial de pensar o mundo que funciona, que tem sucesso, que nos dá a capacidade de prever e controlar o que vai acontecer. É bem diferente da mágica ou de outras formas de pensar o mundo. Eles perderam a disposição de identificar os aspectos particulares da ciência que fazem com que ela tenha sucesso. Então eu me oponho fortemente a essa tendência relativista e pós-modernista, e o que confunde mais é que agora temos o pós-modernismo de esquerda e o pós-modernismo de direita, ambos se afastando cada vez mais…

Silio Boccanera — Eles se afastam da realidade objetiva.
David Wootton — Exato. Na marcha pela ciência, eu vi um cartaz que dizia “existe uma realidade objetiva”. Sim, existe mesmo. Acadêmicos americanos identificam um novo fenômeno no comportamento do público em uma sociedade politicamente polarizada como a americana no momento. Apontam a tendência em acreditar só na narrativa de seu próprio grupo, dos que pensam igual, pouco importa o que digam ou provem os adversários.

A internet cria uma enchente de pontos de vista diferentes e você não consegue diferenciar o certo do errado, pois todos parecem igualmente convincentes na tela. E acho que, com isso, a fofoca está sendo transformada em opinião, e fica bem mais difícil distinguir argumentos bem fundados de preconceito. Acho que a internet está nos levando de volta a um mundo medieval no qual as histórias se espalham rapidamente, sejam verdadeiras ou falsas, e fica impossível descobrir de onde vieram e se são confiáveis.

Silio Boccanera — E o leitor comum não faz essa distinção. Ele absorve tudo, a verdade e a mentira, como parte da mesma coisa.
David Wootton — Um de meus pecados é passar algum tempo no Twitter. E você descobre que as pessoas se reúnem em pequenos grupos. Quem tem opiniões políticas parecidas fala entre si, e se aparece alguém no grupo com uma opinião diferente, eles ficam horrorizados. Em outros grupos há muita gente falando exatamente aquilo. É um processo no qual as pessoas reforçam seus próprios preconceitos e suposições. E acham que quem discorda é irracional e mal intencionado. E o contato que acontecia entre pessoas de pontos de vista diferentes está acabando. Hoje, se você pergunta se fulano leu um artigo do jornal tal, ele responde: “Eu jamais leria esse jornal! Não leio jornais de Murdoch.” As pessoas hoje simplesmente dizem que nem leem. Acho que isso não acontecia há 20 ou 30 anos. Você dizia: “Tenho dúvidas em relação a esse jornal”, mas lia o jornal. Nesse sentido, acho que as pessoas se dividiram em tribos.

Silio Boccanera — Antes, os regimes totalitários adaptavam os fatos a seus objetivos. Hoje estamos vendo isso numa democracia.
David Wootton — Além disso, outra característica dos regimes totalitários é que sabiam o que estavam fazendo. Agiam de forma cínica. O que vemos muitas vezes hoje são pessoas que estão se deixando levar. Não é o fato de Trump estar mentindo deliberadamente, mas de ele pegar a primeira coisa que vem à sua mente e acreditar nela. Os regimes totalitários têm um comportamento racional. Acho que Trump admira Putin porque presume que Putin saiba o que está fazendo. Duvido que Putin admire Trump pelos mesmos motivos. Nesse sentido, acho mais alarmante do que um certo tipo de regime totalitário cujo comportamento ao menos é bem previsível. Estamos lidando com alguém muito mais imprevisível. Trump acha que ser imprevisível é uma virtude quando diz: “Se o inimigo não sabe seu próximo passo, ele fica em desvantagem.” Mas você também fica em desvantagem, porque ninguém vai colaborar com você.

*Entrevista concedida pelo historiador David Wootton, professor da Universidade de York, ao jornalista Silio Boccanera, no programa Milênio, da GloboNews. Transcrição feita pela revista Conjur em 10/07/2017.

 

Publicado em Entrevistas
Quarta, 02 Agosto 2017 20:24

Sem intermediários?

Antes da internet, informação era algo a ser buscado naquelas poucas fontes, tradicionais e da escolha do usuário, como era o caso dos jornais. Essa missão é muito bem descrita nas palavras de Júlio de Mesquita Filho, sobre o “papel do jornal”: “Não procuro dirigir nem criar a opinião pública no meu Estado. Ao contrário, procuro apenas sondar com cautela as opiniões em que o Estado se divide e deixome ir, confiado e tranquilo, na corrente daquela que me parece seguir o rumo mais certo”.

Muita água rolou debaixo da ponte desde que a internet tornou-se personagem central em nosso dia a dia. E tentamos mapear suas características, às vezes com acerto, outras vezes errando o ponto. Certamente a rede representa uma ruptura, de amplitude, alcance e impacto ainda não dimensionáveis, e seu efeito no tecido social é igualmente assustador, podendo ser até mais profundo que seu impacto econômico.

Mas há aspectos em que as coisas podem não ter mudado tanto, ou da forma como imaginávamos e apregoávamos. Um desses casos, penso, é a “desintermediação” que a rede teria trazido: hoje geradores e consumidores de qualquer coisa, desde informação até bicicletas usadas, passando por livros, mantimentos e serviços, poderiam se comunicar diretamente, sem um mediador. Um cenário que apontava para o eventual desaparecimento de muitos tipos de intermediários, o que de fato acontece, mas não de forma absoluta e com sutilezas não previstas nas análises em geral.

O fato é que não somos onipotentes ou oniscientes, e temos limites em absorver dados e em examinar sua coerência e precisão. Em muitos casos, não conseguimos prescindir de curadoria naquilo que consumimos, nem queremos perder o conforto que esse suporte nos trazia. Isso que pode ser óbvio no caso da saúde – ninguém em sã consciência abriria mão da consulta a um médico em troca dos palpites das redes sociais – pode ser menos óbvio no caso da obtenção de informação.

Nesta fase de complexa transição em que vivemos, quando há uma abundância de microfones para todas as bocas, e os dedos são muito rápidos em replicar qualquer fato bombástico sem realizar alguma ponderação anterior, não é de se estranhar que se surja a necessidade, às vezes inconsciente, de novos intermediários. Eles aliviariam nossa carga agindo como “filtros” e avalistas do que recebemos e restaurando algum conforto.

O “papel do jornal”, assim, não desapareceria com o “jornal de papel”, mas iria transmutar-se na internet. Hoje recebemos “sugestões de leitura”, seguimos “youtubers” e canais virtuais, participamos de debates muitas vezes orientados para objetivos não muito claros. O risco é que esse novo e enorme conjunto de intermediários é muito mais fluido e, eventualmente, menos coerente ou fiel aos fatos.

Claro que sempre haverá viés numa história que nos contam mas, no passado, esse viés era mais conhecido e mapeado do que é hoje. E o poder do intermediário pode ter se tornado sub-repticiamente maior do que era. Longe de escaparmos da intermediação em nossas interações, corremos o risco de ser, não apenas mais tutelados, mas modulados pelos intermediários na rede, especialmente os que procuram dominar o cenário global atual, bem distantes da missão definida por Júlio de Mesquita Filho.

Não conseguimos prescindir de curadoria naquilo que consumimos.

*Cientista da computação. Texto publicado originalmente em O Estado de S.Paulo (11/07/2017)

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Com sotaque pernambucano, a jornalista Fabiana Moraes diz sobre um jornalismo universal. Nesta entrevista, realizada por telefone, ela conversa sobre conceitos e vivências, criando pontes entre fronteiras. Objetividade e subjetividade, por exemplo, são faces de um mesmo jornalismo que se (re)aprende e se amplia com o tempo. “A gente fala muito numa transmutação do jornalismo, por conta das novas mídias, das novas tecnologias; e elas alteram forma, produção... Mas isso não joga fora o que a gente tinha antes”, revisa. Para Fabiana, “é um conteúdo rico, honesto, inovador também” que faz a diferença entre tantos meios de comunicar. Dizer e mostrar coexistem mais do que nunca, em uma época onde o jornalismo pode ser todas as mudanças, sem perder a essência.

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