Facebook lucra como nunca e falha como sempre na solução de problemas que afetam a vida de bilhões de pessoas

Ao informar esta semana os resultados superlativos em seus negócios nos primeiros três meses de 2017 em relação ao trimestre inicial do ano passado, o Facebook voltou a fazer uma série de promessas sobre como pretende limpar o lixo que se propaga nas suas plataformas. Em meio à sujeirada, estão notícias falsas, preconceitos, intolerância, pedofilia, mortes ao vivo, falta de segurança às marcas anunciantes, métricas superdimensionadas, algoritmos de aplicação imoral e criminosa (um deles estudando até mesmo a fragilidade emocional de jovens) e descompromisso nas parcerias com publishers, todas elas de resultados comerciais frustrantes até aqui. O problema é que a eficiência demonstrada pela empresa de Mark Zuckerberg para faturar alto e avançar em direção a uma série de novos negócios contrasta com sua aparente incapacidade na limpeza dos detritos. Ineficiência essa demonstrada por escândalos e distorções sociais que parecem ocorrer semanalmente, apesar dos reiterados compromissos com a busca por soluções.

Do ponto de vista financeiro, o Facebook nunca esteve tão bem. O lucro primeiro trimestre de 2017 em relação ao mesmo período do ano passado cresceu 76,6%, impulsionado pela alta nos negócios com publicidade para dispositivos móveis. Mais de 1,2 bilhão de pessoas acessaram a mídia social todos os dias entre janeiro e março, 18% a mais na comparação com os primeiros três meses de 2016. No fim de março, a empresa contava com 1,94 bilhão de usuários ativos ao redor do mundo (incremento de 17%). A estimativa de analistas é que, neste ritmo, o crescimento ultrapassará 2 bilhões de usuários até fim de junho próximo, um quarto da população mundial.

O lucro líquido atribuível aos acionistas do Facebook subiu para US$ 3,06 bilhões, ou US$ 1,04 por ação, no primeiro trimestre, ante US$ 1,73 bilhão, ou US$ 0,60 por ação, no mesmo período do ano passado. A receita total subiu para US$ 8,03 bilhões contra US$ 5,38 bilhões no primeiro trimestre de 2016. O faturamento com publicidade para dispositivos móveis representou cerca de 85% da arrecadação total com propaganda, de US$ 7,86 bilhões, no primeiro trimestre deste ano. Em 2016, o percentual era de 82%. A rede social dever gerar US$ 31,94 bilhões de dólares em receita com propaganda para dispositivos móveis neste ano no mundo, alta de 42,1% sobre 2016, segundo a empresa de pesquisa de mercado eMarketer. A companhia de análise projeta que, se confirmado, esse resultado deverá dar ao Facebook 22,6% de participação no mercado mundial de publicidade móvel, logo atrás do Google (35,1%).

Ajustes para permanecer no topo

A empresa de Mark Zuckerberg parece mostrar competência até mesmo ao preparar terreno a uma provável desaceleração, sinalizando aos investidores que tamanha velocidade de crescimento tem limites, mesmo que isso faça muita gente segurar a respiração. “Uma empresa que tem faturamento anual de quase US$ 30 bilhões, mas ainda está crescendo em quase 50% por trimestre é quase inédito. Mas também levanta a possibilidade de que este fenomenal crescimento vai começar a desacelerar, e é provável que os investidores estejam assustados com isso”, comentou o jornalista Mathew Ingram, especialista em tecnologia da revista Fortune.

O Facebook, de fato, afirmou em sua última atualização trimestral que espera ver sua taxa de crescimento de publicidade “cair significativamente” em 2017, muito por conta da redução no volume de publicidade que fará em seu feed de notícias. Ao mesmo tempo, o Facebook disse que seus custos deverão aumentar em mais de 50% no próximo trimestre, uma vez que faz uma série de investimentos no que chamou de “iniciativas significativas”: as tais promessas para limpar o lixo.

As notícias falsas pautam as agendas políticas

Na prática, a empresa norte-americana patina na faxina. No ambiente político, a França é o caso mais recente. O Facebook informou ter feito um esforço para evitar a propagação de mentiras na sua plataforma e, com isso, evitar embaralhar a eleição presidencial do país, como havia ocorrido no processo eleitoral dos Estados Unidos e no referendo que levou a Inglaterra a abandonar a União Europeia, em 2016. A dois dias do segundo turno da eleição presidencial, neste domingo (7), entretanto, uma enxurrada de notícias falsas tomou conta das redes sociais.

As desinformações, boatos e mentiras migraram do virtual para o real e pautaram o último debate entre os candidatos Emmanuel Macron e Marine Le Pen. E, mais uma vez, as farsas virtuais ocuparam o espaço que deveria ser do debate sobre o bem-estar dos franceses. Em se tratando da França, o mesmo tinha ocorrido na primeira etapa da disputa eleitoral francesa, em abril, marcada pelas falsidades, mesmo com todos as medidas anunciadas pelo Facebook.

Mundo cão ao vivo e à mão

Ao malefício das mentiras que interferem no destino político do mundo, somam-se outros escândalos estarrecedores. Muitos concentram-se no sistema de vídeo ao vivo implantando pelo Facebook em 2015. Em julho de 2016, uma norte-americana transmitiu a morte do próprio namorado, baleado por um policial dentro do carro. Em 16 de abril deste ano, outro norte-americano, Steve Stephens, fez um streaming (o Facebook nega que tenha sido ao vivo) dele mesmo assassinando um idoso sem motivo algum. Após permanecer foragido, o assassino suicidou. Recentemente, na Tailândia, em transmissão ao vivo na rede social de Mark Zuckerberg, um pai matou a filha, de 11 meses, e em seguida se enforcou. O vídeo ficou no ar por quase 24 horas.

Após essas atrocidades, o Facebook disse que vai contratar mais 3 mil funcionários ao longo do próximo ano. O trabalho deles será responder a denúncias de publicação na rede social de material inapropriado e acelerar a remoção de vídeos exibindo assassinatos, suicídios e outros atos de violência, disse o Zuckerberg nesta semana. “Apesar da indústria alegar o contrário, eu não conheço nenhum mecanismo computadorizado que pode fazer este trabalho adequadamente, com precisão, 100 por cento em vez de seres humanos. Nós não temos essa tecnologia ainda”, disse Sarah Roberts, professora de estudos de informação na Universidade da Califórnia em Los Angeles, que acompanha o monitoramento de conteúdo.

Sarah, porém, lembra que essas pessoas enfrentarão dificuldades psicológica extremas para realizar seus trabalhos. “As pessoas podem ser altamente afetadas e dessensibilizadas. Não está claro que o Facebook esteja mesmo ciente dos resultados a longo prazo, não importa o quanto procure controlar a saúde mental dos trabalhadores “, disse.

Opções para encantar audiências

Ao mesmo tempo, o Facebook continua apostando em vídeos (neste caso, conteúdo próprio, ensaiando competir com broadcasts) como negócio principal, no Instagram, plataforma de imagens do Facebook em rápida evolução (já tem 700 milhões de usuários), e em outras parafernálias tecnológicas, das mais simples (as reações a comentários de outras pessoas, por exemplo) às de extrema complexidade (como o drone Aquila, que pode voar 27,5 km e permanecer no ar durante 90 dias). Messenger, WhatsApp e Oculus VR provavelmente não representarão receitas no curto prazo, dizem especialistas, mas tem papel importante no ambicioso cardápio oferecido por Zuckerberg.

Leia mais em:

http://fortune.com/2017/05/03/facebook-results/?iid=sr-link3

http://www.businessinsider.com/facebook-q1-earnings-preview-what-to-expect-2017-5?nr_email_referer=1&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_content=TechSelect&pt=385758&ct=Sailthru_BI_Newsletters&mt=8&utm_campaign=BI%20Tech%20%28Wednesday%20Friday%29%202017-05-03&utm_term=Tech%20Select%20-%20Engaged%2C%20Active%2C%20Passive%2C%20Disengaged

http://br.reuters.com/article/internetNews/idBRKBN17Z20H-OBRIN

https://www.theguardian.com/technology/2017/may/04/facebook-content-moderators-ptsd-psychological-dangers?utm_source=esp&utm_medium=Email&utm_campaign=GU+Today+USA+-+Collections+2017&utm_term=224515&subid=21718551&CMP=GT_US_collection

https://www.statista.com/chart/2496/facebook-revenue-by-segment/

http://www.bbc.com/mundo/noticias-39806985

http://link.estadao.com.br/noticias/cultura-digital,facebook-agora-permite-reacoes-em-comentarios,70001762141

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,macron-entra-com-acao-por-divulgacao-de-noticias-falsas-a-seu-respeito,70001763401