Quinta, 03 Agosto 2017 12:39

Uma chance para o otimismo

A disseminação da falsidade causou muito estrago, mas há iniciativas para fazer a apuração profissional ganhar fôlego e conter a barbárie.

Basta puxar da memória para apenas um ano atrás. As expressões pós-verdade e fake news ainda não haviam sido transplantadas de alguns poucos trabalhos acadêmicos, o mundo seguia embasbacado pelos números estonteantes de audiência de Google e Facebook e pelo glamour exalado por duas marcas que conquistaram o universo digital e da comunicação praticamente sem resistência. No lado dos ocupados, havia apenas desalento: circulações em queda, receitas migrando na ponte aérea para o duopólio dos gigantes digitais e, pior, dedos apontados para jornalistas e meios de comunicação, desterrados ao passado sob o peso da expressão “mídia tradicional”.

Passados menos de seis meses, o jornalismo profissional começa a se erguer do pântano em que fora metido. Agora, volta a andar de cabeça em pé graças a um embrionário processo de reconhecimento do papel que a história reservou à profissão: servir de mediadora entre fatos e fenômenos com o público, valendo-se dos relatos mais fidedignos possíveis e da pluralidade de visões. Ironicamente, são agora os antigos profetas do futuro que, constrangidos, se veem na condição de dar explicações, buscar justificativas e improvisar iniciativas de relações públicas para tentar demonstrar que se preocupam em agir contra a onda planetária de notícias falsas.

É uma guinada e tanto. Há apenas cinco anos, na esteira da Primavera Árabe, as redes sociais eram incensadas como os novos libertadores dos povos oprimidos. Finalmente, os sem–voz e sem acesso direto a meios de comunicação de massa tinham encontrado uma forma de transmitir sua mensagem para outros que pensavam como eles e, em última análise, para o resto do mundo. Embevecidos pelo novo instrumento que permitia emitir uma mensagem sem filtros, a custo baixíssimo e de forma instantânea, os com-voz não perceberam os primeiros sinais de que a cada ação corresponde uma reação. Quando o desejo de liberdade chegou ao Irã, o regime estava mais preparado. A repressão identificou e prendeu os líderes da rebelião contra o poder dos aiatolás. Bastou seguir as pegadas digitais nas redes sociais e nos sistemas de trocas de mensagens. Duas revoluções começavam a morrer ali: a da liberdade no Oriente Médio e a que prometia liberdade de expressão sem limites e barreiras.

Ingenuamente, a humanidade foi se entregando às redes, sem perceber que neste mundo não há nada de graça. O produto de Facebook e Google é o acesso à privacidade, um bem extremamente valioso quando se trata de oferecer publicidade dirigida ao gosto e hábitos do freguês. No caso das redes, havia outro fenômeno em formação sem que nem seus criadores se dessem conta dos efeitos tóxicos que estavam gestando. Ao fragmentar o mundo em bolhas de opinião e interesses, o algoritmo que define o que cada um vai ver ou ler oferece ao usuário mais do mesmo, na expectativa de que ele se manifeste, compartilhe ou dê likes sobre o conteúdo, revelando assim mais e mais sobre si mesmo. O engajamento é o negócio dos gigantes, e, quanto mais alguém interagir com o conteúdo, mais estará servindo aos propósitos de Facebook e Google.

Essa fórmula era apenas uma eficiente forma para identificar o cliente mais propenso a adquirir um determinado produto até que a indústria da manipulação, motivada principalmente por interesses ideológicos e econômicos, se deu conta de que haviam encontrado uma avenida para seus propósitos. Para incentivar engajamento, o algoritmo esquadrinha o comportamento dos indivíduos e divide-os, por exemplo, entre os que frequentam o açougue e os que só põem os pés no mercado vegetariano. Um não quer saber do outro e, mesmo que quisesse, o algoritmo não pretende ajudar a construir uma ponte entre os dois universos. Ao contrário, ele reforça as crenças e valores de cada usuário, que, quanto mais se engaja com um enfoque, mais recebe sobre ele. E assim teve inicio a escalada de intolerância que assusta a quem acompanha as consequências do pugilato digital.

Desejo de aniquilação

Outro efeito colateral, não previsto nos primórdios das redes: para conquistar adeptos e likes, o usuário tem de postar ou compartilhar conteúdos cada vez mais espetaculares e radicais, num crescendo de virulência robustecido a todo instante pelo algoritmo. O resultado é que o frequentador do açougue ou do mercado vegetariano acabam não querendo mais apenas saber as novidades em carnes, frutas e verduras. Eles desejam é a aniquilação do outro, a imposição de seus costumes sobre as tribos adversárias. O fenômeno ficou popularizado como bolhas ou câmaras de eco, nas quais as mesmas opiniões se repetem em infinitos likes, esmagando ou expulsando visões dissidentes.

A indústria da manipulação identificou no mesmo mecanismo um campo fértil para as campanhas eleitorais. Demonstrar o valor e o projeto do candidato nas redes já não é mais o objetivo principal. A indústria se deu conta de que as pessoas preferem compartilhar conteúdos espetaculosos, fofocas e temas apimentados. No Brasil, por exemplo, a “candidata lésbica” ou o “candidato traficante” ganharam muito mais compartilhamentos do que as propostas de ambos para a Previdência Social.

Para reforçar a mensagem sensacionalista, era preciso também desacreditar os meios de comunicação e o jornalismo profissional, a derradeira barreira de contenção a avalizar ou não as inverdades ou meias–verdades a zanzar pela web. Assim, veículos forjados por gerações de profissionais no esforço da credibilidade foram transformados em vilões, suspeitos de ocultar informações sob a acusação de estarem mancomunados com o adversário, fosse ele quem fosse. Ao usuário comum, que assim imagina ter acesso a informações muito sigilosas sobre o que “a grande mídia quer esconder”, a história passa a se revestir de ares de verdade restrita a alguns escolhidos. E assim nascem e florescem as teorias da conspiração, um fenômeno que, até a difusão das redes, vivia na redoma do exotismo, como a história de que Hitler está vivo ou de que o homem nunca pisou na Lua. De uma hora para outra, teorias delirantes passaram a ganhar amplos espaços e vida próprios, transformando o que seriam antigamente eleitores bem-intencionados em crentes de que Hillary Clinton de fato mandava matar desafetos.

Sem barreiras legais ou éticas, especialistas em adulteração de informações passaram a agir nos desvãos das campanhas. Nas Filipinas, a foto de uma menina de nove anos, que teria sido morta por usuários de drogas, foi decisiva para a eleição do truculento Rodrigo Duterte em 2016, meses antes de Trump. A menina fora assassinada no Brasil em 2014, mas quem se importa com os desmentidos? Nas redes, a mentira sobe de elevador, enquanto a aborrecida correção segue, resfolegante, pelas escadas. Durante a campanha, o odor de sangue transformou os eleitores filipinos em tubarões sedentos de carne, numa escalada que só foi possível graças às redes sociais.

Identificar inimigos ocultos e gerar pavor é uma tática antiga de conquistar adeptos e converter recalcitrantes. Dos comunistas comedores de criancinhas aos horrores do nazismo contra os judeus, o século 20 foi farto em campanhas difamatórias com fins políticos. Mas as redes aceleraram dramaticamente esse processo. O medo da invasão dos imigrantes deu alento ao Brexite a ameaça de um terrorista em cada esquina foi decisiva para a vitória de Donald Trump.

No mundo idealizado das redes, as pessoas se organizariam por autogestão, em sintonia perfeita, para compartilhar conteúdos edificantes. Há, claro, muitos conteúdos educativos, de alto nível e – por que não? – divertidos nas redes. Mas imaginar que o trânsito da megalópole poderia se autogerir sem semáforos, placas ou guardas durou apenas até o momento em que as gangues viram uma oportunidade e tomaram conta das ruas, valendo-se da ingenuidade dos motoristas bonzinhos e daqueles aparentemente sensatos que acabaram reféns dos bandidos.

Efeitos colaterais

Na virada do ano, estarrecido pela fábrica de mentiras que ajudou a eleger o presidente da maior potência do planeta, o mundo começou a acordar. Aqui e ali, loucuras originárias da web passaram a tirar pelo menos um pequeno grupo de estudiosos e formadores de opinião da letargia em relação aos efeitos colaterais do mundo em redes. Um desses efeitos tóxicos ocorreu em 24 de dezembro de 2016, quando o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, tuitou a seguinte frase, a propósito de uma suposta entrevista do ministro da Defesa de Israel na qual ameaçaria retaliar uma possível intervenção paquistanesa no conflito sírio: “Israel esquece que o Paquistão é uma potência nuclear também”.

A ameaça acendeu o alerta laranja em Israel. A declaração do ministro israelense jamais fora feita: a entrevista que desencadeou a pesada reação paquistanesa era uma invenção do início ao fim, disseminada como notícia verdadeira pela web. Ou seja, duas potências nucleares estiveram à beira de uma crise diplomática por causa de uma entrevista falsa que enganou e indignou muita gente. A sofisticação de algumas montagens de fato torna difícil distinguir a verdade à primeira vista, mas bastaria uma checagem na fonte original para desmascarar os farsantes.

Nesse preocupante mundo novo da informação, não é suficiente, porém, ostentar uma marca de credibilidade para abrir as portas do paraíso aos jornalistas. A técnica profissional, como em qualquer outra atividade, precisa evoluir para um estágio mais avançado e profundo e produzir um conteúdo muito diferenciado, disponível até agora em poucos veículos do planeta. Para atender à demanda por uma qualidade superior, jornalistas terão de aprender a agir como cirurgiões – de modo rápido e preciso sob pressões tremendas, desviando-se de armadilhas ocultas, sem praticamente nenhum espaço para o erro. Boa parte da pressão virá diretamente do público, ávido por descobrir o que há de verdade sobre um acontecimento ou compreender suas implicações, já não mais em uma questão de dias ou semanas, mas de horas ou minutos.

O consumidor desse jornalismo cirúrgico poderia ser comparado a alguém que, se sentindo doente, recorre ao Google e digita seus sintomas. O fato é que, no caso de algo potencialmente sério, ninguém se contenta com os conteúdos espalhados pela internet. O paciente procura um médico e, diante da complexidade, recorre a um especialista, e assim por diante.

Um processo similar vai ocorrer no campo da comunicação. Os indivíduos continuarão sendo contaminados pela radiação perversa emanada pelas notícias falsas – afinal, há e haverá mais e mais informações distorcidas cientificamente pelos charlatães que atuam na web. Mas, como informação de qualidade será um bem valioso, a tendência que primeiro se busque o refúgio da credibilidade em um jornalismo com menor risco de contágio por interesses políticos e econômicos, ou seja, aquele produzido por alguma forma de guia profissional que persegue princípios básicos universais, como a busca da verdade e a correção de eventuais erros.

Em jogo, a reputação

Naturalmente, como na história do diagnóstico médico, há bons e maus doutores, centros de saúde de referência e outros que mereceriam ser fechados. Achar o melhor jornalista e marca jornalística será como identificar os melhores médicos e hospitais. No futuro, com a sofisticação dos processos de seleção de informação e avaliação de fontes, a reputação será o grande divisor de águas entre curandeiros da noticia e profissionais do jornalismo de alto nível.

A indústria da informação está sendo transformada radicalmente pela tecnologia. No entanto, tecnologia, para esse jornalismo em um novo patamar, não será um fim em si mesmo, mas um instrumento pai a alcançar novas audiências, desencavar matérias, interagir, providenciar diferentes formas de acesso e apresentação e, assim, gerar novas experiências e níveis de engajamento. Embora profundamente conectada à tecnologia, a imprensa não está no ramo de desenvolvimento de software. O núcleo da atividade se assentará cada vez mais sobre a confiança. Esse será o bem mais valioso do futuro – para o sistema econômico, que pode ser devastado por rumores, por governos e políticos, que têm o dever de prevenir a disseminação de informações falsas e preservar a democracia, e, naturalmente, para os indivíduos e a sociedade civilizada.

Confiança se tornou tão indispensável porque nunca antes o apocalipse moral esteve tão próximo – não na forma de códigos nucleares, mas mimetizado como verdade em conteúdos apócrifos. Nos próximos cinco ou 20 anos, o mundo será desafiado por uma inesperada sucessão de ameaças desencadeadas pela difusão de informações falsas, seja por robôs programados para espalhar a cizânia ou por bem-intencionados cidadãos semianalfabetos em termos midiáticos e, portanto, presas fáceis do compartilhamento de sandices. Ao mesmo tempo, as redes sociais e suas bolhas deverão prosseguir em sua jornada rumo à progressiva intolerância e alienação do pensamento divergente.

Apesar de o mundo começar a se dar conta de que o antídoto para os fakebooks da vida é jornalismo profissional em um patamar superior, a sociedade ainda está longe de aceitar que esse produto não é barato. Na realidade, para desmontar versões em escala permanente e generalizada, as empresas de mídia precisarão de mais e mais recursos no momento em que já são profundamente afetadas pela drenagem de verbas canalizadas para o duopólio Google e Facebook.

A ironia é que o modelo de negócios dos gigantes digitais depende do conteúdo de qualidade, exatamente o que as melhores redações produzem. Somente quando os dois mundos se complementarem em um modelo harmônico e sustentável, capaz de manter o jornalismo vivo, vibrante e em permanente evolução, os sujeitos maus serão expulsos da cidade pelos xerifes da verdade. É bom avisar os bandidos. Os mocinhos estão ressurgindo para restabelecer a conversação pacífica e respeitosa, defender a democracia e exterminar os fatos alternativos da face da Terra. Mas, antes que seja tarde demais, precisam do apoio da cidade e de seus cidadãos de bem.

*Presidente do Fórum Mundial de Editores e da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Vice-presidente editorial do Grupo RBS. Artigo publicado originalmente na Revista de Jornalismo ESPM – Nº 19

 

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Quarta, 02 Agosto 2017 18:38

Trump em desequilíbrio acelerado

Quando o deputado democrata Ted Lieu, da Califórnia, apresentou seu projeto de lei propondo a incorporação de um psiquiatra à equipe médica que acompanha todo presidente dos Estados Unidos, parecia que o louco era ele. Ou, no mínimo, que era um temerário, pois Donald Trump, que acabara de tomar posse, já dera sinais abundantes de reagir mal a insinuações sobre seu equilíbrio emocional e capacidade de liderança.

Na verdade, a proposta do congressista de segundo mandato, em cujo gabinete está afixado o aviso “Zona livre de fatos alternativos”, tem fundamento, lógica e modernidade. Quase nove décadas atrás o Congresso americano aprovara a lei que instituiu a obrigatoriedade da presença de uma equipe médica na Casa Branca. William Harding, o presidente anterior à lei votada em 1928, morrera subitamente no exercício do poder, e cabia a dúvida se o desfecho teria sido outro se ele tivesse tido assistência permanente.

Lieu explica que a visão mundial de saúde mental na época do voto de 1928 não contemplava a necessidade de um psiquiatra ou psicólogo. Mas que no século XXI, graças aos recursos e conhecimentos adquiridos, a importância da saúde mental de qualquer ser humano — presidente ou não — corre junto com o seu bemestar físico. “A meu ver”, resumiu o parlamentar para a jornalista Amy Goodman, “a Casa Branca precisaria ter um psiquiatra ou um psicólogo à disposição o tempo todo… Quando você tem um presidente que mente patologicamente, e que acredita em fatos alternativos, penso que isso pode ser um problema”.

Visto que desde 2015 todo novo recruta das Forças Armadas dos Estados Unidos é obrigado a se submeter a um teste de saúde mental, o comandante em chefe dessa força militar — o presidente — poderia dar o exemplo. Até porque recai sobre ele a decisão final, se necessário, de disparar ou não quatro mil armas nucleares em questão de minutos contra um inimigo.

Quando termos como “distúrbio de personalidade narcisista” e “personalidade borderline” começaram a circular entre profissionais e leigos, o jornalista Lee Siegel analisou a cautela da mídia em especular sobre as raízes do comportamento errático de Trump. Siegel argumenta ser obrigação da imprensa tratar do tema, uma obrigação para com o público. “Um diagnóstico profissional nem sempre é necessário”, escreveu ele na Columbia Journalism Review. “Quando alguém mente de forma compulsiva, se contradiz sem parar, implora pelo apoio de pessoas ao mesmo tempo que as ataca, exalta alguém um dia e no dia seguinte o vilipendia, a questão do estado mental está colocada. Neste caso o mais seguro é não apenas manter distância do personagem, como mantê-lo longe de situações em que ele possa causar danos”.

Por vezes a linha de ação e pensamento de Trump é tão desconectada da realidade, que sequer serventia tem para a vala comum das mídias sociais. Um tuíte por ele postado de Hamburgo, por exemplo, enquanto se reunia com o Grupo dos 20, gerou pasmo:


“Aqui todo mundo está comentando o que levou John Podesta a entregar o servidor da campanha democrata ao FBI e à CIA. Vergonhoso!”, escreveu @TheRealDonaldTrump. Só que em Hamburgo nenhum dos líderes do G-20 tinha a menor ideia do que atazanava a mente do presidente.

No mês anterior, o constrangimento maior foi dos próprios americanos. Trump havia convocado a mídia para testemunhar (e transmitir) a primeira reunião de seu ministério na Casa Branca. Era o 143º dia de sua presidência e todos tomaram assento em torno de uma imensa mesa de jantar. Trump, entronizado no meio, abriu a sessão com delirante elogio a seu próprio desempenho. Em seguida, instruiu os demais para fazerem o mesmo: elogiar o novo ocupante da Casa Branca segundo a perspectiva de cada setor.

O primeiro a humilhar-se foi o chefe de gabinete, Reince Priebus:

“Em nome de toda a equipe de primeiro escalão, Sr. Presidente, agradecemos a oportunidade e a bênção recebida por poder servir à sua agenda e ao povo americano”, discursou, emocionado. “Continuamos a trabalhar diariamente para alcançar essas metas”. (Esta semana o mesmo Priebus foi chamado de “fucking esquizofrênico-paranóide” pelo novo diretor de Comunicação, Anthony Scaramucci, em entrevista para a revista “New Yorker”.)

Todos os convocados para a reunião ministerial se prestaram à aguardada genuflexão verbal ao chefe. “É uma honra poder servi-lo”, garantiu o procurador-geral, Jeff Sessions, que esta semana está sendo fritado grosseiramente pelo presidente… “É um privilégio estar aqui. Me sinto profundamente honrado”, arriscou o secretário do Trabalho… “O povo do Misssissippi adora o senhor”, atestou o secretário de Agricultura, à falta de algo mais imponente. É provável que em 228 anos de história presidencial dos Estados Unidos jamais foi registrado um espetáculo tão patético. E deprimente. Trump, que já se comparou a Franklin D. Roosevelt, a Lincoln e a George

Washington, saiu da reunião como um rei sol.

Em comparação, a desajeitada referencia à ausência de palmas feita por Michel Temer na cerimônia de comemoração da concessão de quatro aeroportos até soa simpática.

*Texto publicado originalmente no jornal O Globo de 30/07/2017. A premiada jornalista Dorrit Harazim é colunista do jornal do Rio de Janeiro.

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Após um 2016 em que as meias-verdades se transformaram em mentiras corriqueiras e descaradas, em especial dos agentes políticos, muitos jornalistas e organizações de mídia permanecem inseguros sobre como devem combater a profusão de notícias falsas e cobrir pessoas poderosas que mentem. Em texto publicado pelo site britânico especializado Journalism, o jornalista, escritor e analista de mídia do Reino Unido, Phil Harding, ex-diretor de Política Editorial da BBC, detalha o atual cenário do fenômeno conhecido como pós-verdade e diz que é preciso mudar para que o jornalismo possa combater as falsidades. Harding esmiúça as principais frentes que podem ajudar jornalistas e empresas a vencer esse desafio, incluindo verificação de fatos; filtros às notícias falsas (nas mídias sociais e, também, nas companhias que produzem conteúdo); mudanças nos motores de busca na internet; coberturas jornalísticas mais próximas das pessoas; defesa dos princípios democráticos; e alfabetização midiática. Abaixo, um resumo do que sugere o jornalista.

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No Brasil, o comércio de cliques não está nos mercados da deep web e o uso publicitário desses serviços, apesar de questionável, não é ilegal, relata O Globo. Contudo, destaca o jornal do Rio de Janeiro, a manipulação de algoritmos pode ter outras consequências, desde a destruição da reputação de uma pessoa à vitória numa eleição. Em recente relatório, a empresa de segurança Trend Micro estima que é possível, por exemplo, desacreditar um jornalista com campanhas em redes sociais com cerca de US$ 55 mil.

Os pesquisadores fizeram uma simulação a partir de hipotético comunicador popular, com 50 mil seguidores no Twitter, 10 mil amigos no Facebook e um blog que publique três artigos semanais, com média de 200 comentários em cada texto. Em uma campanha de quatro semanas, diz e a empresa de segurança, é possível manchar a reputação desse profissional, usando uma mescla de serviços que inclui notícias falsas e compra de seguidores e curtidas. É possível até comprar comentários, para criar uma ilusão de credibilidade.

O primeiro passo, diz o relatório citado pelo jornal O Globo, é criar uma conta e dar a ela aparência de real, com muitos seguidores, curtidas e comentários comprados. Feito isso, detalha o diário fluminense, o ataque é iniciado, com exércitos de contas falsas comentando e compartilhando notícias mentirosas contra o jornalista e nos textos do profissional, tanto no Twitter como no Facebook. “O resultado? Por cerca de US$ 55 mil, um internauta que lê, assiste ou faz outras buscas sobre o conteúdo falso da campanha pode ser levado a ter uma impressão fragmentada e negativa do jornalista”, diz o relatório.

No Brasil, basta procurar no Google por “vendo curtidas” que aparecerão até empresas anunciantes. Numa das ofertas, no Mercado Livre, o vendedor oferece 500 seguidores no Instagram por R$ 14,90, sendo que o “lote”, com cem mil seguidores, sai por R$ 2 mil. Ou seja, 300 mil seguidores custam R$ 6 mil. As vendas acontecem livremente na internet. É uma área cinza, não existem leis que proíbam esse tipo de manipulação, afirma André Alves, conselheiro técnico da Trend Micro Brasil.

Outro ponto abordado no estudo foi o impacto no processo decisório, “de eleições, acordos comerciais e referendos até decisões financeiras pessoais”. Numa campanha, os pesquisadores da Trend Micro sugerem que um operador por comprar alguns sites na região alvo, que fazem referência um ao outro para conferir credibilidade. No início, o ideal é que notícias reais sejam publicadas, e distribuídas pelas redes sociais, para conquistar uma presença online.

Quando o momento decisório se aproximar, esses sites são usados para publicar notícias falsas, que são amplificadas por redes de bots e contas reais infladas com seguidores comprados. “Uma campanha de 12 meses com orçamento de US$ 400 mil deve ser capaz de ao menos atrair uma multidão de pessoas com percepção e crenças aliadas com a da agenda da campanha”, aponta o relatório. “O fator decisivo para o sucesso da campanha é, entretanto, o timing, ou quão rápido o conteúdo falso pode se espalhar antes de a decisão ser tomada”.

Essa prática, classificada como “ciclo da opinião pública” no relatório, tem se difundido nos últimos processos decisórios em todo o mundo, e alertado os defensores do sistema democrático. Nos EUA, a eleição do presidente, Donald Trump, foi marcado pelas fábricas de notícias falsas, o mesmo aconteceu no Brexit. No Brasil, a campanha presidencial e o processo de impeachment de Dilma Rousseff foram marcados pela presença de redes de bots nas redes sociais. “Existe a tendência de pensar que a manipulação de uma eleição acontece nas urnas, nas máquinas de voto, mas hackear essas máquinas é muito difícil. Não existe notícia de que isso tenha acontecido no mundo”, afirma Alves. “Mas podemos dizer que sim, uma eleição pode ser hackeada”.

A pesquisa mostra também como podem ser insufladas as carreiras de algumas celebridades da web que usam a influência sobre seguidores para lançar tendências e promover produto. O relatório da Trend Micro mostra que com US$ 2.600, cerca de R$ 8.200, é possível comprar 300 mil seguidores e enganar os algoritmos de redes sociais. “Esse mercado tem um impacto no algoritmo. As contas com mais seguidores são apresentadas como de maior relevância; 300 mil seguidores é volume suficiente para uma conta ser notada pelo algoritmo e ter sua influência ampliada”, comenta André Alves.

Leia mais em:

https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/com-compra-de-seguidores-possivel-criar-uma-celebridade-com-8-mil-21603422#ixzz4nHqtgBac

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Em um mundo no qual o consumo de informação é cada vez mais digital, mobile e disruptiva, os publishers brasileiros registraram em 2016 alguns resultados animadores, segundo a pesquisa anual do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford, na Inglaterra, divulgada na semana passada. Em estudo que entrevistou mais de 70 mil pessoas em 36 países, as empresas de comunicação do Brasil obtiveram o segundo melhor índice de confiança entre os pesquisados, 60%, atrás apenas da Finlândia, com 62%. A credibilidade dos produtores de conteúdo, mostrou o levantamento, também é alta em Portugal, Polônia e Holanda, mas, na Coreia do Sul, fica em 23%. A média dos países pesquisados é de 43%.

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