Capa do NYT que simboliza a marca de 100 mil mortes pela COVID-19 nos EUA revela a importância do jornalismo local

Capa do NYT que simboliza a marca de 100 mil mortes pela COVID-19 nos EUA revela a importância do jornalismo local

A impactante capa do jornal The New York Times do último domingo (24), que estampa mil nomes da longa lista de quase 100 mil mortos pela COVID-19 nos Estados Unidos, não é apenas uma forma inovadora de documentar de forma fiel o drama de saúde no país. A iniciativa, que compila obituários de vítimas publicados em vários jornais norte-americanos, revela o quão fundamental é o jornalismo local no esforço de informar os fatos com a maior fidelidade possível e, ao mesmo tempo, retratar a importância de cada vida perdida.

Simone Landon, editora assistente da área de design e gráficos do The New York Times, diz que o objetivo era apresentar o número simbólico de uma maneira que realmente expressasse a vastidão e a variedade de vidas perdidas. Segundo ela, a equipe do jornal trabalhou com a percepção de que, diante de tantas mortes, havia uma natural fadiga diante dos números brutos. “A capa também é uma resposta a um pouco da fadiga que estamos sentindo. Estamos cansados de números", afirma ela em reportagem do próprio The New York Times.

“Colocar 100 mil pontinhos ou tracinhos numa página não nos diria muito sobre quem são estas pessoas, as vidas que viveram, o que tudo isso significa para o país”, continua Simone. "Sabíamos que tinha de haver alguma maneira (diferente) de lidar com esse número", assinala. Foi aí que surgiu a ideia de compilar os obituários publicados por outros jornais.

O pesquisador Alain Delaquérière revisou diferentes fontes on-line de obituários nos quais a COVID-19 foi identificada como a causa da morte. Em paralelo, uma equipe de editores de diferentes seções da redação, além de três estudantes de jornalismo, selecionaram frases que retratam a singularidade de cada vida perdida. Trata-se de uma "rica tapeçaria" que não poderia ter sido tecida sozinha, destaca Simone.

O esforço evoca a vida de cada uma das vítimas. Por exemplo: “Julie Butler, 62 anos, veterinária da cidade de Nova Iorque que trabalhou no Harlem”. Ou então: “Mari Jo Davitto, 82 anos, Thornton, Ill., as pessoas eram o seu hobby”. Ou ainda:  “Clair Dunlap, 89 anos, Washington, piloto que ainda ensinava as pessoas a voar aos 88 anos”.

Estão lá “Joe Diffie, 62 anos, de Nashville, estrela da música country distinguida por um Grammy”, e “Lila A. Fenwick, 87 anos, de Nova Iorque, a primeira mulher negra a formar-se na Harvard Law School”. E “Myles Coker, 69 anos, de Nova Iorque, libertada após ser condenada à prisão perpétua”. Estes breves epitáfios recordam as vítimas da doença sem as deixarem esquecidas na avalanche de mortalidade que se abateu sobre o estado de Nova Iorque, assinala o jornal português Publico.

Quando chegou o momento de compor a capa, duas ideias despontavam: uma grade com centenas de imagens daqueles que perderam a vida por causa da COVID-19 ou de um conceito "todo tipográfico". Nos dois casos, as vítimas ocupariam a página inteira. O conceito tipográfico, uma referência a jornais seculares, acabou vencendo pelo seu impacto visual. 

Acima dos nomes que ocupam a primeira página está a manchete "Mortes nos EUA se aproximam de 100.000, uma perda incalculável". Em seguida, o jornal enfatiza: “Estas mil pessoas representam apenas um por cento do total. Nenhuma delas era apenas um número. Eles não eram simplesmente nomes em uma lista. Eles eram nós".

Para Marc Lacey, chefe de redação do jornal norte-americano, a capa do último domingo é um documento histórico. “Queríamos algo que as pessoas pudessem reler daqui a 100 anos para entender o peso do que estamos vivendo”.

Leia mais em:

https://www.nytimes.com/interactive/2020/05/24/us/us-coronavirus-deaths-100000.html

https://www.nytimes.com/es/2020/05/23/espanol/portada-NYT-coronavirus-victimas.html

https://www.publico.pt/2020/05/24/mundo/noticia/new-york-times-dedica-primeira-pagina-mil-vitimas-covid19-1917897