O governo de Nicolás Maduro, da Venezuela, expulsou do país, nesta quarta-feira (29), o jornalista brasileiro Paulo Paranaguá, do jornal francês Le Monde, informou a ONG de direitos humanos Provea. O profissional foi expulso quando tentava entrar na Venezuela para começar o processo de um visto de trabalho, relatou o jornal O Globo. A repressão das autoridades chavistas à imprensa vem desde o governo de Hugo Chávez (1999-2013) e se agravou nos últimos meses, com o país mergulhado em grave crise econômica, política e social.

No caso que envolve Paranaguá, o coordenador-geral da Provea, Rafael Uzcátegui, disse que o repórter tentou pedir a permissão antes de viajar a Caracas, mas não obteve resposta em vários comunicados que enviou. “Disseram a ele que deveria tramitar a credencial antes de ir a Caracas”, assinalou Uzcátegui, que denunciou que aparentemente o jornalista está em uma lista do governo que criminalizou o seu trabalho jornalístico por reportagens anteriores na Venezuela.

Os jornalistas estrangeiros devem tramitar permissões no Ministério da Comunicação e Informação para poder trabalhar na Venezuela, motivo pelo qual o governo reteve e deportou anteriormente comunicadores de vários países. Relatórios divulgados recentemente, ainda segundo O Globo, mostram um panorama sombrio para os meios de comunicação locais e, também, para estrangeiros que enfrentam cada vez mais dificuldades para informar o que acontece na Venezuela. De acordo com o Instituto de Imprensa e Sociedade (Ipys), nos primeiros cinco meses do ano foram fechadas 42 rádios, em sete estados. Em muitos casos, eram emissoras de regiões rurais, onde não existe outra opção de acesso à informação.

O controle a meios estrangeiros também se intensificou, noticiou o jornal do Rio de Janeiro. Estima-se que este ano tenham sido deportados 17 enviados especiais de veículos de vários países, entre eles o Brasil. Outros jornalistas estrangeiros foram presos, como dois franceses, submetidos a um tribunal militar e só libertados graças à intervenção do governo da França.

Repressão à imprensa

A situação da mídia na Venezuela é crítica há anos. Entre 2002 e maio de 2017, foram fechados 130 meios de comunicação, segundo a ONG Espaço Público. A censura, a perseguição judicial, as restrições legais e administrativas, as intimidações ou agressões são métodos que utilizam diversas instâncias do Estado da Venezuela para controlar e castigar jornalistas e meios de comunicação independentes e críticos ao regime, de acordo relatórios de diferentes entidades de defesa à livre expressão e aos direitos humanos, entre elas a Sociedade Internacional de Imprensa (SIP) e o Comitê de Proteção para os Jornalistas (CPJ). Além de violência a profissionais, o governo faz uso do aparato estatal para atacar a livre expressão.

Por meio da Corporación Maneiro, criada em 2013, por exemplo, o governo impede que insumos, especialmente o papel, cheguem com normalidade aos jornais de linha crítica, o que tem obrigado muitos jornais a deixarem de circular. A Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), por sua vez, fecha empresas de rádio e TV alegando que estão na clandestinidade por não possuir autorizações que a própria comissão deveria ter dado há anos. As concessões não são renovadas como estratégia para ter um férreo controle sobre a mídia. Há ainda ataques cibernéticos à imprensa e a aos jornalistas, além do bloqueio das transmissões de sites na web.

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https://oglobo.globo.com/mundo/ong-acusa-venezuela-de-expulsar-jornalista-brasileiro-do-le-monde-21532259

O fortalecimento do jornalismo profissional é o principal caminho para combater a proliferação de notícias falsas, fenômeno potencializado pelas redes sociais, defenderam nesta terça-feira (9), em Brasília, jornalistas, especialistas em comunicação e parlamentares. A defesa se deu durante a 11ª Conferência Legislativa sobre Liberdade de Expressão, promovida pelo  Instituto Palavra Aberta em parceria com a Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Câmara dos Deputados. Segundo relato da Agência Câmara, existem no Brasil, conforme a empresa Bites, especializada em monitoramento de redes, pelo menos 30 sites voltados à produção de falsidades em larga escala. Juntas, essas páginas somam 9,2 milhões de visitas mensais, sendo que cerca de 72% do tráfego desses sites têm origem nas redes sociais, revelou a Bites.

Trata-se de uma capacidade “gigantesca” de disseminação, disse o diretor da empresa, Manoel Fernandes. Muitos desses sites, informou, têm até dez vezes mais compartilhamentos no Facebook do que portais de empresas jornalísticas consolidadas. “É uma máquina de compartilhamento”, alertou Fernandes durante a conferência, realizada na Câmara dos Deputados. O encontro, informou o jornal O Estado de S.Paulo, foi dividido em dois painéis: o impacto das notícias falsas na democracia e o papel da imprensa na era pós-verdade e o resgate do jornalismo profissional.

O principal antídoto às mentiras espalhadas na web é a atividade jornalística independente, argumentou a presidente do Instituto Palavra Aberta, Patricia Blanco. Segundo ela, apenas o jornalismo produz notícias a partir de critérios técnicos. Patrícia disse acreditar que as pessoas precisam criar o “saudável hábito” de checar a veracidade das notícias antes de a disseminarem.

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) observou que a produção de notícias falsas tinha, em um passado recente, uma “escala artesanal” e com as redes sociais ganharam ares de “escala industrial”. “Isso tem muito impacto na vida social, altera o debate político”, disse. Para o parlamentar, como as redes sociais refletem engajamento político e causam mobilização social, uma falsa notícia pode ter efeitos “catastróficos”. “Há de se dar valor ao jornalismo autêntico”, frisou.

Essa também é a visão do diretor executivo da rádio CBN, Ricardo Gandour. Para ele, a notícia falsa e o erro jornalístico se combatem com mais jornalismo. “A emissão de informação deve ter sujeito, que deve ser cobrado pela sociedade”, disse. Ele defendeu a atividade estruturada e profissionalizada do jornalismo, praticado com princípios e métodos. “O jornalismo é hipernecessário e tenho convicção de que sempre será”, declarou.

A adoção de legislação específica tem sido apontada como uma forma de combater as notícias falsas. O jornalista, advogado e cientista político, Murillo de Aragão, diretor-presidente da empresa Arko Advice, é um dos defensores desse caminho. O Parlamento e o Judiciário, disse, devem se adaptar rapidamente à realidade de disseminação de notícias falsas, que poderão influenciar o resultado das próximas eleições brasileiras, em 2018. Para ele, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o Ministério Público (MP) e a Polícia Federal (PF) devem montar uma força-tarefa para lidar com o problema.

Para entidades do setor, a expressão tem de ser estimulada, e não coibida. A autorregulamentação é o melhor caminho, segundo o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech, que alertou para os riscos da regulação da mídia, base de regimes autoritários.

O secretário de Comunicação Social da Câmara dos Deputados, deputado Márcio Marinho (PRB-BA), destacou que os políticos são especialmente atingidos pela proliferação das notícias falsas e tendenciosas. Ele chamou a atenção para a importância do apuro e do cuidado na confecção da notícia que chega ao cidadão na era da pós-verdade. Na visão do presidente do Conselho de Comunicação Social – órgão auxiliar do Congresso Nacional –, Miguel Ângelo Cançado, “a superação da pós-verdade” passa pelo Parlamento. “Daqui, em sinergia com a sociedade, haverá de sair a solução para as crises que vivemos hoje”, apostou.

A senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), também defendeu, de acordo com a Agência Câmara, a pronta resposta dos políticos às notícias falsas disseminadas sobre eles. Ana Amélia disse que não são apenas as redes sociais que promovem notícias falsas, mas muitas vezes órgãos de imprensa consolidados. A senadora, entretanto, disse que eventuais mudanças na legislação devem ser discutidas com os órgãos de imprensa. A deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) ressaltou que as escolas devem promover a educação para a mídia, ensinando crianças e jovens a se comportar nas redes sociais.

Leia mais em:

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/COMUNICACAO/533220-FORTALECER-O-JORNALISMO-PROFISSIONAL-E-MEIO-DE-LIDAR-COM-NOTICIAS-FALSAS,-DIZEM-DEBATEDORES.html

http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/COMUNICACAO/533222-LEI-E-EDUCACAO-PARA-REDES-SOCIAIS-PODEM-COIBIR-NOTICIAS-FALSAS,-DIZEM-DEBATEDORES.html

http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,instituto-palavra-aberta-debate-liberdade-de-expressao,70001770010

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A celebração do Dia da Liberdade de Imprensa, nesta quarta-feira (3), tem como marca principal a urgência no fortalecimento do jornalismo profissional diante das graves ameaças à livre expressão e à democracia, como a propagação de notícias falsas via redes sociais. A liberdade de imprensa é “crucial” para combater a tendência à “desinformação predominante”, disse o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres. A diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Irina Bokova, por sua vez, afirmou que o mundo vive “um momento no qual uma mídia livre, independente e pluralista nunca foi tão importante”. No Brasil, este também é o mote de uma campanha dedicada à data conduzida em conjunto pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e Associação Nacional de Jornais (ANJ), com a parceria da Unesco.

Durante coletiva em Genebra, Guterres fez um apelo para que os governos e líderes internacionais garantam que a mídia possa atuar livremente, sem sofrerem medidas de repressão. “Uma imprensa livre promove a paz e a justiça para todos. Quando nós protegemos jornalistas, suas palavras e imagens podem mudar nosso mundo”, disse. “Jornalistas vão aos lugares mais perigosos do mundo para dar voz aos que não têm vez. Trabalhadores da mídia sofrem com difamação, violência sexual, detenção, ferimentos e até morte. Nós precisamos de líderes que defendam uma imprensa livre”, afirmou. Na semana passada, relatórios da FreedomHouse, do Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) e da organização Repórteres sem Fronteira (RSF), demonstraram que a liberdade de imprensa sofre “ameaças sem precedentes” no mundo, inclusive em países que até agora eram considerados “modelo”, como os Estados Unidos.

“Jornalismo original, crítico e bem fundamentado”

Em Jacarta, na Indonésia, a diretora-geral da Unesco, Irina Bokova, destacou que, em meio às mais recentes discussões sobre “pós-verdade” e “notícias falsas”, o mundo precisa de um “jornalismo original, crítico e bem fundamentado, orientado por altos padrões profissionais e éticos, e por uma educação em mídia de qualidade”. A chefe da Unesco reconheceu que a imprensa enfrenta atualmente uma “crise de identidade” de seu público. “A mídia como atividade empresarial está sendo abalada em seu núcleo, com o advento das redes digitais e das mídias sociais. Jornalistas cidadãos estão redesenhando os limites do jornalismo”, explicou.

Por outro lado, frisou Bokova, “a credibilidade e o dever de prestar contas da mídia estão sendo questionados”. No meio online, afirmou a dirigente, a linha que separa materiais publicitários e editorais tem se tornado cada vez tênue. Esse cenário, disse, marcado também pela proliferação de informações mentirosas, fragiliza “o cerne do jornalismo livre, independente e profissional”.

Bokova ressaltou ainda que a mídia deve fornecer uma plataforma para “mobilizar novas forças para a tolerância e o diálogo”. A diretora lembrou que a agência da ONU conduz esforços para promover o bom jornalismo, inclusive para protegê-lo das formas mais violentas de censura. “A Unesco lidera este trabalho em todo o mundo, a começar pela defesa da segurança dos jornalistas. Com muita frequência, o assassinato continua a ser a forma mais trágica de censura – em 2016, 102 jornalistas pagaram esse altíssimo preço. Isso é inaceitável e enfraquece as sociedades como um todo”, disse. Em 2017, a agência celebra o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa com o tema “Mentes críticas para tempos críticos”.

Nunca se precisou tanto da imprensa

Essa percepção crítica é uma das características do jornalismo profissional e que fazem dele o principal antídoto aos danos causados pela desinformação às sociedades. Por isso, Abert, Aner, ANJ e Unesco promovem desde o fim de semana passado uma campanha publicitária cujo principal slogan faz eco aos discursos dos líderes mundiais de defesa dos direitos humanos e da livre expressão: “Nunca se precisou tanto da imprensa. Compartilhe isso”.

O diretor executivo da ANJ, Ricardo Pedreira, conta que a publicidade, criada pela agência Africa, do Grupo ABC, reforça a importância da atividade jornalística de qualidade, sobretudo “neste momento de tanta informação desencontrada, de tantos boatos”. A campanha começou com anúncios publicados nas revistas semanais. Os jornais publicaram peças entre segunda-feira (1º) e hoje (3). Desde a terça-feira (2), as emissoras de TV reproduzem um vídeo (também veiculado em sites e redes sociais), enquanto as rádios divulgam spots. Há ainda banners nas páginas dos veículos de comunicação ligados às três associações.

As entidades pretendem promover outras ações como essa ao longo do ano, promovendo também o debate sobre a necessidade de as empresas de mídia social e com base tecnológica, em especial Facebook e Google, assumirem suas responsabilidades com as informações que disseminam.

Leia mais em:

https://nacoesunidas.org/liberdade-de-imprensa-e-crucial-para-combater-noticias-falsas-diz-onu-em-dia-mundial/

http://www.wan-ifra.org/articles/2017/05/01/world-press-freedom-activities-go-global

http://en.unesco.org/wpfd

https://blog.wan-ifra.org/2017/05/01/fake-news-is-not-journalism

http://pt.euronews.com/2017/05/03/dia-mundial-da-liberdade-de-imprensa

 

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A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) lançou nesta semana uma nova identidade visual, preconizando a transformação em seu portal na internet e uma série de outra novidades ao logo do ano dentro das comemorações dos seus 15 anos de atuação. Entre elas, estão dois projetos aguardando aprovação de financiadores. A marca renovada estará estampada em um anúncio na revista Piauí desta semana e já está no site da associação. Na segunda-feira (10), será lançado um vídeo institucional que apresentará oficialmente a logotipo.

A marca começou a ser pensada em janeiro de 2016, quando a nova diretoria da associação decidiu pela mudança. A percepção, conta o secretário-executivo da Abraji, Gulherme Alpendre, era a de que o logotipo antigo, com letras serifadas e um bloquinho de notas estilizado, não mais refletia a atuação da entidade nem condizia com o tamanho da presença da instituição no meio online. “A equipe que desenvolveu o novo logotipo, da Oz Design, baseou-se nos três pilares que fundamentam a ação da Abraji desde sua fundação: a liberdade de expressão, o acesso a informações e a formação profissional”, conta Alpendre.

A Abraji também decidiu reconstruir seu site completamente. “Uma equipe está trabalhando para que o novo projeto entre no ar no final deste mês. A página será também estruturada nos três pilares de ação da associação, com uma linguagem visual que facilitará a navegação e a identificação dos conteúdos”, diz o secretário-executivo da entidade.

A diretoria da Abraji pretende celebrar o aniversário da associação em dezembro, mês no qual foi criada em 2002, no mesmo local que sediou sua fundação, o auditório Freitas Nobre da ECA-USP. A entidade também prepara o 12º Congresso de Jornalismo Investigativo (de 29 de junho a 1 de julho em São Paulo).

Ao longo dos últimos 15 anos, a associação lutou pela Lei de Acesso à Informação (LAI), denunciou agressões a jornalistas e treinou mais de 8 mil repórteres, ajudando a criar um ambiente melhor para o exercício da profissão.

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O jornalismo produzido por veículos de comunicação de credibilidade reconhecida é o principal contraveneno à proliferação de notícias falsas na web e começa a ganhar terreno nessa guerra. Os primeiros resultados positivos ainda são tímidos, mas demonstram o acerto das diferentes frentes promovidas pelas sociedades democráticas com o objetivo de conscientizar e oportunizar instrumentos às audiências que facilitem a diferenciação entre verdade e mentira. Essas são algumas das principais análises feitas por jornalistas e especialistas nesta terça-feira (4) no fórum “O Papel da Mídia Brasileira na Era da Pós-Verdade”, promovido pela Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER).

“Pela primeira vez após anos, houve uma interrupção no processo de glamourização das redes sociais, e empresas como Google e Facebook passaram a dar explicação sobre o efeito colateral e não-planejado de seus algoritmos”, disse Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ). A sociedade e o mercado, agregou Rech, já observam um processo de reversão, ainda que de forma muito embrionária. Para ele, aos poucos, as pessoas vão passar a checar informações, enquanto as marcas terão cautela para não colocar reputação em jogo.

Rech lembrou que estão em curso campanhas publicitárias, sobretudo nos Estados Unidos, para explicitar a diferença entre a produção profissional da informação e a elaboração de informações por meio das redes sociais. Nesse processo, afirmou, cresce a responsabilidade do jornalismo. “A grande imprensa erra, mas busca a correção dos seus erros. A busca pela clareza e a checagem jornalística têm de ser constantes. Não estamos nesta área para fazer amigos, mas para prover a pluralidade das informações com responsabilidade”, enfatizou o presidente da ANJ.

Também é o que defende o jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP Eugênio Bucci. No entendimento dele, em um mercado regido cada vez mais pelo entretenimento, o desejo por diversão passa a orientar o consumo de notícias, segmentado em interesses. “Somos uma sociedade que consome notícias pela emoção e prazer, e não pela razão. Isto acaba orientando o mercado”, disse. Nesse cenário, Bucci salientou que “o exercício do jornalismo de qualidade, nos parâmetros e nos cânones éticos da profissão, tende a produzir um ambiente de debate em que os fatos ficam mais acessíveis, o que pode desmontar a indústria da mentira e da pós-verdade”.

O professor e jornalista citou a “verdade factual”, da obra “Verdade e Política”, da filósofa Hannah Arendt, como substância da política e elo que mantém a democracia inseparável da atividade da imprensa. “O pano de fundo dos fatos nos dá elementos para que possamos manter uma base comum de diálogo a partir da qual podemos divergir. Se não houver essa âncora factual, nós deixamos para trás o projeto democrático e a própria política, e ingressamos no terreno do fanatismo.”

Combate ao “engajamento sem escrúpulos”

Para Carlos Eduardo Lins e Silva, livre-docente em comunicação pela USP e ex-ombudsman e correspondente em Washington do jornal Folha de S.Paulo, o fenômeno global da polarização política criou um “engajamento sem escrúpulos” na difusão de notícias falsas. “Vale tudo para prejudicar um inimigo ideológico”, disse. Ele frisou que o momento atual é bastante delicado, pois lideranças hierárquicas mundiais usam do artifício de divulgar falsas notícias para fins escusos. Como exemplo, citou a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e disse que o republicano ganhou com base no Twitter e nas mentiras. “Há uma indústria da pós-verdade, com remuneração por resultados”, argumentou.

Segundo Lins e Silva, notícias falsas sempre existiram. “A novidade é a simplicidade e o baixo custo, a capacidade de proliferação rápida e com grande abrangência geográfica”, disse, destacando ainda a formação de uma “indústria da pós-verdade nas mídias sociais que, ao povoarem com anúncios as mídias mais acessadas, premiam a mentira e a notícia falsa”. Lins e Silva afirmou que a tendência é de que isso cresça. “O desafio é enorme e a única saída é o profissionalismo, amparado na checagem de informações”, destacou.

Investimento em credibilidade e certificação

Paulo Tonet, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Rádio e Televisão (ABERT), lembrou que estudos mostram que a grande credibilidade a respeito da cobertura de fatos continua nos veículos que “consagram o jornalismo como princípio”. Para ele, “a avalanche de mentiras” que tem sido produzida em tempos de mídias sociais precisa ser combatida com “mais jornalismo de credibilidade”. Tonet afirmou que o trunfo dos veículos tradicionais está no posicionamento, já que leitores sabem a quem cobrar em caso de erros e informações equivocadas. “É diferente das redes sociais, onde não há auditoria ou regulamentação de natureza jurídica ou de conteúdo”. A arma da imprensa contra a prática das mentiras, comentou o presidente da ABERT, passa pelo exercício da credibilidade, com a certificação do bom jornalismo e da informação crível.

Fabio Gallo, presidente da ANER, destacou que a chamada pós-verdade influenciou e continua influenciando questões políticas, econômicas e sociais, agora com velocidade da informação, sobretudo na internet. “Em meio a inúmeros conteúdos compartilhados, muitas vezes verdades e mentiras se misturam. Uma confusão que também pode ser descrita como ameaça”, frisou. “Nós, representantes da mídia, temos de fazer nosso papel. É por isso que estamos aqui hoje”, acrescentou. O diretor de redação da revista Época, João Gabriel de Lima, apresentou uma visão otimista do futuro e ressaltou a credibilidade conquistada pelos grandes veículos. Abordando o papel das revistas neste cenário, enalteceu o aspecto consolidador dessas publicações ao aprofundar o assunto, os perfis e as histórias. “É nisso que temos de investir”.

O fórum contou ainda com a presença do filósofo Luiz Felipe Pondé e de Francisco Leopoldo Carvalho de Mendonça Filho, da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República, que falou sobre reformas estruturais e desinformação.

Leia mais em:

 

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/04/1872684-especialistas-discutem-conceitos-de-verdade-e-pos-verdade-no-jornalismo.shtml

http://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2017/04/04/pos-verdade-interrompeu-a-glamourizacao-das-redes-sociais.html

http://www.anj.org.br/2017/04/05/contra-noticia-falsa-informacao-confiavel/

http://aner.org.br/pos-verdade-e-credibilidade-jornalistica-sao-debatidas-em-sao-paulo/

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