Facebook promete soluções para suas distorções, muitas das quais favorecem a rede social. #SQN

Uma das mais bem-sucedidas expressões populares no meio digital, “Só que não” (ou apenas SQN), ajusta-se neste momento como uma luva na mão do gigante de mídia com base em tecnologia de propriedade de Mark Zuckerberg. #aosfatos.

Depois de muito hesitar, o Facebook prometeu, em novembro de 2016, investir em artilharia pesada para combater a propagação de notícias falsas em sua rede social. #SQN. Seis meses depois, elas não apenas continuam lá, como também há indícios de que, uma vez sinalizadas como mentirosas, algumas histórias são ainda mais compartilhadas.

Há muito tempo o Facebook promete não enganar os anunciantes com métricas distorcidas de anúncios. #SQN. Isso continua a ocorrer, e a empresa norte-americana as chama de “falhas” (a companhia admitiu pelo menos dez delas desde setembro do ano passado, que causaram prejuízos aos anunciantes).

O Facebook promete não fazer uso antiético dos dados de seus quase 2 bilhões de usuários. #SQN. Recentes relatos mostram uma sofisticada utilização dessas informações que não poupa nem adolescentes.

O Facebook promete vantagens aos publishers, dos quais replica notícias que o ajudam a manter o ambicionado engajamento do público. #SQN. Nenhuma parceria com produtores de conteúdo se mostrou rentável o suficiente para quem coloca pesados recursos em jornalismo profissional. No caso de vídeos ao vivo, os benefícios aos publishers ainda não estão claros, enquanto os do Facebook são cristalinos, mesmo que ele não consiga estancar estarrecedoras e mortíferas publicações em tempo real (na mais recente, um norte-americano ateou fogo no próprio corpo antes de morrer).

O Facebook nega ser uma empresa de mídia. #SQN. Em breve, a empresa estará, por exemplo, concorrendo diretamente com as emissoras de TV (aberta e paga) e companhias como Netflix a partir de produções próprias de séries, sempre distribuídas em sua plataforma.

Há vários outros #SQN nas atividades do Facebook, que nos últimos meses têm apresentado um cardápio maior do que a rede social diz serem correções de problemas, enquanto segue sendo notícia por seus defeitos. Novamente, #aosfatos.

Combate às notícias falsas #SQN

O Facebook disse ter colocado em prática medidas para coibir a propagação de notícias falsas. A mais recente, divulgada na quarta-feira (17), passa por atualizações de algoritmos com o objetivo de reduzir o número de posts com chamadas “exageradas ou enganosas” cujo objetivo é obter muitos cliques e, consequentemente, ganho financeiro.

Filipe Vilicic, da revista Veja, diz que, além dos algoritmos, o “Facebook também usará softwares de inteligência artificial (AI, em inglês) para identificar frases e termos usualmente usados nos ‘caça-cliques’, muitos dos quais links com notícias falsas”. Será que vai funcionar? Por enquanto, tudo que foi prometido ficou no #SQN e, para piorar, há indícios que tenha estimulado um efeito contrário.

O jornal britânico The Guardian revelou que o sistema criado pelo Facebook de sinalização das notícias comprovadamente distorcidas (resultado do trabalho de jornalistas de fact-checking) com a tag “disputede” (discutível, controversa… nada como uma cabal FALSA) é, muitas vezes, ineficaz. Em outras situações, elevou o tráfego de notícias falsas, enlameando mais ainda o ambiente na rede.

O The Guardian, informou que a marcação de posts mentirosos não é consistente, e algumas histórias sinalizadas continuam a circular sem aviso prévio. Há ainda confusão quanto ao tipo de informação falsa e seu objetivo. É o caso dos sites sarcásticos, cujo humor somente pode ser compreendido por seres humanos e não pelos robôs de Mark Zuckerberg.

Mas o efeito colateral é o que há de mais nefasto. Foi o caso da mentira deslavada publicada pelo site Newport Buzz: uma história sobre como milhares de irlandeses foram levados para os Estados Unidos como escravos. A narrativa não exigiu muito dos verificadores do Snopes.com e da Associated Press, que a marcaram como falsa. Mas o editor do site, Christian Winthrop, contou que o tráfego do texto aumentou significativamente depois que o Facebook aplicou o aviso.

“Um grupo de conservadores engajou-se e disse: ‘Ei, eles estão tentando silenciar este blog: compartilhe, compartilhe'”, disse Winthrop ao The Guardian, explicando o efeito multiplicador da mentira.

“Um dos problemas com o tipo de processo de verificação de fato que o Facebook implementou, dizem sociólogos e psicólogos, é que ele só funciona se os usuários confiarem tanto na rede social como nos verificadores de fato de terceiros com os quais ela se associou”, ressalta o jornalista especializado em tecnologia da revista Fortune, Mathew Ingram. “Para pelo menos alguns consumidores de notícias, o fato de que o Facebook e Snopes sinalizaram algo como falso faz com que eles tenham maior probabilidade de acreditar [na mentira]”, lamenta Ingram.

O ator James Woods, contou o jornalista da Fortune, conhecido por fazer comentários de direita no Twitter e em outros lugares, expressou exatamente esse sentimento recentemente, dizendo: “O fato de que @facebook e @snopes ‘disputam’ uma história é o melhor endosso que uma história poderia ter”.

Ingram comenta ainda que, em ensaio recente, a socióloga danah boyd (ela escolheu soletrar seu nome sem letras maiúsculas) argumentou que o Facebook e o Google não podem resolver o problema das notícias falsas porque se trata de fenômeno conduzido pela natureza humana e choque de culturas. Certamente algo complexo demais para a compreensão de algoritmos e, muito provavelmente, de softwares de AI.

Por tudo isso, o editor da seção de leitores do The Guardian, Paul Chadwick, faz uma recomendação simples e óbvia, mas fundamental numa época de tanta desinformação: “Na minha opinião, a notícia falsa, nesta era de transição do analógico para o digital, representa uma ameaça tão séria que os códigos de ética do jornalismo profissional de longa data deveriam ter acrescentada a eles uma nova obrigação: expor notícias falas como falsas.

Apoio ao jornalismo e responsabilidade com as notícias #SQN

O jornalismo tem sido procurado pelo Facebook (e Google) para ajudar no combate a notícias falsas, mas o fato de a rede social se negar a sair do seu rico armário para assumir sua identidade de empresa de mídia parece contribuir para a ineficácia das ações até aqui. Nessa lógica, as parcerias firmadas por Mark Zuckerberg com publishers e outros veículos e grupos de jornalismo profissional lembram uma balança viciada, que pende para o lado da rede social. E o Facebook parece fazer uso dessas experiências para preparar um novo e rentável negócio para ele logo à frente.

A distribuição de conteúdo em ferramentas como Instant Articles e o AMP, por exemplo, engordou apenas os cofres das duas empresas de tecnologia. As parcerias para a produção de vídeos online parecem tomar o mesmo caminho. “Em última análise, a equação custo-benefício para os editores que distribuem conteúdo de vídeo em plataformas sociais ainda não é clara”, escreveu Pete Brown, do Columbia Journalism Review, ao analisar o acordo firmado entre Facebook e The New York Times para a produção de vídeos ao vivo.

Mesmo no caso dos jornais locais dos Estados Unidos que, segundo Lucia Moses, do Digiday, comemoram o interesse do Facebook (e também do Google) por suas operações, a cobiça dos gigantes de tecnologia é estridente. “Eles parecem estar abertos para se envolver mais em ajudar a missão do jornalismo local”, diz Neil Chase, editor-executivo do Bay Area News Group, que realmente precisa de ajuda, como milhares de pequenas e médias empresas de comunicação espalhadas pelo mundo. Ocorre que os velozes executivos do Facebook e do Google logo perceberam que a informação local é um ótimo caminho para estreitar relações com os usuários, justamente em meio ao bombardeio de críticas por nada fazerem contra as notícias falsas.

“Os representantes do Google e do Facebook falam sobre como seu trabalho de apoio às notícias locais contribui para o jornalismo e às culturas locais, mas nada disso é pura boa vontade, é claro”, lembra Lucia Moses. “Google e Facebook são empresas cujo valor, no caso do Google, é baseado na sua capacidade de organizar todas as informações do mundo, incluindo locais, e, no caso do Facebook, na capacidade de manter as pessoas em sua plataforma fechada, dando-lhes conteúdo que se preocupam. Por isso, é do seu interesse ter um ecossistema de notícias locais saudáveis”, afirma a jornalista

Respeito à privacidade #SQN

Cresce o cerco da União Europeia (UE) às práticas do Facebook que ferem regras de competitividade e legislações. Nesta quinta-feira (18), por exemplo, o Facebook foi multado em € 110 milhões pela Comissão Europeia por fornecer informações enganosas ligados à aquisição do WhatsApp há três anos. Com a sanção, aplicada após uma investigação de seis meses, espera-se que seja um duro aviso para outras empresas que enfrentam problemas semelhantes.

Também nesta semana a França multou a empresa por não ter respeitado regras da lei de privacidade do país, dentro de uma investigação que também é feita na Bélgica, Holanda, Espanha e Alemanha. Entre as infrações – que na França envolvem quase 33 milhões de pessoas – estão o rastreamento de dados por meio de sites sem o conhecimento dos usuários e a permissão para que anunciantes acessem as informações dos cadastrados na rede social norte-americana. A sanção, embora pequena (€ 150 mil), é a primeira ação significativa tomada contra uma empresa que faz transferência de dados da Europa para os Estados Unidos e pode ser a primeira porta aberta para multas bem mais pesadas.

Em futuras investigações, a França poderá emitir multas de até € 3 milhões (cerca de R$ 10 milhões), com base em lei aprovada em outubro de 2016. Foi este o valor da sanção aplicada na semana passada pela Itália à empresa norte-americana, com foco no WhatsApp, que obrigava os usuários a concordar em compartilhar dados pessoais com o Facebook. Além disso, a partir de 2018, o Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR) vai introduzir um único conjunto de regras de privacidade em todos os 28 estados membros da UE, e elevar as multas para € 20 milhões (US$ 22 milhões) ou 4% da receita globais das empresas.

Anúncios com alta performance #SQN

Nesta terça-feira (16), o Facebook informou ter descoberto um problema em seu sistema de anúncios que elevava o número de cliques em publicidade exibida na rede social, levando anunciantes a, efetivamente, pagar por visualizações que não existiram, informou o jornal Valor Econômico. Diante da aberração (a décima apenas de setembro para cá, a companhia se comprometeu, pela primeira vez, a reembolsar alguns clientes.

Em post em seu blog oficial, o Facebook afirmou que a diferença no número de cliques era bem pequena e foi registrada quando os usuários acessaram o site pelo celular e clicaram nos anúncios no formato de “carrossel de vídeos” para expandi-los. O formato permite que os anunciantes coloquem múltiplas imagens, vídeos e textos dentro de um mesmo anúncio, que os internautas podem escolher o que ver. De acordo com o Facebook, o problema afetou especificamente os anunciantes que pagaram por anúncios que tinham como objetivo atrair acesso para um determinado site. Segundo a empresa, o erro de cobrança afetou só 0,04% dos anúncios exibidos no período em que a questão foi monitorada.

As revelações, relatou o Valor, geraram uma onda de questionamentos e uma pressão por mais transparência nos dados fornecidos pela companhia. Em novembro, a rede social criou um blog só para divulgar novas falhas que ela tenha detectado. A companhia também criou um conselho de medição, formado por profissionais da área de marketing e executivos de agências, para opinar sobre o funcionamento do sistema. A rede social também se aliou a empresas de medição independentes.

Por enquanto, no entanto, todas as promessas de solução feitas pelo Facebook não se concretizaram. O site Digiday chegou a pedir aos anunciantes que classificassem anonimamente cada um dos problemas de medição (sempre superestimando resultados) do Facebook em uma escala de 1 a 10. A nota mais alta (7) foi dada ao estrago causado, por dois anos, pela equivocada medição do tempo médio que os usuários passaram assistindo vídeo no Facebook. Em alguns casos, os números do Facebook estavam 80% errados.

Limites éticos no uso de dados pessoais #SQN

As espertezas da política de anúncios do Facebook não se limitam a métricas que supervalorizam a eficiência comercial da rede social. Elas também estão presentes na composição de anúncios mais eficazes a partir de detalhados estudos de comportamento dos usuários e, o que é pior, o compartilhamento disso com clientes. “É sempre interessante – e geralmente alarmante – quando alguém consegue espreitar através das cortinas fortemente protegidas da estratégia de publicidade do Facebook”, disse Michael Beach, editor do The Sunday Times, da Austrália, em artigo no qual ele ressalta a importância do que revelado por outro jornal australiano, The Australian, da News Corp.

A reportagem, de Darren Davidson, mostrou que a rede social de Mark Zuckerberg identificou e repassou adiante dados (com base em fotos, vídeos, comentários, compartilhamentos, curtidas etc) sobre a vulnerabilidade emocional de jovens usuários australianos, com até 14 anos, para promover publicidade. O relatório – produzido para “um dos quatro bancos mais importantes da Austrália”, conforme informou o The Australian – explicita que algoritmos da rede social foram programados para perceber quando um jovem se sente “estressado”, “derrotado”, “sobrecarregado”, “ansioso”, “nervoso”, “estúpido”, “bobo”, “inútil” e um “fracasso”. O Facebook, lamentou o diário australiano em editorial, “levou o marketing a um novo e insidioso nível, tão antiético quanto pessoalmente invasivo”.

A documentação, com trechos publicados pelo jornal australiano, foi produzida por dois altos executivos da companhia, identificados como David Fernandez e Andy Sinn, e cita que a rede social possui um banco de dados dos cerca de 6,4 milhões de usuários, entre estudantes e jovens trabalhadores australianos De posse dessas informações, contou a reportagem, o Facebook sugere na apresentação destinada à instituição bancária tendências comportamentais dos jovens em pelo menos dois momentos da semana.

Em 2012, a rede social havia sido duramente criticada depois de realizar uma experiência em quase 700 mil usuários desavisados. Ao usar um algoritmo para determinar se uma postagem era negativa ou positiva, o Facebook foi capaz de alterar quais atualizações de status apareceram no feed de notícias de um usuário individual. O objetivo era determinar se o humor do grupo selecionado poderia ser influenciado. Os resultados foram publicados em uma revista científica, mas a empresa foi criticada por manipular as emoções das pessoas para ganho comercial

Beach conta que, no caso australiano, o Facebook relutou, mas acabou se retratando, sem deixar de jogar a bomba no colo de seus executivos. “O Facebook só permite pesquisas que sigam um procedimento rigoroso de revisão sempre que os dados sensíveis, particularmente os que envolvem jovens ou seu comportamento emocional, disse a empresa. “Esta pesquisa não parece ter seguido este processo.”

Davidson disse não ter se convencido com a defesa da rede social, que responsabiliza uma operação local pela desonestidade descoberta por ele. “Tudo o que realmente eles fazem é vender anúncios. Não produzem qualquer outro conteúdo, e os tomam gratuitamente de jornais, revistas, redes de TV. Agregam tudo isso e, em seguida, vendem agressivamente anúncios contra ‘os globos oculares’. Eles sabem muito bem o que estão fazendo”, frisou o jornalista.

Leia mais em:

https://www.theguardian.com/technology/2017/may/16/facebook-facing-privacy-actions-across-europe-as-france-fines-firm-150k?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=35fa688a7c-dailylabemail3&utm_medium=email&utm_term=0_d68264fd5e-35fa688a7c-386384393

http://link.estadao.com.br/noticias/empresas,uniao-europeia-pode-multar-facebook-em-mais-de-us-270-milhoes,70001789544

http://fortune.com/2017/05/16/facebook-fact-checking/

https://www.theguardian.com/technology/2017/may/16/facebook-fake-news-tools-not-working?utm_source=API+Need+to+Know+newsletter&utm_campaign=303ea122d9-EMAIL_CAMPAIGN_2017_05_17&utm_medium=email&utm_term=0_e3bf78af04-303ea122d9-45815109

https://www.cjr.org/tow_center/facebook-live-new-york-times.php?CJR

https://digiday.com/media/local-news-outlets-find-unlikely-ally-duopoly/

http://www.valor.com.br/empresas/4970202/facebook-descobre-nova-falha-em-seu-sistema-de-medicao-de-anuncios

http://marketingland.com/facebook-admits-10th-measurement-error-214819?utm_source=Daily+Lab+email+list&utm_campaign=35fa688a7c-dailylabemail3&utm_medium=email&utm_term=0_d68264fd5e-35fa688a7c-386384393

HTTPS://DIGIDAY.COM/MARKETING/FACEBOOK-MEASUREMENT-ERRORS/

http://www.inma.org/blogs/digital-strategies/post.cfm/facebook-s-advertising-strategy-raises-questions-over-ethical-practices?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=nonmember

https://www.wsj.com/articles/facebook-refunds-some-advertisers-after-finding-new-measurement-bug-1494954000

https://www.buzzfeed.com/mbvd/a-man-is-dead-after-setting-himself-on-fire-while-streaming?utm_term=.scbe0XOK8P#.xayg8O2oe1