Estudo detalha experiências nas quais o modelo de negócios protege o conceito editorial

Estudo detalha experiências nas quais o modelo de negócios protege o conceito editorial

Enfrentando crise semelhante à da indústria jornalística global, os jornais argentinos têm procurado imprimir um ritmo mais acelerado na adaptação ao meio digital. Os grandes diários migraram, a partir de 2017, para o modelo de assinaturas digitais e têm feito experiência com produtos complementares, como podcasts e newsletters, entre outros. Há até algumas iniciativas que lembram o modelo e associação de leitores e doadores, que lembram a estratégia do britânico The Guardian. Mesmo assim, e também pelas características da Argentina, há um longo caminho pela frente em busca da sustentabilidade financeira, analisa o jornalista Javier Borelli em estudo pelo Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo. Segundo ele, o caminho mais eficaz para superar as dificuldades é assumir que não há crise no jornalismo, mas sim no modelo de financiamento da atividade jornalística, como fizeram as startups eldiario.es, da Espanha, e Mediapart, da França.

Borelli destaca que, em Buenos Aires, mais de 3 mil jornalistas perderam o emprego entre 2016 e 2019. Cerca de 40% trabalhavam para a mídia escrita. Ao mesmo tempo, há crescente perda de credibilidade dos jornais junto ao seu público, afirma o jornalista. Borelli lembra que 61% dos argentinos não confiam em notícias, de acordo com o Digital News Report (DNR) do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo. Quase a metade dos argentinos (45%) reconhece que “frequentemente” ou “às vezes” tentam evitar notícias.

Outra característica da Argentina é que a publicidade do governo sempre foi importante para as organizações privadas de notícias. “Essa é provavelmente a razão pela qual a queda nas vendas diárias e na publicidade privada não afetou sua lucratividade por anos”, diz o pesquisador. Além disso, os grandes jornais procuram deixar seus paywalls bastante flexíveis, em um cuidado compreensível, afirma Borelli. “O principal site de informações da Argentina, Infobae, é um site de acesso gratuito, cujas receitas são provenientes de tráfego e publicidade”, explica.

Ao mesmo tempo, o acesso direto às primeiras páginas das notícias é maior (22%) do que na Espanha (20%) e França (17%). Há também o hábito generalizado de procurar notícias na Internet. E, nos últimos tempos, mais pessoas dizem que procuram fontes de prestígio para recuperar sua confiança, afirma o jornalista. “Isso significa que há um potencial para novos projetos vinculados a esses fatores”, diz Borelli, acrescentando que, na América do Sul, a cultura de pagamento por notícias digitais é ainda incipiente. “Ainda há muito a ser feito”.

Em seu estudo, Borelli enfatiza o caso do Tiempo Argentino, o primeiro jornal argentino a desenvolver um modelo de associação e do qual ele participa. O veículo é administrado desde 2016 por uma cooperativa de jornalistas. Tem edição diária digital e uma versão impressa aos domingos (dia em que as vendas de jornais são triplicadas). “Os membros pagam uma taxa adicional para apoiar a construção de um projeto independente e garantir que ainda mais leitores possam acessar conteúdo gratuito. Nós somos solidários. As pessoas pagam não por informações exclusivas, mas para que mais pessoas possam nos ler”, diz Borelli. As associações representavam 70% da receita do jornal.

Como presidente da cooperativa que controla o Tiempo, Borelli decidiu estudar os casos do eldiario.es, na Espanha, e do Mediapart, na França. “Ambos foram financiados por jornalistas experientes e respeitados que procuravam manter o controle da linha editorial e compartilhar a propriedade”, diz. "A chave é que o modelo de negócios protege o modelo editorial", disse Ignacio Escolar, diretor do eldiario.es em entrevista a Borelli. "Se eldiario.es tivesse nascido apoiado por um fundo de investimento ou um grupo de comunicação maior, não teríamos como fazer o que fizemos".

A Mediapart, por sua vez, resumiu essa abordagem em seu slogan: "Somente nossos leitores podem nos comprar". O veículo criou um modelo sem publicidade sustentado totalmente por assinaturas. “Somos valiosos por causa das informações que fornecemos. Os leitores nos ajudam a existir porque, sem nós, haveria muitas coisas que eles não saberiam", sintetiza o editor do Mediapart, Edwy Plenel.

Leia mais em:

https://reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/risj-review/journalism-argentina-crisis-lessons-spain-and-france-may-hold-key-survival